9/abr/2013, 5h59min

Setor vitivinícola se modernizou, mas ainda passa por desafios no RS

Foto: Silvia Tonon

Felipe Prestes

A cadeia da uva no Rio Grande do Sul evoluiu tecnologicamente, passou a produzir vinhos finos, não apenas vinhos de mesa, e se expandiu para outras regiões do Estado, além da Serra. Contudo, os desafios ainda são grandes: há a concorrência externa, de Chile e Argentina; boa parte dos produtores ainda não conseguiu inserir-se na evolução tecnológica e o setor ainda é incipiente fora da Serra.

Hoje, a cadeia vitivinícola responde por 1% do PIB gaúcho, segundo estudo do economista da Fundação de Economia e Estatística (FEE) Carlos Paiva. “Isto é bastante expressivo”, ele afirma. O estudo, baseado em dados de 2008, mostra também que a expressão do setor para o Rio Grande do Sul se dá porque todos os elos da cadeia estão no estado. “Tem uma cadeia completamente integrada, com todos os elos no Rio Grande do Sul. Todo o dinheiro fica na mão dos gaúchos”, afirma o economista.

Carlos Paiva destaca que uma característica positiva da cadeia da uva é ser democrática. “Há uma distribuição de renda muito equânime entre todos os elos da cadeia. E boa parte dos processos é feita majoritariamente por cooperativas”.

O Panorama Setorial feito pela Embrapa, em 2010, mostra dados do Cadastro Vitícola do Rio Grande do Sul (2005/2007) que apontam que o Estado tem 38.505 hectares de parreirais, distribuídos em 15.384 propriedades. A região da Serra Gaúcha registra uma área total de 31.363 hectares de parreirais distribuídos em 12.037 propriedades. A área média das propriedades desta região é de aproximadamente 14 hectares, uma estrutura de minifúndio, com mão-de-obra familiar.

O economista da FEE também destaca a evolução do setor no Estado. “Passou de um vinho de quinta categoria para produtos de ótima qualidade”, explica. Um dos marcos disto, segundo Panorama Setorial de 2010, feito pela Embrapa Uva e Vinho, ocorreu em novembro de 2002, quando a Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale) ganhou a primeira Indicação de Procedência do Brasil – IP Vale dos Vinhedos. “Além de promover a melhoria qualitativa e de imagem do vinho fino brasileiro, assumiu o papel referencial, irradiando um movimento no mesmo sentido, em outros polos vitivinícolas da região da Serra Gaúcha”.

Entretanto, de acordo com o estudo da Embrapa, assinado por José Fernando da Silva Protas e Umberto Almeida Camargo, esta modernização “limitou-se a um número restrito de empresas interessadas, quase que exclusivamente, na produção de vinhos finos e, um número ainda menor, na produção de suco de uva”.

José Fernando Protas explica ao Sul21 que a cadeia vitivinícola é segmentada no Rio Grande do Sul. Um dos segmentos é focado nas uvas americanas ou híbridas, que servem de matéria-prima para sucos de uva e vinhos tradicionais, um segmento que foi a base de todo o setor. “O outro segmento é bem mais recente, surge nos anos 1970, cuja base é a produção de uvas europeias, como merlot e cabernet”.

As uvas americanas são menos sensíveis a fungos que as europeias, por isto as pequenas propriedades familiares estão mais aptas a produzir as primeiras. “Este segmento tradicional se mantém absorvendo pouca tecnologia, há uma defasagem e produz uma uva de baixa qualidade”, explica o pesquisador da Embrapa.

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José Fernando Protas afirma que programa pode reparar defasagens tecnológicas de produtores, vinícolas e trazer gestão inteligente | Foto: Embrapa

Programa para desenvolver o setor entra no Brasil Maior

Na semana passada, um programa para modernização da vitivinicultura coordenado por Embrapa e Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) foi incluído no plano Brasil Maior, a política industrial do Governo Federal. Haverá linhas específicas para o setor no Pronaf, para os produtores de uva, e do BNDES para modernização das vinícolas. Além disto, haverá assistência técnica e melhorias na gestão.

“Muitas vezes a relação entre produtores e vinícolas era conflituosa. Agora, para aderirem ao programa deverão manter um contrato. O produtor terá garantia de que venderá sua matéria-prima, mas também terá compromissos de plantar o que está acertado com a vinícola. Vai se estabelecer uma gestão inteligente ao mesmo tempo em que se repara defasagens dos produtores e das vinícolas”, conta Protas.

Cerca de 80% da produção do Rio Grande do Sul ainda é de uvas híbridas ou americanas. E a ideia é que as pequenas propriedades continuem produzindo esta matéria-prima. Por suas características topográficas, por ter pequenas propriedades, pela tradição consolidada, a região da Serra não é a mais adequada para os vinhos finos. “Mas com esta modernização vai produzir vinhos tradicionais e sucos de uva de melhor qualidade”, afirma o pesquisador da Embrapa.

Uma das tendências de modernização têm sido a produção de suco de uva em detrimento do vinho de mesa. Segundo Sérgio Feltraco, que coordenou a política industrial do Governo do Estado para o setor, na última safra 51% da uva colhida no Rio Grande do Sul já foi destinada aos sucos de uva. Um dos casos emblemáticos desta mudança foi o surgimento da Cooperativa Nova Aliança, que uniu cinco cooperativas da Serra que produziam vinhos a granel e passavam por dificuldades. Com um financiamento de R$ 83 milhões (55 milhões pelo BRDE) a nova cooperativa construiu uma planta que aumentou a capacidade de produção de sucos de uva e passou dos vinhos a granel para os vinhos com embalagem.

Apesar de estarem na liderança em volume, os sucos de uva ainda não lideram em geração de riqueza, uma vez que os vinhos têm muito maior valor agregado, explica Carlos Paiva. “O suco de uva cresce muito, tomando espaço daquele vinho que não conseguiu se qualificar. Mas como os vinhos têm maior valor agregado, ainda geram mais recursos, especialmente os vinhos finos”.

Vinhedo em Santana do Livramento: topografia da Metade Sul favorece produção em larga escala de vinhos finos | Foto: Celito Guerra

Para economista, Metade Sul ainda não tem cadeia vitivinícola

O Cadastro Vinícola Nacional registrou na safra de 2010 a atividade de 531 empresas que processaram 526 milhões de kg e elaboram vinho, suco de uva e outros derivados da uva e do vinho no Rio Grande do Sul. Destas 475 estão na Serra Gaúcha, as quais processaram 519,3 milhões de kg de uva. Portanto, a produção da fruta ainda se dá esmagadoramente na Serra.

Por sua topografia e pela abundância de terras, a Metade Sul tem sido pautada pela produção de vinhos finos. Na Serra, esta produção é muito localizada em regiões como o Vale dos Vinhedos e muitas vezes focada no enoturismo e na gastronomia. O perfil do produtor da Metade Sul é diferente do da Serra: são grandes empresas como Miolo e Almadén, ou agricultores e profissionais liberais que começam a investir no ramo.

Apesar da presença crescente não só na região da Campanha, mas nas Serras do Sudeste (região que engloba cidades como Candiota e Encruzilhada do Sul) ainda não há uma cadeia vitivinícola na região, segundo Carlos Paiva. “Algumas vinícolas se expandem na Metade Sul, mas não configura um novo polo ainda. O setor não cresce a ponto de gerar um polo. Na Serra se produzem todos os insumos, desde barris até os aditivos necessários à produção. Na Metade Sul não”, explica. “A questão da Metade Sul não se resolverá com o setor vitivinícola. Pode ser importante, mas sempre será periférico em todo aquele território, que é muito grande”, afirma. Para Paiva, a modernização da produção de carnes ainda é a principal chave para a região.

José Fernando Protas afirma que é “complexo” o crescimento do setor vitivinícola na Metade Sul, porque é no segmento dos vinhos finos que há a pressão dos vinhos da Argentina e do Chile. Mas ele acredita que com a produção em larga escala, grandes empresas ou cooperativas têm como ter preços competitivos e um grande portfólio de produtos. “As vinícolas menores, que não puderem competir em preço têm que entrar no mercado alternativo, de vinhos de butique”.

Para Protas, o segmento que pode gerar mais emprego e renda à Metade Sul é o do turismo. “É preciso que haja estímulos ao enoturismo na região. Assim você gera uma cadeia de serviços, de restaurantes, de transporte, atrai eventos”, diz, dando como exemplo a cidade de Bento Gonçalves.

Para economista da FEE, vinhos e sucos de uva gaúchos precisam de maior divulgação | Foto: Silvia Tonon

Produtos precisam maior divulgação

Carlos Paiva ressalta que o crescimento do setor no RS em relação a outros locais é pequeno. Os vinhos finos, por exemplo, têm dificuldade em competir com Chile e Argentina, devido à valorização cambial. O economista da FEE acredita que o Governo Federal precisa criar condições para reverter isto. “Eu sempre defendo que as medidas têm que ser tomadas pela iniciativa privada. Mas neste caso, a cadeia vitivinícola já é inovadora, competitiva, democrática. Então, é preciso que o Governo atue”.

Paiva acredita que, entre outras medidas, são necessárias ações afirmativas dos produtos brasileiros. “Em eventos feitos por órgãos públicos brasileiros, como em embaixadas, não é admissível que você tenha espumantes de outros países e não os nossos”, exemplifica.

Na questão do suco de uva, ele defende que é preciso divulgar o produto, que ainda é bem menos consumido, por exemplo, que o suco de laranja no país. “Temos um dos melhores sucos de uva do mundo. É preciso campanha, como houve, por exemplo, com o ‘Chocolate’, cantado pelo Tim Maia. O suco de uva precisa ser tão consumido quanto o de laranja”.

Na questão tributária, a política industrial do Estado definiu uma mudança, que pode beneficiar o setor vitivinícola. “Foi feita a extensão do Fundopem à região da Serra. Isto estimula investimentos no setor. A gente tem necessidade de modernização”, afirma Sérgio Feltraco. Além disto, outras mudanças podem ocorrer. A Secretaria da Fazenda está trabalhando com um grupo formado para cada um dos 22 setores que foram definidos como prioritários pela política industrial do Governo. Os grupos têm como missão procurar soluções tributárias específicas para estimular cada setor.

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  • Zé Silva

    Espero que a concorrência do Chile e Argentina continue acirrada, sem reserva de mercado, por que nossos vinhos ainda são horríveis, nossos produtores atrasados e arrogantes.

  • Felipe X

    Concordo que nossos bons vinhos são caros, mas dizer que são todos horríveis é complexo de vira lata, zé.

  • simão

    As condições de solo e clima na Argentina e no Chile são muito mais favoráveis do que as nossas, o que lhes dá um diferencial natural na qualidade do vinho que, por isso, lá é produzido com menor custo. Além dos sucos nosso potencial está localizado na produção dos espumantes, que inclusive são melhores do que os dos nossos vizinhos do Continente. De qualquer forma, é elogiável o esforço dos nossos produtores.

  • Eduardo Tavares

    Sou enólogo, trabalho em Portugal, e sei que a opinião do Sr. Zé Silva é apenas eco de um passado felizmente distante. O vinho gaúcho evoluiu muito – principalmente no século XXI – e não há bairrismo em considerar parte de nossa produção como muito boa e a de espumantes como de primeira linha. Nos vinhos de supermercado não existe grande diferença entre chilenos, argentinos e gaúchos. Há é que reduzir o preço, popularizar o produto e deixar para trás o triste complexo de vira-latas, como bem disse o Sr. Felipe X. Quanto à arrogância, estou longe há muito tempo e não posso dizer nada a respeito.

  • Ignacio

    Como os gringos da serra não são bobos e sabem muito bem que é la que se produz espumantes de primeira linha, devido a acidez do solo. Estão plantando videiras para vinhos finos onde as terras são melhores, no sul do estado, e industrializando na serra. A serra não perde o charme e ao mesmo tempo leva riquezas para a região da fonteira.

  • Daniel K

    O enoturismo lá onde se produz o vinho no RS é muito interessante e vale a pena. Também vale a pena insistir em ter um produto gaúcho sendo produzido em padrões internacionais. O problema é que o vinho no Brasil é caro. Em países como o Canadá (onde aliás, o vinho e a maior parte das bebidas alcoólicas são vendidas em estabelecimentos de propriedade das províncias) pode-se comprar ótimos vinhos de qualquer lugar do mundo a preços mais baratos que no Brasil. É ridículo pagar $12 dólares canadenses por um vinho chileno em Ottawa e R$35 pelo mesmo vinho em Porto Alegre.

  • Nossos vinhos são caros por culpa do governo federal que os taxa de forma absurda, enquanto que os do Mercosul entram de graça aqui.

  • Zé Silva

    Conheço mais de 30 vinícolas na Serra Gaúcha. O comportamento é SEMPRE o mesmo. “Descer” o pau na concorrência, no discurso, investir pouco em barricas de carvalho, “reformar”/raspar barricas que já deveriam ter sido inutilizadas e “quando não dá mais” ou quando a pressão é grande demais, investir em “inovação”…mas é uma inovação que já chega beeeeem atrasada. Tive a oportunidade de conhecer o Napa Valley, e lá sim a produção é profissional. Você vai as vinícolas e vê a inovação acontecendo em escala, inovação que é adotada rapidamente e com ALTO padrão. Aqui se a uva tá bem podre mas dá mais lucro, toca ela pra dentro igual. Ninguém vai notar. Essa é a regra. Fora que os produtores daqui, ainda tem uma mentalidade MUITO atrasada, vide o recente caso da tentativa de reserva de mercado.

  • Os vinicultores não são burros e sabem que o nível de consideração e qualidade que o vinho gaúcho alcançou não foi gratuito, mas fruto de muito esforço, de muito trabalho, de longos anos de aprendizagem e prejuízos, por isso não vão colocar todo este patrimônio fora para ganhar alguns trocados a mais. Fora a fiscalização do consumidor, e o seu bom senso, a Aprovale, responsável pela primeira Indicação de Procedência do Brasil – IP Vale dos Vinhedos, mantém fiscalização constante para evitar que este trabalho se perca.
    Infelizmente não dá para comparar a geografia das áreas de produção da Argentina, do Chile e do Napa Valley com a serra gaúcha. Muito menos comparar a questão financeira e de perspectiva de negócios dos governos daqui e de lá… E só para ficar no exemplo já citado, que tal os governos, nos três níveis, oferecerem vinho, suco e espumante gaúcho nos eventos oficiais?

  • Zé Silva

    Pedro Carraro, esta questão da uva bem podre, EU VI, não foi ninguém que me contou. Assim como a questão das barricas “reformadas”. Quanto ao suco de uva, realmente, este alguns produtores se salvam e produzem sucos muito bons. Mas ainda necessita mais fiscalização na questão sanitária e no controle quanto as proporções e tipos de aditivos utilizados. Tem muito suco ai dizendo que é “100% puro, sem conservantes” e tá cheio de conservantes…isso não é questão nem de procedência mas sim de lesar o consumidor mesmo. Eu sou alérgico e já tive problemas consumindo produtos “100% sem conservantes” daqui da serra gaúcha.

  • Daniel Lemos Jeziorny

    A taxa de crescimento da produção vitivinícola na Campanha é bem maior daquela que se verifica no estado. Além disso, a topografia da Campanha ajuda a mecanização e proporciona ganhos de escala, impossíveis na Serra.

  • Prezado Zé Silva: não vou contestar o que viste, mas não sei o que consideras como “bem podre”. Eu desconheço.
    Afora isso, faço algumas ressalvas:
    A questão das barricas: conforme o padrão do vinho, o uso da barrica. Vinhos que são vendidos entre 100 e 300 reais (na vinícola) usam barricas novas, importadas, francesas e americanas. Depois deste primeiro uso, passam para um vinho inferior. E quando não servem mais para os vinhos finos, são vendidas e irão para aqueles vinicultores que produzem vinho de garrafão, com uvas americanas. Não tem como ser diferente. Quem vai importar barricas para descartar após dois/três usos? O material retirado das barricas tem vários usos na indústria.
    A questão do suco: grandes vinícolas produzem suco (concentrado) por esmagamento. Neste processo, todo o cacho é prensado e a qualidade da uva é menor, podendo ocorrer o uso de cachos mais verdes, mais maduros e danificados (pela chuva, por pássaros e insetos, pelo transporte). Leva conservantes para durar mais tempo, conforme consta no rótulo. É o suco típico das embalagens longa vida e garrafas PET.
    Vinícolas menores produzem pelo processo de centrifugação e injeção de vapor de água. Neste processo, só o fruto (bago) é utilizado e existe um maior controle de qualidade. Como é produzido quente (em torno de 80ºC) e engarrafado logo após a produção, não leva conservantes. É o produto típico das garrafas de vidro de 300/500 ml.