26/jul/2014, 8h31min

Leonardo Boff: “Dentro do sistema capitalista, não há salvação”

Débora Fogliatto

Um dos mais conhecidos teólogos do Brasil, Leonardo Boff é um nome atualmente aclamado em todo o mundo, mas que já foi muito marginalizado dentro da própria Igreja em que acredita. Nos anos 1980, o então frade foi condenado pela Igreja Católica pelas ideias da Teologia da Libertação, movimento que interpreta os ensinamentos de Jesus Cristo como manifesto contra as injustiças sociais e econômicas.

Aos 75 anos, Boff é um intelectual, escritor e professor premiado e respeitado no país, cuja opinião é ouvida por personalidades com o Papa Francisco e os presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff. Nesta entrevista ao Sul21, concedida durante sua vinda a Porto Alegre, Boff fala do momento atual da Igreja Católica, critica os religiosos que usam o evangelho para justificar ideias retrógradas ou tirar dinheiro dos fiéis, tece comentários sobre a situação no Oriente Médio, aborto, violência e sobre a crise ecológica e econômica mundial.

As duas estão profundamente interligadas: como explica Boff, o capitalismo está fundado na exploração dos povos e da natureza. “Esse sistema não é bom para a humanidade, não é bom para a ecologia e pode levar eventualmente a uma crise ecológica social com consequências inimagináveis, em que milhões de pessoas poderão morrer por falta de acesso à água e alimentação”, afirma ele, que é um grande estudioso das questões ligadas ao meio ambiente.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Nos anos 1980, por causa dos ideais defendidos pela Teologia da Libertação, o senhor foi condenado a um ano de silêncio obsequioso e sofreu várias sanções, que acabaram sendo amenizadas diante da pressão social sobre a Igreja Católica, mas que o fizeram abandonar o hábito. O senhor acredita que atualmente a Igreja agiria da mesma forma?

Leonardo Boff – Não. O atual Papa diz coisas muito mais graves do que eu disse no meu livro “Igreja: carisma e poder”, que foi objeto de condenação. Se ele tivesse escrito isso, teria sido condenado. Eu disse coisas muito mais suaves, mas que afetavam a Igreja. Dizia que a Igreja não respeitava os direitos humanos, que é machista, tem um conceito de poder absolutista e absolutamente superado, sem limites.

Os tempos mudaram e a graças a Deus temos um Papa que pela primeira vez, depois de 500 anos, responde à reforma, responde a Lutero. Lutero lançou o que chamamos de Princípio Protestante, que é o princípio de liberdade. E esse Papa vive isso. E vive o cristianismo não como um feixe de verdade que você adere, mas como o encontro vivo com Jesus. Ele distingue entre a tradição de Jesus, aquele conjunto de ideais, tradições, e a religião cristã, que é igual a qualquer outra religião. Ele diz: “eu sou do movimento de Jesus”, e não da religião católica. Tais afirmações são escandalosas para cristãos tradicionais, mas são absolutamente corretas no sentido da Teologia, daquilo que nós sempre dizíamos e éramos perseguidos por isso.

E eu fico feliz que a Igreja não é mais uma instância que nos envergonhe, mas sim uma instância que pode ajudar a humanidade a fazer uma travessia difícil para outro tipo de sociedade que respeite os direitos da natureza, da Terra, preocupada com o futuro da vida. Eu mesmo tive contato com o Papa e o tema central dele é vida. Vida humana, da terra, da natureza. E nós temos que salvá-la, porque temos todos os instrumentos para destruí-la.

“Pregar na África que é pecado usar a camisinha, em lugares onde metade da população sofre de Aids, é cometer um crime contra a humanidade. Foi o que o papa Bento XVI disse várias vezes.”

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – O senhor acredita que a Igreja Católica, sob orientação do papa Francisco, vai efetivamente renunciar a alguns temas tratados como tabu, como a união homossexual?

Leonardo Boff – Ainda não sabemos bem a opinião dele. Ele diz: “quem sou eu para julgar?”, no fundo diz para respeitar as pessoas. Ele vai deixar haver uma grande discussão na Igreja sobre a questão do divórcio e dos homossexuais, sobretudo a moral sexual cristã, que é extremamente rigorosa e restrita, em alguns casos é criminosa. Por exemplo, pregar na África que é pecado usar a camisinha, em lugares onde metade da população sofre de Aids, é cometer um crime contra a humanidade. Foi o que o papa Bento XVI disse várias vezes. Eu acho que o Francisco é mais que um Papa, é um projeto de mundo, projeto de Igreja, ele se dá conta de que a humanidade é uma, está sob risco e temos que nos unir nas diferenças para superar a crise.

Acho que a grandeza desse Papa não será ele definir as coisas, mas deixar que se discutam. E eu acho que ele vai respeitar as pessoas, porque a maioria não é homossexual, ou homoafetivo, por opção. As pessoas se descobrem homoafetivas. E ele vai dizer: “ande dentro de Deus, não se sinta excluído”. Vai dizer que (os homossexuais) são tão filhos de Deus quanto os outros. E daí respeitar. Talvez ele diga “não chame matrimônio, que é um conceito canônico”. Mas uma união responsável, que merece a benção de Deus, e que tenha uma proteção jurídica, que tenha seu lugar na Igreja, que possam frequentar os sacramentos. Esse seguramente vai ser o caminho dele.

Sul21 – E com essas posições do Papa Francisco, o senhor acha que Igreja Católica talvez consiga recuperar fiéis diante do avanço das igrejas evangélicas?

Leonardo Boff – Esse Papa não é proselitista e diz claramente que o evangelho deve atrair pela sua beleza, seu conteúdo humanitário. Ele não está interessado em aumentar o número de cristãos, em fazê-los voltar. Está interessado em que as pessoas, com a situação confessional que têm, se coloquem à disposição do serviço da humanidade, das coisas boas que a humanidade precisa.

É aquilo que nós chamamos de “ecumenismo de missão”. Estamos divididos, é um fato histórico, mas não é uma divisão dolorosa. Porque cada um tem seus antros, profetas e mestres. Mas como nós juntos nos reconhecemos nas diferenças e como juntos vamos apoiar os sem terras, os sem tetos, os marginalizados, as prostitutas. Esse serviço nós podemos fazer juntos.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

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“Ninguém é a favor do aborto em si, as mulheres que fazem aborto não pediram por isso. Mas muitas vezes passam por situações tão delicadas que precisam tomar essa decisão”

Sul21 – Muitas pessoas usam a religião para justificar opiniões conservadoras, machistas e homofóbicas. Qual a sua opinião sobre essas posições?

Leonardo Boff – Há o exemplo concreto do aborto nas últimas eleições. Isso mobilizou as igrejas, foram até o Papa, fizeram pressão sobre os fiéis. Eu acho que é uma falsa utilização da religião. A religião não foi feita para isso. E todos devem reconhecer, e são obrigados a reconhecer pela Constituição, que há um Estado que é laico. Então essas pessoas pecam contra o princípio fundamental da democracia, não são democratas. Eles podem ter a opinião deles, mas não podem impô-la.

É muito fácil a posição deles, é salvar a criancinha. E depois que salvou ela está na rua, abandonada, passando fome e morrendo. E nem têm compaixão pelas mais de cem mil mulheres que morrem por ano por causa de abortos malfeitos. São pessoas que pecam contra a democracia e contra a humanidade, o senso humanitário. Ninguém é a favor do aborto em si, as mulheres que fazem aborto não pediram por isso. Mas muitas vezes passam por situações tão delicadas que precisam tomar essa decisão.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

O que eu aconselho e o que muitos países fizeram, inclusive Espanha e Itália, que são cristianíssimas e permitiram o aborto, pediram que houvesse um grupo de acompanhamento, que converse com a mulher e explique o que significa. E deixar a decisão a ela, se ela decidir vamos respeitar a decisão. Mas ela faz com consciência. Isso eu acho que seria democrático e seria responsável diante da fé, você não renuncia à tua fé, mas respeita a consciência, que é a instância última a que responde diante de Deus.

“Então eles têm um país que foi vítima do nazismo e utiliza os métodos do nazismo para criar vítimas. Essa é a grande contradição.”

Sul21 – Algumas igrejas aqui cobram dízimo dos fiéis, muitas vezes dizem que para agradecer a Deus as pessoas têm que pagar as igrejas. Qual a sua opinião e como a teologia da libertação vê essa prática?

Leonardo Boff – São igrejas do chamado “evangelho da prosperidade”, dizem que você dá e Deus te devolve. Eu acho que é um abuso, porque religião não foi feita para fazer dinheiro. Foi feita para atender as dimensões espirituais do ser humano e dar um horizonte de esperança. Agora quando a igreja transforma a religião num poder econômico, como a Igreja Universal do Reino de Deus, que em Belo Horizonte tem um shopping ao lado, chamado de “o outro templo”, que é o templo do consumo, e depois do culto as pessoas são instruídas a comprar. Para mim, é a perversão da religião. Inclusive acho que é contra a Constituição utilizar a religião para fins não naturais a ela. Eu combato isso, sou absolutamente contra. Porque isso é enganar o povo, é desnaturar e tirar o caráter espiritual da religião. A religião tem que trabalhar o capital espiritual, e não material.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – E em relação a essa crise violenta entre Israel e a Faixa de Gaza, em que o Estado de Israel já matou centenas de pessoas, como o senhor acha que o resto do mundo deveria agir em relação a isso? O Papa poderia ser uma pessoa a mediar o conflito?

Leonardo Boff – Esse Papa é absolutamente contemporâneo e necessário. Acho que é o único líder mundial que tem audiência e eventualmente poderia mediar essa guerra de massacre criminosa que Israel está movendo contra Gaza.

E eu acho que grande parte da culpa é do Obama, que é um criminoso. Porque nenhum ataque com drones (avião não tripulados) pode ser feito sem licença pessoal dele. Estão usando todo tipo de armas de destruição, fecharam Gaza totalmente, ficou um campo de concentração, e vão destruindo. Então eles têm um país que foi vítima do nazismo e utiliza os métodos do nazismo para criar vítimas. Essa é a grande contradição.

E os Estados Unidos apoia, o Obama e todos os presidentes são vítimas do grande lobby judeu, que tem dois braços: o braço dos grandes bancos e o braço da mídia. Eles têm um poder enorme em cima dos presidentes, que não querem se indispor e seguem o que dizem esses judeus radicais, extremistas e que se uniram à direita religiosa cristã. Isso está aliado a um presidente como Obama que não tem senso humanitário mínimo, compaixão para dizer “acabem a matança”.

“Mas tudo o que dá sentido humano não entra no PIB: o amor, a solidariedade, a poesia, a arte, a mística, os sábios. Isso é aquilo que nos faz humanos e felizes.”

Sul21 – Qual a sua avaliação da atual disputa para a presidência da República?

Leonardo Boff – Notamos que é uma disputa de interesses de poder. Não se discute o projeto Brasil, se discute poder. O que eu acho lamentável porque não basta ter poder, o poder é um meio. Eu vejo que há duas visões de futuro. Uma é mais progressista, que é levada pelo atual governo. E eu torço que ele ganhe. Mas ganhar para avançar, não reproduzir agenda. Ele atingiu uma agenda que é o primeiro passo, de incluir milhões de pessoas que têm agora direito de consumir o mínimo, de comida, ter geladeira, casa, luz. Isso é direito de todo cidadão. Essa etapa eu acho que o governo cumpriu e bem. Mas agora vem uma nova etapa, porque o ser humano não tem só fome de pão. Tem fome de escola, beleza, lazer, participação na vida social, dos espaços públicos.

E há os que querem impor aquilo que está sendo imposto e não está dando certo na Grécia, em Portugal, na Itália, na Irlanda, que é o neoliberalismo mais radical. Que no fundo é uma austeridade, é o arrocho salarial, aumentar o superávit primário, que é aquele bolo com que se paga os rentistas. Há a visão de futuro que quer enquadrar o Brasil nesse tipo de globalização que é boa para o capital, porque nunca os capitalistas enriqueceram tanto. Tanto que nos Estados Unidos 1% tem o equivalente a 99% da população, enquanto no Brasil 5 mil famílias controlam o equivalente a 43% do PIB. São famílias da casa-grande, que vivem do capital especulativo.

Acho que nós temos que vencer esse projeto, porque não é bom para o povo. Mesmo com todos os defeitos e violações de ética que houve, erros que o PT cometeu, ainda assim o projeto deles é o mais adequado para levar adiante um avanço. Agora se for ganhar para avançar, porque se for para reproduzir dá no mesmo do que outro ganhar.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – O senhor mencionou a crise econômica pela qual passam a Grécia, Espanha e países europeus que seguem o neoliberalismo. Há maneiras de reverter a crise?

Leonardo Boff – A Europa está tão enfraquecida e envergonhada que nem mais aprecia a vida. Aquilo que mais escuto em cada palestra que vou na Europa é pessoas me pedindo “por favor, me dê esperança”. Quando um povo perde esperança, perde o sentido de viver. Isso acontece porque alcançaram tudo que queriam, dominaram o mundo, exploraram a natureza como quiseram, ganharam um bem-estar que nunca houve na História e agora se dão conta que são infelizes. Porque o ser humano tem outras fomes. Fome de amar e ser amado, de entender o outro, conviver, respeitar a natureza.

E tudo isso foi colocado à margem. Só conta o PIB. Mas tudo que dá sentido humano não entra no PIB: o amor, a solidariedade, a poesia, a arte, a mística, os sábios. Isso é aquilo que nos faz humanos e felizes. E essa perspectiva em que só contam os bens materiais poderá levar a humanidade a uma imensa tragédia. Dentro do sistema capitalista, não há salvação. Por duas razões. Primeiro porque nós encostamos nos limites da Terra. É um planeta pequeno, com a maioria dos recursos não renováveis. O sistema tem dificuldade de se auto-reproduzir, porque não tem mais o que explorar. E segundo porque os pobres, que antes da crise que eram 860 milhões, pularam, segundo a FAO, para um bilhão e 200 milhões.

Então esse sistema não é bom para a humanidade, não é bom para a ecologia e pode levar eventualmente a uma crise ecológica social com consequências inimagináveis, em que milhões de pessoas poderão morrer por falta de acesso à água e alimentação. Esse sistema, para minha perversidade total, transformou tudo em mercadoria. De uma sociedade com mercado para uma sociedade de mercado, transformando alimentação em mercadoria. O pobre não tem dinheiro para pagar, então ele passa fome e morre.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

“Essa nova relação com a natureza e o mundo é o que precisamos desenvolver para ter uma relação que não seja destrutiva e possa fazer com que a humanidade sobreviva.”

Sul21 – O senhor se preocupa também com o avanço da extrema direita na Europa?

Leonardo Boff – É a reação normal de quando há uma crise maior que alguns postulem soluções radicais. No caso da Europa, é a xenofobia. Mas são todos países que têm problema de crescimento negativo de população. A Alemanha tem que exportar 300 mil pessoas por ano para manter o crescimento mínimo de população, e na França a situação é parecida. Então estão em uma dificuldade enorme, porque precisam deles, mas querem os expulsar. Mas há o risco de que haja um processo que gerou a Segunda Guerra Mundial, que era fruto da crise de 1929 que nunca se resolvia, até que a direita criou o nazifascismo. Mas hoje o mundo é diferente, é globalizado. Não dá para resolver a questão de um país sem estar vinculado aos outros.

Sul21 – Os governos da América Latina oferecem uma alternativa a esse modelo europeu que está em crise?

Leonardo Boff – Muitos veem, como o (sociólogo português) Boaventura de Sousa Santos, que na América Latina há um conjunto de valores vividos pelas culturas originárias que podem ajudar a humanidade a sair da crise. Especialmente com a característica central do bem-viver, que significa ter outra relação com a natureza, entender a Terra como mãe, que nos dá tudo que precisamos ou podemos completar com o trabalho. E inventaram a democracia comunitária, que não existe no mundo, é uma invenção latino-americana, em que os grupos se reúnem e decidem o que é melhor para eles, e o país é feito por redes de grupos de democracias comunitárias. Essa nova relação com a natureza e o mundo é o que precisamos desenvolver para ter uma relação que não seja destrutiva e possa fazer com que a humanidade sobreviva.

Há uma revisitação das culturas originárias, porque elas têm ainda respeito com a natureza, não conhecem a acumulação. São valores já vividos pelas culturas andinas, sempre desprezadas e hoje estudadas por grandes cientistas e sociólogos que percebem que aqui há princípios que podem nos salvar. Em vez de falar de sustentabilidade, respeitar os ritmos da natureza. Em vez de falar

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

de PIB e crescimento, garantir a base físico-química que sustenta a vida. Porque sem isso a vida vai definhando. E em vez de crescimento, redistribuição. É tanta riqueza acumulada que se houvesse 0,1% de taxa sobre os capitais que estão rolando nas bolsas, estão na especulação, daria um fundo de tal ordem que daria para a humanidade matar a fome e garantir habitação. Porque o capital produtivo é de U$ 60 trilhões, enquanto o especulativo é U$ 600 trilhões. Então é uma economia completamente irracional e inimiga da vida e da natureza. E não tem futuro, caminha para a morte. Ou nos levará todos para a morte, ou eles mesmos se afundarão.

“Nós não “temos violência” no Brasil, nós estamos sentados em cima de estruturas de violência. É um estado de violência permanente.”

Sul21 – E onde entra o papel do Brasil no âmbito ecológico? Os governos têm conseguido lidar com as questões ambientais?

Leonardo Boff – O Brasil é a parte do planeta mais bem dotada ecologicamente. Tem as maiores florestas úmidas, maior quantidade de água, maior porcentagem de terrenos agriculturáveis no planeta.  Mas não têm consciência de sua riqueza. E as políticas públicas não têm nenhuma estratégia de como tratar a Amazônia, tratar os vários ecossistemas. Sempre é em função da produção. Então estão avançando sobre a floresta Amazônica e deflorestando para ter soja e gado.

E o Ministério do Meio Ambiente é um dos mais fracos, assim como o dos Direitos Humanos. Isso significa que não conta a vida, conta a economia. Eu acho lamentável isso. E essa crítica tem que ser feita pelos cidadãos. Dizer que apoiamos um projeto de governo, mas nisso discordamos. Porque é uma ignorância, uma irresponsabilidade, uma estupidez governamental. Muita coisa do futuro da humanidade passa por nós, especialmente água potável, que possivelmente será a crise mais grave, até mais do que aquecimento global. E o Brasil tem capacidade de ser a mesa posta para o mundo inteiro e fornecer água potável para o mundo inteiro. Acho que não temos consciência da nossa responsabilidade. Os governantes são vítimas ainda de uma visão economicista, obedecem as regras da macroeconomia. A nossa relação com a natureza não é de cooperação, é de exploração.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

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Sul21  – Como o Brasil pode lidar com o grave problema de violência urbana? 

Leonardo Boff – O problema que deve ser pensado de que já agora 63% da humanidade vive nas cidades, no Brasil 85%. Não dá mais para pensar apenas na reforma agrária, tem que pensar como vão viver as pessoas. Nós vivemos no Brasil a vergonha de que todas as cidades têm um núcleo moderno cercado por uma ilha de pobreza e miséria, que são as favelas. Esse é um problema não resolvido e para mim central na campanha: como trabalhar os 85% que vivem nas cidades, já perderam a tradição rural, de plantar e viver da natureza, e não assimilaram a cultura urbana. Então são perdidos. Daí o aumento da criminalidade. E muitos dizem que a sociedade têm um pacto social que rege o comportamento dos cidadãos. Ou seja, “vocês nos excluíram, então não somos obrigados a aceitar as leis de vocês, vamos criar as nossas”. As milícias do Rio criaram funções de Estado paralelas, criam sua organização e distribuição e o governo é impotente. E as UPPs não são a solução, porque cria ilhas e as drogas ficam nas margens. O problema não é de polícia, é do tipo de sociedade que nós criamos, montada em cima do colonialismo, escravagismo e etnocídio dos indígenas. Nós não “temos violência” no Brasil, nós estamos sentados em cima de estruturas de violência. É um estado de violência permanente.

Sul21 – E como o país pode fazer para fugir disso?

Leonardo Boff – Aquilo que já começou, parar de fazer políticas ricas para os ricos e pobres para os pobres para fazer políticas de integração, inclusão, começando pela educação. Porque onde há educação a pessoa se habilita a se autodefender, buscar novas formas de sobrevivência. Um país que não investe em educação e saúde conta com pessoas ignorantes e doentes. E com essas pessoas não têm como dar um salto de qualidade. Para mim esse é o grande desafio e isso deveria ser discutido nas campanhas, e não partidos. Desafiar todo mundo: “como vamos sair disso?”, porque tende a piorar cada vez mais. Essa seria uma política ética, digna, onde o bem comum estaria no centro e somaria forças, alianças de pessoas que se propõem a mudar as estruturas que sustentam um Estado injusto, que tem a segunda maior desigualdade do mundo. Desigualdade significa injustiça, que é um pecado social estrutural mortal. E isso não é discutido.



 

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  • Sérgio Alves de Oliveira

    Permitir-me-ei contestar as afirmações do Frei Leonardo Boff ,sem deixar de admirá-lo. Não é só no sistema capitalista que “não há salvação”. No “outro”também. Ao superestimar o ser humano,Marx “quebrou a cara”com o seu modelo. O comunismo e o socialismo também não deram certo,a exemplo do capitalismo. Todos esses modelos abortaram excrecências políticas a comandar o mundo. Valho-me,para essa conclusão,de um feliz pensamento de russo Mikail Bakunim,”guru” da filosofia anarquista,sobre a Rússia do Séc.XIX,mas que mais parece estar se referindo à situação política do Brasil no Séc.XXI (ano 2014): ” O GOVERNO DA IMENSA MAIORIA DAS MASSAS POPULARES SE FAZ POR UMA MINORIA PRIVILEGIADA. ESSA MINORIA,PORÉM,DIZEM OS MARXISTAS,COMPOR-SE-Á DE OPERÁRIOS. SIM,COM CERTEZA,DE ANTIGOS OPERÁRIOS,MA QUE,TÃO LOGO SE TORNEM GOVERNANTES………,CESSARÃO DE SER OPERÁRIOS,E POR-SE-ÃO A OBSERVAR O MUNDO PROLETÁRIO DE CIMA DO ESTADO; NÃO MAIS REPRESENTARÃO O POVO,MAS A SI MESMOS E SUAS PRETENSÕES DE GOVERNÁ-LO. QUEM DUVIDA DISSO NÃO CONHECE A NATUREZA HUMANA”

  • Marcelo Tskin

    “E os Estados Unidos apoia, o Obama e todos os presidentes são vítimas do grande lobby judeu, que tem dois braços: o braço dos grandes bancos e o braço da mídia. Eles têm um poder enorme em cima dos presidentes, que não querem se indispor e seguem o que dizem esses judeus radicais, extremistas e que se uniram à direita religiosa cristã. Isso está aliado a um presidente como Obama que não tem senso humanitário mínimo, compaixão para dizer “acabem a matança”.
    .
    Esse aí levou o Protocolos dos Sábios de Sião a sério. De onde surgiu esse sujeito? Da Alemanha da década de 30?
    Se Israel estivesse usando drones, não haveria agora quase mil palestinos mortos. Por que para conseguir driblar os artifícios do Hamas, que usa escolas, hospitais e bairros com grande densidade como escudo, só mesmo com ataques cirúrgicos.

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  • Flavia

    Excelente entrevista! O pior é pensar que a acumulação de alguns não se dá apenas às custas da maioria da humanidade, mas, especialmente, às custas de outras espécies, para as quais o direito à vida é negado.

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  • Antônio Bandeira

    A reflexão é perfeita, com lógica e encadeamento! Porém, tudo que é sublime torna-se excelência, tal qual uma meta a ser alcançada. A teoria sempre fermenta as melhores mentes… Teses buscam resultados plausíveis, concretos. Sem essa máxima, o ensaio (experimento) se esvazia… Fica o dito pelo não dito… Se, tenho capacidade de entendimento, expertise (perícia e sabedoria); porque, não boto a mão na massa? Por que, não influenciar e ser protagonista da sua própria criação reflexiva… A critica sempre é válida, estamos aqui para apreender… Subir no palco e não representar é fácil… Da idéia até a consecução, temos muitas variantes… Quando somos práticos, devemos tomarmos as rédias e sermos responsáveis por tudo que representamos… Neste quesito, temos que ser o principal ator… Palavras correm ao vento… Ações sempre se materializam… A história é que nos julgará… JUSTIÇA SOCIAL SEMPRE!!!

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  • carlos

    ta certo ,o leonardo boff, e o marcelo tskin como bom defensor de israel deveria se mudar para la e ficar um dia apenas um dia em gaza, chega dar nojo destes sionistas ,estão em todos os lugares vão para israel fazem o “serviço militar” e voltam para seus paises de origem, e aqui ficam na “espera ” do “sinal divino” dos dos seu lideres, como os nazistas ,estes mesmos marcelos da vida justificam suas barbaries , “povos inferiores” de hoje são os palestinos,, e como sempre recorrem dos velhos modelitos “anti semitas” ,”holocausto” etc etc etc ,coisa de 70 anos atras ,mas estamos discutindo o dia de hoje. que estes marcelos tentam tapar .esconder que são sim nazistas com outro nome SIONISMO.tem muito judeu que desaprova, esta matança ,desaprova israel, prova disso que muitos nem pensam em ir para aquele inferno .boycott a israel, codigos de barra 729 são produtos oriundos de israel,para quem quiser controlar a origem deles .

  • Alberto Amorim

    Leonardo Boff, com suas palavras sábias, dá uma mensagem a todos, de como não deixar de nos enganar com belas palavras e imagens “modernas”. O Povo brasileiro, não se curvará a intensa propaganda enganosa e mentirosa que nos chega através da Midia entreguista.

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  • Helleno de Carvalho

    Nem no sistema capitalista e nem no sistema socialista, a salvação e o paraíso se encontram no céu e não na terra; católico que apoia teologia da libertação esta excomungado!

  • João

    Boff, primeiro se aborte, depois conversamos.

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  • Antonio Henrique

    “..importante entrevista..”.
    Quando o Sr. Boff renunciar ao comunismo publicamente, posto que na vida privada não parece ser contra o capitalismo, será então uma importante entrevista.
    Ademais, não possui envergadura moral, conhecimento de história ou de política e relações internacionais para ficar dando opinião sobre crise na palestina.
    Trata-se de um comentarista leviano e inconsequente, do mesmo calibre de quando pregava o comunismo como se fosse a salvação da humanidade.

  • Marcos

    Esse senhor o Leonardo Boff só tem um objetivo manipular as pessoas e seus interesses é implantar o governo mundial e uma religião segundo a vontade dos poderosos, essas preocupações não condiz com a verdade cientifica e como a Igreja Católica fez bem excomunga-lo junto com sua teologia da libertação.

  • carlos

    estes srs marcos e o antonio henrique, estão lendo o Sul21? reacionários de opus dei ou o q?,o Boff, tem sua devotadas para as lutas do povo ,e vcs são meros uns carolas com medo do “comunismo”, parece piada e admiro que fiquem lendo este blog, para que ,serão cobras mandadas,? e de quem de israel se gostam tanto de israel vão para la e fiquem um dia em Gaza, matem alguna palestinos ,pois este deve ser o sonho de vcs ,fascitas travestidos de sionistas,

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  • Aula!
    Inspirador, como sempre.
    Não há o que retocar… Falar de religião, política, economia, capitalismo e crise de uma forma direta e contundente.
    Esse é Leonardo Boff
    Parabéns pela excelente entrevista, Débora!

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  • Tiago

    Se esse sujeito abortista, comunista, PTralha e herege é intelectual, eu sou um Aristóteles!

    • Carlos

      Tu eres um sionista / nazista , querer se comparar com boff ou aristotes um analfabeto político é muita pretensão .

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  • Tony

    E o irmão, o sr. Clodovis Boff, o que pensa sobre este assunto?

  • João Victor Ferreira da Costa Rodrigues

    o deus a qual este pseudo teólogo libertário se refere, não tem nenhuma transcendência, é puramente terreno, uma ideologia criada para minar a fé das pessoas no novo céu e na nova terra espiritual que ultrapassa este mundo material. A vida plena prometida por Nosso Jesus Cristo, não se baseia e nem se vincula as convenções sociais e econômicas ,que são coisas meramente humanas. O Socialismo não pode oferecer salvação alguma, primeiramente por que a salvação pertence a um individuo e não a uma conjuntura social, e depois por que o principal objetivo do socialismo é eliminar Deus de seus ideais utópicos. Outra grande contradição é dizer que Israel é cruel por se defender dos ataques do Hamas ( que não é o mocinho da história) quando este mesmo sistema socialista/ comunista que este “teólogo de côrte” defende, matava e torturava pessoas, as cercavam e as impediam de sair, fuzilando quem tentasse fugir, como acontecia com quem tentava ultrapassar o muro de Berlim. Daí se pode concluir que os conceitos de liberdade, bem- estar, igualdade, que este sistema oferta, são propagandas enganosas. O que se tem visto ao longo da história do socialismo/ comunismo é uma antítese das demagogias usadas pelo mesmo: opressão, injustiça, morte, tortura, fome, miséria, etc. A doutrina social da Igreja que deve ser a referencia para nós católicos e não este comunista que entende Deus apenas como um artífice para criar uma sociedade material.

    • carlos

      como tem imbecil, escondido numa crendice de araque ,jõao vitor vc é é muito do reacionario ,procura tua turma

  • José Figueiredo

    Que infeliz! O inferno o espera, bem quentinho! “Teólogo” fajuta, inimigo de Deus. Maldito.

  • João Victor Ferreira da Costa Rodrigues

    Carlos ta incomodado? Mude-se para Cuba… onde tudo é perfeito #sqn

    • carlos

      Me admiro vc lendo um saite comunista. Tem q ser um trol ou um provocador da opus dei

  • João Victor Ferreira da Costa Rodrigues

    Só queria ver até onde vai a bestialidade do ser humano ..em falar tamanha baboseira…. e ver que ainda existem idiotas uteis que idolatram um velho ridículo que se diz socialista mas mora numa cobertura, e viaja para um lado e para o outro…. esquerdista caviar… ‘

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  • Aparecido

    .
    Este senhor esqueceu a etimologia da palavra RELIGIÃO que é RELIGARE, ou seja, reconectar o SER HUMANO com DEUS, e se diz teólogo.
    .
    Ele trata de assuntos puramente políticos, mundanos, pior ainda, da política RASA e ENLAMEADA instaurada em nosso País. Defende o “status quo” a que somos submetidos, onde a ilicitude é palavra de ordem.
    .
    Mas se o que ele defende, seja SOCIALISMO ou COMUNISMO, por que não apresenta onde essas correntes deram certo??? Onde elas promoveram o bem estar social??? Onde trouxeram PAZ e PROSPERIDADE ao ser humano??? Desenvolvimento tecnológico, cultural??? Onde nesses sistemas a ética e a moral imperaram???
    .
    Me enoja vê-lo usar o título de FREI quando não passa de um HIPÓCRITA!

  • Nicolau

    BOFF, O GRANDE COMUNISTA “FRANCISCANO”!

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  • Leandro Barros

    O camaleão pode mudar de cor, porém continua camaleão. A TL não lhe rendeu bons louros, agora parte para teologia da natureza que nada mais é que um arranjo mal feito da velha e malfadada TL. Esse sr. nunca esteve de acordo com nada da igreja e sempre quis que igreja fosse algo como a sua própria imagem e semelhança, ou seja: comunista.

  • O triste é saber que muitas pessoas caem como patinhos neste papo furado.

    • Paulo Simoes

      Eu sou um patinho!!!