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Data:31/jul/2012, 5h29min

Mundo cão

Por Otávio Augusto Winck Nunes 1

Não se trata de um fenômeno recente. Mas, é curiosa a extensão que tomou, ao longo do tempo, a relação entre os humanos e os outros animais, o de estimação. Acabo de assistir ao show de Eduardo Dussek (sim, agora com dois ‘esses’ no nome), no Rio de Janeiro. Uma de suas músicas de maior sucesso nos anos oitenta foi “Rock da cachorra”. Com sua irreverência ímpar, cantava que deveríamos trocar um cachorro por uma criança pobre.

Em que pese o tipo de “bichano” (pode ser gato, peixe ou passarinho), o humor do músico antecipava um já crescente segmento de mercado – na verdade o que poderia ser relação virou consumo! Mas, mais do isso, criticava uma disposição dos humanos pela adoção de animais em detrimento da adoção do bicho homem, do semelhante.

Esse é o que parece ser o enigma que envolve o mundo pet: transformar um animal no substituto de um humano. A crítica de Dussek, mesmo que exagerada, procede. Tem a sagacidade de escrachar o que é uma das faces mais paradoxais da questão: é possível estipular a equivalência entre um animal de estimação e um humano? Em que pese a minha simpatia por animais, que é grande, fico com a impressão que exageramos.

Outro dado carioca: passeando com sua dona, um simpático vira-lata vestido de surfista, com sua prancha, em direção à praia, digamos, embaixo de seu braço (tenho foto para comprovar). Sim, sua vestimenta, que incluía uma viseira protegendo seus olhos do sol forte, tinha um compartimento para carregar sua prancha de surf, compatível com seu tamanho. Mas, não é um fenômeno exclusivo dos cariocas, em breve, podemos ver (se já não aconteceu) um pet pilchado, guaiaca incluso.

O fenômeno no Brasil repete, em alguma medida, o que acontece em outros lugares. Um mercado, ou uma relação de amor, ávido por oferecer produtos para os pets, que nada demandam, mas que seus donos rapidamente tornam imprescindíveis aos animais. A lógica é essa.

Por vezes existe a tentativa de inverter a lógica que sustenta o argumento, mas trata-se de uma forçagem. Não há uma desmedida nesse âmbito?

Sei que é um assunto polêmico, mas não acho que colocar a questão seja necessariamente motivo para provocar briga com os defensores dos animais. Meu intuito, por sinal, é esse proteger os animais.

Já se fez várias leituras desse fenômeno. Solidão dos humanos vem em primeiro lugar. Seguido pela rivalidade estipulada pela raça da moda. Em terceiro, para que o filho, uma criança, tenha uma experiência de ter um animal desde cedo e se responsabilize por ele (esse argumento dura uma fração de segundos, todo mundo sabe quem cuidará do animal de estimação). Em quarto, o narcisismo, e por aí vai. Aliás, nenhuma delas exclui a outra.

Mesmo que os argumentos pró animais sejam válidos, e que não possamos estipular, felizmente, uma única interpretação, temos que considerar ao menos o seguinte: não há equivalência entre um humano (não importa a idade, nem classe social) e um animal. Normalmente, atribuímos e enfatizamos nos animais não humanos, características que gostamos de ver ocultas não só nos outros humanos, mas em nós mesmos.

Além disso, a verticalidade da relação dos humanos com os animais é imbatível. Ou o leitor acha que o cachorro pediu a prancha de surf a sua dona? Então, só emprestamos aos animais nossos nobres sentimentos por levarmos em conta dois fatores: eles não os têm, logo seria bom que tivessem, por exemplo, vontade de ser surfista; e outro fator atrelado ao primeiro: a objetalização dos animais a serviço do narcisismo. Sim, precisamos transformar os bichos em humanos por levarmos nossa espécie muito a sério.

Não é exagerado, como já existe, ter uma casa com quarto decorado específico para os pets? Aliás, eles são merecedores do nosso profundo respeito, tanto que deveríamos poupá-los de nossas neuroses.

Humanizar os animais é tentar fazê-los responsabilizar por algo que nem nós humanos gostaríamos de nos ocupar. Sim, ao reproduzir toda a sorte de cuidados, preocupações e sentimentos não estamos só tentando domesticar um animal, é nossa própria falta de civilidade e agressividade que está sendo colocada à prova.

Mais do que tudo, o que é pior para os animais não humanos é herdar nossa neurose, não nossa tentativa de humanizá-los, pois, para isso eles não tem defesa alguma.

Animais fazem muito bem aos humanos, ou contrário nem sempre é verdadeiro. Discordo da equivalência unívoca proposta por Dussek (cachorro igual a criança pobre ou rica, tanto faz) mas incentivar o medo de vivermos entre humanos não me parece ser a melhor alternativa que temos à disposição. Por mais fiel que um animal de estimação possa ser ao seu dono, e que seja mais fácil um humano trair a confiança de outro humano, que um animal, e não o contrário.

1 Psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA); mestre em Psicologia do Desenvolvimento/UFRGS; mestre em Psicanálise e Psicopatologia, Universidade Paris 7.


8 comentários para “Mundo cão”

  1. Dio disse:

    “Recolha um cão de rua, de-lhe de comer e ele não morderá:eis a diferença fundamental entre o cão e o homem” Mark Twan
    Será q n é por isso?

  2. Denis disse:

    Adoro ver psicanalistas e humanistas se debruçarem sobre o tema. Em geral com grande tolerância ao bicho homem em detrimento aos outros bichos. O bicho homem pode ser facínora no seu mais alto grau. Sempre haverá um jurista, cientista, religioso a clamar por compreensão a este. O pobre bicho continua apenas servil ao bicho mais feroz de todos. Não se incentiva a vivermos como iguais, quando tudo é tão diferente. Cultura, preferências, chances, impostos pagos….Objetivamente o autor não comparou crianças a animais e também não poupou os que tratam animais como crianças. Mas a convivência humana é a mais difícil das provas nessa vida. Qualquer pessoa que participou de uma pequena reunião de condomínio sabe disso.

  3. Concordo com esta breve análise. Adoro animais, mas acho que há um exagero em tratar os cães e gatos como se fossem crianças, inclusive com direito à festa de aniversário.Os motivos que levam o ser humano a fazer isto mereceriam, talvez, uma tese de doutorado em Psicologia ou Sociologia. Escrevi uma postagem em meu blog wwwpordentroemrosa.blogspot.com sobre isto para incentivar a adoção de crianças, com o título Adote junto com seu cãozinho uma Criança! Abraços Dr.Otávio.

  4. Denis disse:

    “Adote junto com seu cãozinho uma Criança!”…sério?

  5. marianomonkey disse:

    O dia em que um cão compuser uma sinfonia ou projetar um edifício, ou escrever uma peça teatral, mudo minha opinião sobre isso…

  6. André Soares disse:

    A realidade fica mais absurda se compararmos os animais de “estimação” com os animais que a indústria cria para comermos, e mais ainda com o peso que ambos setores causam para a fauna silvestre.

  7. Denis disse:

    “O dia em que um cão compuser uma sinfonia ou projetar um edifício, ou escrever uma peça teatral, mudo minha opinião sobre isso”….????? Qual é a sua opinião mesmo?

  8. Eduardo disse:

    O gaúcho tinha um modelo impecável para copiar: liberdade, igualdade e fraternidade.
    Essa tal de fraternidade nunca desceu pela garganta da gauchada e escolheram “humanidade” para fechar a rima.
    Então essa é a lógica: a sociedade que adora sonegar, suas escolas, hospitais e presídios são precários, os ideais de solidariedade do SUS e do INAMPS restam incompreendidos, confundidos com relações de consumo e os pets ocupam o lugar como prova de uma pretensa humanidade.
    A relação de consumo com animais é mais simples
    Muito mais simples de cuidar, semi descartáveis, e o omnipresente argumento fajuto de que “cuidando bem dos pets constrói-se uma melhor humanidade”, argumento que não resiste a um passeio pelo bairro, pois as casas são lindas e bem equipadas por dentro e tudo que é coletivo é sujo e depredado.

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