6/fev/2014, 18h35min

Jornalistas da RBS depõem na CPI que investiga ocupação da Câmara de Porto Alegre

Nathália Fruet: "Uma menina mencionou que eu era 'filhote da ditadura'. Disse para ela não fazer juízo de valor, pois não me conhecia" | Foto: Câmara Municipal de Porto Alegre

Nathália Fruet: “Uma menina mencionou que eu era ‘filhote da ditadura’. Disse para ela não fazer juízo de valor, pois não me conhecia” | Foto: Câmara Municipal de Porto Alegre

Nícolas Pasinato

Na manhã desta quinta-feira (6), a “CPI da Invasão”, que investiga os danos causados durante a ocupação da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, ocorrida em julho, ouviu dois jornalistas do Grupo RBS: Nathália Fruet (TVCOM) e Paulo Rocha (Rádio Gaúcha). Os repórteres relataram o que observaram no primeiro dia da ocupação da casa, que ocorreu em 10 de julho do ano passado, e de que forma foram impedidos de permanecer no local para realizar o seu trabalho.

Nathália Fruet comentou que era nítida a posição dos manifestantes de não querer a presença de profissionais do grupo RBS, o que era expressado, segundo ela, com palavras de ordem como “fora RBS, fora RBS”. “Uma menina mencionou que eu era ‘filhote da ditadura’. Disse para ela não fazer juízo de valor, pois não me conhecia”, relatou. A repórter conta que ela e o cinegrafista foram retirados do plenário Otávio Rocha com o apoio da vereadora Mônica Leal (PP). “Se tivesse ficado no plenário, não sei o que poderia ter acontecido”, comentou.

A jornalista também foi questionada se considerou o episódio uma censura à liberdade de imprensa. “De certa forma sim. Acredito que quando há pessoas com ideias opostas e um grupo não quer que elas permaneçam, de certa forma é sim (censura à imprensa)”, concluiu. Após o episódio, ela e o cinegrafista não retornaram à casa durante a ocupação. “A gente sabia que não teríamos acesso. Acompanhamos de longe”, relatou.

O repórter da Rádio Gaúcha Paulo Rocha comentou que passou por situação semelhante à de sua colega de empresa. Ele contou que, quando chegou no plenário, ele já estava ocupado pelos manifestantes e não havia mais sessão ocorrendo. “Até então não havia hostilidade com outros jornalistas. Comecei a fazer vídeos e fotos. Foi quando identificaram que éramos da RBS”, conta. A partir disso, de acordo com ele, começaram os gritos de ordem. “Alguém encostou no meu ombro e disse que eu não era bem-vindo ali. Havia várias pessoas gritando. Nessas condições, decidimos recuar”, conta.

Paulo Rocha:  "Alguém encostou no meu ombro e disse que eu não era bem-vindo ali. Havia várias pessoas gritando. Nessas condições, decidimos recuar" | Foto: CMPA

Paulo Rocha: “Alguém encostou no meu ombro e disse que eu não era bem-vindo ali. Havia várias pessoas gritando. Nessas condições, decidimos recuar” | Foto: CMPA

O relator da CPI, Márcio Bins Ely (PDT), perguntou ao jornalista se ele havia constatado a presença de crianças e adolescentes no local e se teve a oportunidade de ver manifestantes consumindo algum tipo de droga. Paulo respondeu que não presenciou nenhuma dessas situações no dia em que esteve na Câmara. “Quero deixar claro que minha presença na Câmara, durante a ocupação ou a invasão, se resumiu ao primeiro dia. Permaneci cerca de 15 minutos no plenário”, comentou. Da mesma forma que Nathália, ele não retornou à casa após o episódio. “Não fui mais pautado a cobrir temas referentes à Câmara de Vereadores. Não havia porquê. Ficou claro, no primeiro encontro, que a RBS não era bem-vinda”, avaliou.

A vereadora Mônica Leal (PP) interveio dizendo que considerava a declaração dos jornalistas muito singela perante ao que eles viveram naquele dia e aproveitou para dar o seu relato sobre o ocorrido. “No plenário, expulsaram repórter e cinegrafista da RBS. Eles foram xingados e empurrados para fora do portão. Eu acompanhei eles para que tivessem segurança. Não foram jovens ou estudantes que invadiram a Câmara. Foi o Bloco de Lutas. Aqueles baderneiros e delinquentes. Foi muito grave o que vivemos. Vocês compartilham esse sentimento? De que houve cerceamento à liberdade de imprensa?”, questionou.

Nesse momento, a advogada Débora Rodrigues, do Grupo RBS, interferiu dizendo que os depoentes não iriam falar sobre seus sentimentos, mas iriam relatar apenas os fatos que presenciaram. A vereadora então refez a pergunta e questionou se os fatos presenciados por eles foram suficientes para que concluíssem que houve cerceamento à liberdade de imprensa. Paulo concordou que houve censura.

A CPI investiga indícios de dano ao patrimônio público, venda de drogas, consumo de bebidas alcoólicas e censura à imprensa durante o período em que o Bloco de Lutas pelo Transporte Público e militantes de outros movimentos estiveram no local. Na próxima segunda-feira haverá uma nova reunião da Comissão.

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Um comentário para “Jornalistas da RBS depõem na CPI que investiga ocupação da Câmara de Porto Alegre”

  1. Roberto Weber disse:

    A vereadora Mônica Leal (PP) não está interessada com o tratamento que o Barbosão deu àquele jornalista da Folha, mandando-o “chafurdar no lixo”? E com a censura que o Serra sempre impôs aos repórteres que lhe perguntavam o que ele não sabia ou não “podia” responder?

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