31/jan/2014, 18h02min

O agricultor chegou: Gilmar Sossella assume presidência da Assembleia

Dívida do Estado: "A Assembleia não poupará esforços para reverter essa lógica perversa", prometeu o novo presidente da Assembleia. (Foto: Marcelo Bertani/Agência AL-RS)

Dívida do Estado: “A Assembleia não poupará esforços para reverter essa lógica perversa”, prometeu o novo presidente da Assembleia. (Foto: Marcelo Bertani/Agência AL-RS)

Marco Weissheimer

“Gente amiga do Rio Grande, o agricultor chegou”. O deputado Gilmar Sossella (PDT) tomou emprestado o famoso bordão criado pelo radialista e ex-senador Sérgio Zambiasi para anunciar a sua chegada à presidência da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Em uma concorrida e cordial cerimônia na tarde quente e abafada desta sexta-feira (31), o deputado trabalhista assumiu a presidência do parlamento gaúcho no lugar do deputado Pedro Westphalen (PP). O plenário da Assembleia ficou lotado o que levou o cerimonial da casa a acomodar dezenas de convidados no auditório Dante Barone que transmitiu a sessão ao vivo pela TV Assembleia. O público que lá estava não se inibiu com a impossibilidade de estar ao vivo no plenário e participou da sessão ficando de pé na hora do hino nacional e aplaudindo as falas de Westphalen e Sossella.

O clima de festa do interior, ornamentado por muitas bombachas e outras vestimentas típicas, esteve em sintonia com a fala do novo presidente da Assembleia que falou com orgulho de sua infância humilde na localidade de São Brás, zona rural do interior de Tapejara. Vindo de uma família de agricultores de origem italiana, Sossela fez um pedido aos seus colegas e demais autoridades presentes caso encontrassem um “guri triste pelo caminho”:

“Se vocês conhecem algum guri que anda meio desanimado, triste, achando que a vida tem poucas perspectivas, contem a ele: há muitas oportunidades à espera. Se por acaso ele tiver parado de estudar, estimulem, incentivem, falem que estudar é fundamental. Esta cadeira aqui está esperando por ele. A cadeira do chefe do Poder Legislativo do Estado do Rio Grande do Sul está esperando por um guri ou uma guria como tantos que vocês conhecem. Esta cadeira, meus irmãos, minhas irmãs, está à disposição de todo gaúcho”.

O deputado contou como iniciou essa trajetória, lembrando uma conversa que teve com sua mãe, quando ainda era guri:

“Logo depois do meio-dia, com um sol que assava a gente, minha mãe me chamou para ajudar na roça. Nós ficamos capinando em silêncio um bom tempo, só nós dois, naquele calor terrível, sentindo o suor lavar o rosto. Até que a minha mãe, dona Gema Zotti Sossella – aqui presente –, me disse mais ou menos assim: “Olha, Gilmar. Se você quiser ficar aqui, se quiser ficar trabalhando conosco na lavoura, trabalho é o que não falta. Mas você também pode fazer como o tio Guerino e o tio Irineu, que foram estudar e se preparar para outras atividades”. Ela estava certa, a dona Gema”.

Dona Gema estava na plateia assim como muitos outros familiares, amigos e conhecidos de Tapejara e arredores que estavam nas galerias da Assembleia e nas cadeiras do auditório Dante Barone.

Após o relato biográfico que percorreu sua trajetória política desde sua primeira eleição como vereador em Tapejara, Sossella falou sobre alguns dos temas que pretende priorizar em sua gestão. Deu um destaque especial ao problema da dívida do Estado do Rio Grande do Sul:

“A dívida com a União representa 91% da dívida geral do Estado. Em nenhum outro Estado o endividamento é tão alto. É como se cada gaúcho estivesse devendo R$ 4,4 mil. A dívida consolidada chega a ser duas vezes maior do que a receita. Ou seja, é o dobro da arrecadação anual. O Rio Grande do Sul teve uma dívida refinanciada em 1998. Era de R$ 9,5 bilhões. De lá até 2012, já pagou R$ 17 bilhões. Mesmo assim, conforme dados da Secretaria da Fazenda, a dívida com a União ultrapassa R$ 47,1 bilhões. A União, por meio do BNDES, financia a iniciativa privada com encargos que não ultrapassam 3,5% ao ano. Enquanto isso, cobrou do Estado do Rio Grande do Sul, no ano passado, 13%, tornando a dívida impagável.”

A Assembleia não poupará esforços para reverter essa lógica perversa, prometeu o parlamentar. Sossella também defendeu a exploração do carvão mineral no Rio Grande do Sul, definindo-a como “uma alternativa de energia firme, que dispõe atualmente de tecnologias modernas, assegurando baixos índices de poluição”.

Assembleia espera um ano quente

A posse de Sossella já antecipou alguns dos elementos que o deputado deverá encontrar ao longo de sua gestão na presidência da Casa. Presente à sessão, o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, foi questionado por jornalistas sobre os desdobramentos da greve dos rodoviários na capital. “Estou pedindo à Brigada Militar proteção para que os ônibus possam circular na cidade, conforme foi acordado na Justiça (30% em horário normal e 70% em horário de pico). Quero apenas que a Brigada garanta a segurança dos veículos e dos motoristas e cobradores que estiverem trabalhando”, disse Fortunati.

O deputado Márcio Biolchi (PMDB) resumiu assim a expectativa dos parlamentares para o ano de 2014: “a agenda da Assembleia este ano não está posta. Além da eleição, não sabemos o que pode vir das ruas. Vamos precisar de uma mesa experiente”. Na mesma linha, Catarina Paladini (PSB), agregou: “não acho que vai ser um ano pior que 2013, vai ser um ano quente. Tenho certeza que a Assembleia saberá responder à altura”.

Em seu discurso de despedida da presidência, o médico Pedro Westphalen lembrou que assumiu a casa sob o impacto da tragédia da boate Kiss em Santa Maria e que o último ato de sua legislatura foi a aprovação de uma lei que estabelece normas mais rigorosas para a prevenção de incêndios no Rio Grande do Sul. Westphalen também falou da luta do parlamento na questão da dívida do Estado e na defesa da inclusão do carvão mineral gaúcho nos leilões nacionais de energia. E fez uma referência aos protestos e mobilizações de rua que sacudiram o país em 2013: “Precisamos estar atentos aos clamores populares que pulsam nas ruas”.

A cerimônia teve a presença do governador Tarso Genro e de dois ex-governadores, Alceu Collares e Olívio Dutra. Também estavam presentes, entre outras autoridades, a senadora Ana Amélia Lemos, o presidente do Tribunal de Justiça, Marcelo Bandeira Pereira, e o Procurador-Geral de Justiça do Estado, Eduardo de Lima Veiga.

Sossella assumiu a presidência da Assembleia muito animado, agradecendo aos aplausos e às manifestações de apoio fazendo um sinal com as mãos cruzadas junto ao peito. Ao final de sua fala fez um agradecimento ao apoio de sua família e  um pedido especial: “Neste dia tão importante, peço a Deus, a exemplo do Rei Salomão, que me conceda sabedoria nas decisões”.

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6 comentários para “O agricultor chegou: Gilmar Sossella assume presidência da Assembleia”

  1. Mais uma vez a “Liturgia do Cargo” deu espaço a demagogia e auto promoção. É sempre uma festa, cada posse da Presidência da Assembléia.

  2. Eduardo B disse:

    Gilmar Sossella está coberto de razão, essa âncora de afogado desse contrato de dívida “com juros maravilhosos”, coisa de “gente que entende muito” tem de acabar.
    Eram uns gênios elogiadíssimos pela mídia e pelos tucanóides de plantão em geral.
    Esse acordo era uma maravilha, feito o da Ford.
    O caso da Ford atualmente a Federasul dá o serviço: ela não compra um parafuso do Rio Grande.
    Serve só para perdermos ICMS de insumos para São Paulo, e talvez compense o que lhes adiantamos em cash só, quem sabe, em 2021.
    Coisa de gênios.
    E na época a dívida do Estado duplicou, foi um feito.
    O governador responsável jamais botou os pés de novo em qualquer época no estado.
    Sobrou daquela troupe o Berfran Rosado, que Manuela não se vexou em tirar para vice, o César Busatto que Fortunatti não se vexou de empregar como assessor.
    Outra coisa boa não só é termos um presidente de legislativo focado em coisa importante, mas também temos um presidente do legislativo que não se acha xamã nem conversa com fadas e duendes.

  3. CEZAR disse:

    Quem foi agricultor nunca deixa de ser. A gente sai da colonia, mas a colônia não sai de dentro da gente.

  4. CEZAR disse:

    O AGORA PRESIDENTE TEM UMA LONGA TRAJETÓRIA

    AGRICULTOR
    BANCÁRIO
    VEREADOR
    PREFEITO
    PRESIDENTE AMUNOR
    VICE-PRESIDENTE DA FAMURS
    PRESIDENTE DA FAMURS
    DEPUTADO ESTADUAL
    PRESIDENTE DA ASSEMBLÉIA DO RS

  5. cezar disse:

    Trabalho feito por Maria Lucia Fattorelli da auditoria da dívida cidadã eram compRova que grande parte dessas dívida são ilegais.O equador provou que apenas 30% dela eram legAIS.

  6. cezar disse:

    é importante dizer também que essa dívida teve origem no tempo dos militares de forma irresponsável.Governadores da época contraíram empréstimos encima de empréstimos deixando esse legado “fantástico”

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