9/jul/2013, 8h19min

Noites de protesto e detenção: uma retrospectiva do mês de junho em Porto Alegre

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

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Iuri Müller*

Sul21 – O que houve contigo?

P. – Eu peguei um celular pra mim. Entrei na loja com mais gente, mas só eu e mais um fomos pegos.

Sul21 – E como a polícia te encontrou?

P. – Deu azar. Já estava dentro do ônibus. Entraram uns brigadianos e eu estava com uma caixa na mão. Fui em quase todos os protestos e não tinha dado nada.

Sul21 – Nem deu para negar, então.

P. – É, nem falei nada. Me levaram pro camburão.

Sul21- Estava fácil de furtar, por causa da multidão que os protestos reuniam?

P. – Tava. Às vezes a polícia nem via, era muita gente.

Sul21 – E sobre os motivos do protesto, o que tu achas?

P. – Acho que a passagem é muito cara mesmo. Tanto que às vezes a gente nem pagava.

Sul21 – Muita gente reclamou da violência da polícia nas manifestações.

P. – Eu sei. Comigo não foi tão forte. Mas vi que jogaram umas quantas bombas no pessoal.

| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

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P., 17 anos, foi detido numa das manifestações de junho em Porto Alegre. Disse ter entrado numa loja de telefones celulares depois que outras pessoas arrombaram o local. Afirmou, também, ter estado presente em boa parte dos protestos daquele mês. Em junho, houve noites em que mais de vinte mil pessoas caminharam pelas ruas da capital gaúcha. P. foi um dos tantos que se juntaram às marchas com motivações que, de alguma maneira, não são diretamente políticas.

Desde a manifestação do dia 13 de junho, quando foi registrado o primeiro confronto mais forte entre a Brigada Militar e alguns militantes, o desfecho dos atos teve lugar em delegacias ou batalhões. As detenções, em um primeiro momento, já tiveram causas e detalhes diversos – resultaram de vidraças quebradas, reações a investidas policiais, pichação em muros e paredes, resistência a abordagens da Brigada Militar, desacato e diversas formas de dano ao patrimônio público ou privado. Foram a consequência da movimentação pelas ruas e dos enfrentamentos que, na maior parte das vezes, abreviavam o tempo de caminhada.

| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

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No dia 13, a dispersão ocorreu na Avenida João Pessoa, pouco depois da marcha ultrapassar os limites do Parque da Redenção. No caminho até ali, vidros de agências bancárias e sinaleiras de ônibus sofreram danos, bem como um carro da Rádio Gaúcha. Após enfrentamento direto com manifestantes, a Brigada Militar se utilizou de bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral. Na ocasião, pelo menos cinco manifestantes foram detidos dentro de um bar, na Praça Garibaldi. Pela primeira vez no mês, os critérios utilizados pela polícia foram contestados pelos manifestantes.

A partir da manifestação seguinte, os confrontos passaram a ocorrer – na maior parte dos casos – em uma região específica de Porto Alegre: as quadras próximas à sede do Grupo RBS, na Avenida Ipiranga. No dia 17 de junho, a caminhada teve fim na avenida, que se transformou em um cenário de batalha. Bombas atravessaram o Arroio Dilúvio, uma cortina de fumaça se formou na via, manifestantes buscaram atendimento e apelaram ao vinagre para aliviar os efeitos do gás lacrimogêneo. Na mesma noite, uma concessionária de motos foi atacada antes de blocos fragmentados rumarem ao Centro da cidade. Dezenas de manifestantes foram detidos e ao menos outros cinco ficaram feridos.

Poucos dias depois, no ato do dia 20, que reuniu o maior número de militantes – mais de vinte mil foram às ruas apesar da chuva – houve novo enfrentamento na Avenida Ipiranga e nas ruas do Centro. O último confronto com a Brigada Militar ocorreu em pleno Largo Glênio Peres, já no final da noite. Pequenas e grandes lojas foram saqueadas e cerca de vinte pessoas acabaram detidas. Nos dias 24 e 27, mesmo com reformulações no formato das manifestações, algumas consequências foram novamente inevitáveis.

A Polícia Civil e a Brigada Militar passaram a tratar os episódios de dano ao patrimônio e furtos como que de responsabilidade de pessoas “infiltradas” nos atos. A violência, para a investigação policial, já seria distinta do que foi observado nos primeiros protestos – e teria perdido o contorno político.

 | Foto: Michel Cortez/Especial/Sul21

| Foto: Michel Cortez/Especial/Sul21

“É o nosso retrato da criminalização da miséria e da exclusão social”, diz ouvidora

Para a ouvidora da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, Patrícia Couto, o perfil das pessoas detidas sofreu alterações conforme o andamento das semanas. “Nas primeiras manifestações, como no dia 17 (de junho), a maior parte dos registros se referia a desacato, e eram visivelmente de manifestantes e pessoas que faziam a cobertura jornalística dos atos. Já a partir do dia 20, podemos observar outro perfil, de uma juventude que vive na periferia, a maioria negra, de baixa renda e que atuava em grupo. Talvez tenham visto uma oportunidade de ganho fácil. Me parece que boa parte não arrombou nada, apenas participou das ações. Não são pessoas vinculadas ao movimento”, conta.

Para a ouvidora, boa parte do que foi visto durante as manifestações “foi algo totalmente novo em termos de segurança pública”, e que as motivações da violência são mais complexas do que parecem. A revolta causada pela ação policial, a aparente liberdade que oferece a atmosfera de multidões e questões maiores e de fundo, como a própria desigualdade social, poderiam explicar parte dos atos. “Muitas dessas pessoas (que estariam cometendo delitos durante as manifestações) estão afastadas dos seus direitos mais básicos. É muito triste, é o nosso retrato da criminalização da miséria e da exclusão social. São justamente esses que foram levados para os presídios”, afirma Patrícia Couto.

Assim como o perfil social das pessoas que integravam as manifestações mudou, o mesmo teria ocorrido com a caracterização dos delitos registrados, ainda segundo a ouvidora. “No ato do dia 20, já houve casos de porte de drogas, furto qualificado e apreensão de objetos”, lembra Patrícia.

A associação direta entre os sujeitos e os delitos, no entanto, poderia levar a uma criminalização de todo um segmento da população: “seria imensamente preconceituoso dizer que as pessoas que vivem na periferia só vêm para as manifestações para cometer delitos. A imensa maioria não participa de qualquer situação do tipo”, defende Patrícia. Na manifestação do dia 27 de junho, a reportagem do Sul21 conversou com um militante do movimento anarquista de Porto Alegre sobre os episódios de depredação. “Crescemos levando tapa na cara da polícia. Eu apanhei deles pela primeira vez com doze anos de idade. Essa galera vê nas manifestações a possibilidade de botar para fora anos de opressão, é a depredação como um sintoma social”, disse.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

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Para delegado, violência constante faz com que número de manifestantes diminua

A Polícia Civil prefere que “a ideologia fique ao largo do inquérito” no que diz respeito às manifestações, pelo menos até aqui. Em entrevista coletiva no dia 28 de junho, o delegado Vicente Vargas Nunes afirmou que, quanto às motivações e reflexos de problemas sociais, “isso fica para um segundo momento”: “Independente dos sentimentos, ressentimentos e ideologias, para a Polícia Civil cabe a responsabilização dos que cometeram delitos”. Para Vicente, no atual momento da investigação “não importa se são pessoas de extrema-direita ou de extrema-esquerda” que estão infringindo a lei.

Marco Antônio Duarte de Souza é o delegado responsável pela investigação nos atos. Entrevistado pelo Sul21, disse ter visto a violência crescer nos protestos do final do mês de junho. “No início dos eventos, havia uma maioria clara de manifestantes, com objetivo político para ir às ruas. Do meio para o final (do período de manifestações), uma grande parcela de depredadores começou a aparecer. Na manifestação da Praça da Matriz, com 65 conduzidos, o cenário na delegacia parecia o de um dia comum, diferentemente de antes”, relatou.

Na opinião de Marco, que disse “simpatizar” com as manifestações, os atos passaram a reunir um menor número de pessoas. “Passou de dez mil a duas mil pessoas. O manifestante vê a situação se complicando, inclusive em relação à violência, e não vai para os protestos com a mesma facilidade. Mas o nosso objetivo é prender ou neutralizar quem está cometendo atos de violência, o que é bom para os manifestantes”, resume o delegado. No entanto, no primeiro ato de julho – realizado na Vila Cruzeiro, na Zona Sul de Porto Alegre – não foram registrados incidentes graves, após semanas de enfrentamentos repetidos com a polícia militar.

* Colaborou Rachel Duarte.


3 comentários para “Noites de protesto e detenção: uma retrospectiva do mês de junho em Porto Alegre”

  1. Frederico disse:

    Sul21, mais uma vez, imparcial e competente! Parabéns pessoal!

  2. Elenilton disse:

    A estratégia do governo deu certo.
    Bombas para dispersar a multidão e criar confrontos. Confrontos espantam as pessoas. Gente comum como eu, que vai protestar e volta para casa com a garganta ardendo pelo efeito das bombas de gás lacrimogênio (vencidas, aliás).

    Se não fosse assim, bastaria atuar somente sobre os saqueadores (que eram inicialmente um pequeno grupo).

  3. zero disse:

    Acabou o reino de terror da extrema esquerda, aos poucos, estamos voltando ao normal.

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