14/fev/2017, 7h30min

Questões atuais

Por Otávio Augusto Winck Nunes*

Uma questão que está presente onde quer que estejamos poderia ser enunciada da seguinte forma: o que entendemos por democracia? Será que ideia que aprendemos de um governo dirigido pelo e para o povo, enfatizando a relação de independência dos três poderes ainda é válida? Poderíamos torná-la um pouco mais complexa e dizer que a democracia tal como a entendemos através dos tempos é compatível com o discurso neoliberal em que estamos imersos? Muitos fatos que todos acompanhamos, têm me feito pensar nisso.

Mais recentemente, uma exposição no Hotel de Ville, em Paris, apresenta o uso da propaganda como forma de legitimação, difusão e inclusão, na cultura alemã, do ódio contra os judeus. Não é de hoje que sabemos disso, mas a atualidade da questão do que ocorreu há pouco mais de 70 anos não deixa de impressionar. Claro, não foi a grande mídia que criou toda a lógica, como não é a rede Globo culpada de tudo o que ocorre no Brasil nos dias de hoje, mas não é sem o uso desse meio, que o totalitarismo acabou por produzir uma alienação de tal monta que dificilmente a Shoa perderá sua atualidade. O que não deixa de ter relação com a questão da democracia.

Dois exemplos emblemáticos da exposição. Um genotograma apresentado na escola, como material de estudo, para jovens estudantes mostrando até que geração é necessário pesquisar, para comprovar a pureza da raça alemã. Noutro, é mostrado a propaganda de um jogo de tabuleiro, tipo banco imobiliário, em que a vitória é dada a quem conseguir excluir o maior número de judeus do jogo. Ou seja, desde cedo incutir a ideia que aos pretensos inimigos, só o fim. A Pós-verdade sempre existiu, não havia ainda a estatura de conceito.

Outra experiência foi assistir ao espetáculo Un chambre en Inde – Um quarto na India – produção do reconhecido Théâtre du Soleil. Nesse vigoroso e emocionante espetáculo, a diretora Ariane Mnouchkine apresenta uma proposta em que, também, discute a democracia, só que no interior de um companhia de teatro e no tanto que o teatro, ou a arte, mais genericamente, pode sinalizar para algo que produza uma ruptura no status quo. Qual a função e contribuição da arte, ou do teatro, para a vida, incluindo a democracia, poderia ser a pergunta.

É interessante que toda a concepção dos espetáculos dessa companhia privilegiam a presença do grupo na sua construção, em diferentes funções. Nesse não poderia ser diferente, justamente pela temática. Então, todos os componentes da peça foram para a India, buscar inspiração e construir as cenas e os diálogos apresentados.

O que como psicanalista foi interesante é que tudo começa com um sonho. A diretora da peça, em crise de criação, é acordada quando buscava uma ideia para apresentar aos colegas. A partir daí sonho e realidade se misturam, de tal forma, que seus limites são difíceis de serem demarcados. Talvez, a reflexão inclua, também, os psicanalistas. Frente a tamanho uso e abuso do poder que vivemos qual poderia ser a contribuição da psicanálise e do trabalho de psicanalista? Uma breve aproximação entre o inconsciente, presente no sonho, e a função da arte, digamos assim, é inegável. Podemos discutir se há alguma equivalência, mas de qualquer forma, a estrutura de alguma coisa que rompe, que aparece como estando fora, que produz uma surpresa, uma interrogação – de onde veio essa ideia presente no sonho – é bastante próxima. Surpresa que uma obra de arte pode apresentar pela captura que provoca.

Nesse aspecto que me interessa reunir esses aspectos um tanto díspares para discussão.

Os psicanalistas sempre estiveram de acordo que a psicanálise não frutifica,não prospera em uma sociedade totalitária, tudo porque o inconsciente não é uma entidade ‘individual’, que cada um constrói o seu individualmente. Como na peça Um quarto na India, o inconsciente é uma criação, ele é com o outro e os outros, é no intervalo dessa relação que podemos encontrar as chamadas formações do inconsciente.

Mas, para retomar a pergunta inicial, a respeito da democracia e do neoliberalismo, fico pensando que o neoliberalismo, tem como princípio, a exclusão do pensamento, a exclusão da relação e da preocupação com o outro, como se o fosse possível excluir um tipo de humanidade que preserva as relações sociais. E, na verdade, acentua a produção objetalizada de cada um, tentando eliminar o que nos torna humanos. Nesse sentido, me parece necessário repensarmos a noção de democracia para podermos de alguma maneira encontrar brechas no discurso neoliberal, porque há, mesmo que a tarefa seja complexa.

Na peça Um quarto na India, o spoiler é necessário e não estragará o prazer de assitir ao espetáculo, aparece o Chaplin, do Grande ditator, em meio aos terroristas e fantasiado como um. Com seu jeito infantil, algo ingênuo, começa a fazer seu discurso pela liberdade, pela esperança, pelo futuro, ou seja, ele trai seus companheiros terrotistas, que o matam! A diretora da peça e outros componentes se insurgem! Ele revive. A cena se repete três vezes! Três mortes, três ressurreições.

Talvez seja um bom exemplo que indica que a arte, com seu lado de fantasia, com o que rompe com o instituído, como um sonho, pode nos ajudar a encontrar alguma alternativa frente às perdas que estamos tendo pelo ataque a democracia, sirva para que ela se restabeleça e sobreviva, mesmo que de outra forma, mas ainda como como uma força de quem dela pode se beneficiar.

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Otávio Augusto Winck Nunes é psicanalista, membro da Appoa.



 

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