26/set/2012, 11h52min

‘Indignados’ cercam Congresso e prometem permanecer nas ruas da Espanha

Los Indignados advogam a desobediêcia civil como forma de protesto | Foto: Flickr

De Naira Hofmeister e Guilherme Kolling , para a Carta Maior

Marcha para “ocupar o Congresso” na Espanha reforçou desejo de nova constituinte, reivindicação que ficou em segundo plano nas manchetes dos jornais após confronto da polícia com manifestantes – dezenas foram detidos e feridos. Indignados voltam às ruas nesta quarta-feira para exigir uma democracia mais participativa.

Madri - Tudo o que a classe política espanhola queria era que, após o protesto do 25-S (em referência à data de 25 de setembro), ou “Ocupa o Congresso”, o noticiário do país ficasse centrado em um confronto entre a polícia e os manifestantes. Só assim poderiam desviar a atenção da exigência dos cidadãos que foram à rua: uma constituinte para modificar as bases da democracia na Espanha.

“Nossa Carta Magna foi escrita logo que acabou uma longa ditadura e naquele momento, no final dos anos 70, parecia avançada. Mas hoje se vê que era uma forma de manter o poder nas mãos dos mesmos grupos para sempre”, reclamava um jovem de não mais de 30 anos que, como todos os demais entrevistados nesta marcha, não quis identificar-se.

O debate de fundo acabou aplastado nos grandes jornais que optaram por destacar os distúrbios que terminaram com dezenas feridos, outros tantos detidos e muitos insatisfeitos que não arredaram o pé da frente do Parlamento mesmo após a carga policial. E que voltarão a reunir-se no mesmo lugar nesta quarta-feira, com a mesma proposta. “Queremos que isso seja um movimento revolucionário”, garantem.

Na verdade já é assim, tendo em vista que o 25-S é a continuação do que no Brasil ficou conhecido como o movimento dos Indignados e que na Espanha é lembrado pela data em que milhares acamparam na Puerta del Sol em Madri, o 15-M, 15 de maio de 2011. Nessa ocasião eles já pediam “democracia real já”.

Defendem a desobediência civil – pacífica e pública – como um requisito básico a essa evolução do sistema de participação popular. Por isso a grande maioria não provocou a polícia durante o ato: limitou-se a erguer seus cartazes e cantar gritos de guerra pedindo mudanças, mas poucos desafiaram as barreiras impostas pela tropa de choque. Foram destacados 2.500 homens para vigiar o Parlamento espanhol, que num raio de dois quarteirões era protegido por grades móveis.

Furgões e pequenos batalhões atravessavam propositalmente no meio da multidão para ir de um lugar a outro mesmo quando podiam chegar aonde queriam por outro caminho. Nas ruas paralelas, obstruíam a passagem com viaturas enquanto oficiais exibiam armas de forma acintosa, justo no momento em que manifestantes se davam as mãos em uma tentativa de abraçar o Congresso. “Isso é uma provocação!”, respondeu o público.

O governo municipal de Madri havia autorizado protestos e marchas até às 21h30, entretanto, meia hora antes do prazo oficial findar, o batalhão investiu contra os manifestantes com cassetetes e armas de efeito moral e conseguiu dispersar a massa. Uma minoria permaneceu até a madrugada.

Organizadores previam desvio do debate
O cuidado com a organização do protesto desta terça-feira demonstra que, embora uma das insígnias do movimento seja a de que não é preciso ter medo (“pois somos os 99% da população”), a repressão policial intimida. Há mais de duas semanas todas as reuniões do 25-S foram interrompidas por guardas que pediam a identificação dos manifestantes. Em uma marcha sindical recente um grupo foi detido por portar cartazes convocando o “Ocupa o Congresso”.

A estratégia política de reduzir o movimento a um bando de baderneiros é tão intensa que o “Ocupa o Congresso” teve que ser renomeado de “Cerca o Congresso”, já que os porta-vozes do Parlamento e políticos tradicionais começaram a comparar o protesto com a tentativa de golpe de Estado ocorrido em 1981, quando militares invadiram o plenário, armados, e mandaram os deputados deitarem no chão.

Os Indignados que organizaram o ato desta terça-feira já sabiam disso, tanto que nas assembleias preparatórias, o tema era recorrente. “Vão nos chamar de golpistas, grupos radicais anti-sistema. Temos que pensar uma forma de evitar até o limite o confronto com a polícia, para não desviar o foco do nosso ato e não nos massacrarem na guerra midiática”.

A longa discussão sobre a necessidade de deixar claro que o grupo era de não violência e que preparava um ato pacífico de desobediência civil chegou a irritar alguns integrantes dos grupos de trabalho do 25-S, esgotados com as horas de debates sobre como resistir a provocações da polícia, como segurar ativistas mais exaltados, como evitar a dispersão da massa após investidas policiais…

E de fato na tarde desta terça-feira, uma das orientações mais repetidas pela organização do 25-S – que ganhou inclusive ilustrações no blog da coordenação do Ocupa o Congresso - foi como (não) reagir em caso de cerco violento policial.

Também foi repetido à exaustão os números de telefone do advogados voluntários do grupo, e seus nomes. “Em caso de que te detenham, podes nomear a eles. Recorda que nesta situação tomarão teus pertences e te perguntarão o nome completo do advogado, razão pela que, antes de rodear ao Congresso, terás que memorizar nome e sobrenome ou escrevê-los no seu braço”, recomendava a página web do Ocupa o Congresso.

Indignados de Barcelona, que haviam feito um ato semelhante no Parlamento da Catalunha no ano passado chegaram a ir a Madri durante os preparativos para fazer uma palestra sobre estratégias para evitar que toda mensagem se resumisse a eventuais choques com a polícia. Os catalães relataram a força da mobilização de um dia em Barcelona em contraste com o massacre midiático que sofreram após o ato.

De fato, a preocupação mostrou que tinha razão de ser, consideradas a civilidade da assembleia e da marcha prévia à concentração em torno do Congresso, em Madri, e as provocações e truculência policial nas ruas do entorno.

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16 comentários para “‘Indignados’ cercam Congresso e prometem permanecer nas ruas da Espanha”

  1. Paulo Henrique disse:

    O povo só serve mesmo é pra votar e levar pancadas…

  2. marianomonkey disse:

    “indignados”, “occupy”, protestam contra os poderosos financistas globais e são $u$tentado$ pelos…poderosos financistas globais…kkkk
    tenho que rir para não chorar.

  3. Isac Vinic disse:

    Será que um dia veremos nossos indignados
    em torno do Congresso?

  4. marianomonkey disse:

    Reunindo-se e doutrinando o contingente de “indignados” para fazer por eles o “serviço sujo” que esperam há séculos: o holocausto em escala global.
    Triste humanidade.

  5. Rosa Luxemburgo disse:

    marianomonkey: defendes o quê, mesmo? a manutenção do status quo?

  6. marianomonkey disse:

    Defendo reforma, NUNCA revolução só porque, sei lá, não gosto de banho de sangue…

  7. O atual sistema sócio-econômico está fechado para reformas. As classes dominantes estão impossibilitadas de fazer concessões e reformas em seu sistema político e econômico apodrecido! Estão fechando cada vez mais o regime político e as garantias mínimas estão sendo confiscadas. A Espanha fará uma reforma em seu código penal para perseguir a oposição anti-sistema que cresce.
    Em 1871 os trabalhadores tomaram o poder em Paris e estavam construindo uma democracia real, do povo. Não houve nenhum “banho de sangue” nesse processo revolucionário. O que houve na sequência foi uma carnificina praticada pelas classes dominantes. A tomada do poder na Rússia em 1917 também não foi marcada por nenhum “banho de sangue”. A guerra civil foi fomentada pelas potências capitalistas que invadiram o país com tropas de mais de 14 países!

  8. marianomonkey disse:

    Então tá.. as revoluções são pacíficas, nunca se matou ninguém em nome de uma revolução…
    Robespierre, Che Guevara, fidel, Mao, Stalin, são todos pacifistas, inclusive os militares que tomaram o poder, pacificamente, em 1964..

  9. Mariano onde foi que eu disse que não se matou ninguém nas referidas revoluções? Agora, as baixas que ocorreram, tanto na tomada do poder da Comuna de Paris quanto da Rússia em 1917, estão longe de terem sido “banhos de sangue”. Você tem todo o direito de defender o caminho das reformas, mas não tem o direito de distorcer as palavras dos seus divergentes para tentar reforçar seus pontos de vista.
    Aproveito o ensejo e gostaria de saber o que exatamente, do ponto de vista prático, você sugere para os espanhóis?

  10. marianomonkey disse:

    A solução para a Espanha, ao meu ver, seria sair da Zona do Euro e voltar a ter sua soberania, assim como os demais países. Mas isso contraria os interesses dos donos do mundo que querem, ao final, unificar o planeta em um governo central, único e global – ONU? – (totalitário e sem precedentes, a maior distopia a ser criada na história da humanidade) e isso eles não deixariam acontecer, porque vai na contramão dos seus planos e já está tudo preparado para isto. A Nova Ordem Mundial, de quem fala pessoas como Bush (pai e filho), Dilma, Obama e milhares de outras pessoas influentes.
    E, em relação aos banhos de sangue das revoluções, houve sim, basta estudar a história.
    Em ambas as revoluções as mortes começaram com as famílias reais depois com apoiadores do antigo regime e depois com os que não apoiavam a revolução e depois com os próprios revolucionários que passaram a discordar de vários métodos pós-revolução, inclusive os próprios “banhos de sangue”.

  11. Rosa Luxemburgo disse:

    E hoje, marianomonkey, nesse sistema, acreditas que não existem banhos de sangue? E

  12. marianomonkey disse:

    Sim, é o que acontece em vários países africanos (principalmente na Nigéria e África do sul), no oriente médio…e, com certeza vai aumentar, não me surpreenderei se daqui há poucos anos não começar na América Latina e no Brasil…
    Tudo em nome do “mundo melhor”, da “igualdade” e do islamismo, tão bonzinho e pacífico, como entende nossa presidente…

  13. Rosa Luxemburgo disse:

    Negativo, marianomonkey. Não existem banhos de sangue apenas em defesa dos ideais que citaste. Todos os dias indivíduos são torturados e mortos pelas polícias nas favelas de países subdesenvolvidos, e, em geral, conforme comprovam as estatísticas, a grande maioria das vítimas são jovens, negros e pobres. Em outras palavras, o que quero dizer é que não dá para ficar bradando contra o caráter violento de sistemas e de pessoas que pretendem mudança e ignorar a violência que existe em nome da manutenção desse sistema desumano e desigual em que vivemos. Sacas?

  14. Pois é Mariano, se você mesmo reconhece que a sua proposta é irrealizável pelos conflitos de classes envolvidos na atual conjuntura, o que resta ao povo espanhol senão se mobilizar para não perecer?
    Sobre a Comuna de Paris você está equivocado. Não houve cizânia entre o movimento revolucionário, não houve assassinatos entre os próprios revolucionários e o grosso das oligarquias se refugiaram em Versalhes onde prepararam a carnificina. O “banho de sangue” foi promovido pelas classes dominantes.
    No caso da Rússia, sim houve o horror do stalinismo, que foi beneficiado pela contingência histórica (isolamento da Revolução Russa devido ao esmagamento de levantes de operários em países com a Áustria, Alemanha, etc). Mas a tomada do poder, essa virada nas relações de poder, não foi precedida por um “banho de sangue”.

  15. marianomonkey disse:

    Mas o que importa se o banho de sangue foi pouco tempo após ou durante a revolução? Para mim, importa é que SEMPRE tem mortes e mortes em um processo revolucionário…

    Quis destacar o fato de que SEMPRE há banhos de sangue, durante ou logo após, uma revolução..

    Os tribunais populares sempre existe para abater os inimigos da revolução, não importa o nome que se dê para eles…

    Porisso defendo reformas (manter o que dá certo e mudar o que emperra o processo, através de aperfeiçoamente evolutivo democrático) e não revoluções (que destróem o sistema para contruir outro em cima, geralmente mais tirânico que o anterior)…

    Mas sei que sou minoria, ao pensar assim…

    Sei que as novas gerações praticamente já nascem com o espírito revolucionário incutido em suas “almas” e estão cada vez mais predispostas a isso, geração após geração…

    Faz parte do “plano”, como digo…

  16. Como que “SEMPRE há banhos de sangue” se te provei com o exemplo da Comuna de Paris que os únicos agentes da carnificina foram as classes opressoras?
    Revoluções não acontecem pelo desejo de meia dúzia de revolucionários mas pela atitude decidida e consciente de milhares de pessoas. E para que milhares de pessoas se lancem em uma empreitada desse porte, pondo em risco a própria vida, é preciso que haja uma conjuntura que empurre para isso! Não se pode abstrair a base real na qual se desenvolvem esses processos. Qual seria, por exemplo, a reforma possível entre uma colônia que quer se libertar e uma metrópole que quer escravizá-la? Agiram errado os colonos estadunidenses que lutaram contra a Inglaterra?
    A atual geração era considerada, até pouco tempo atrás, alienada e desinteressada pela política. Como explicar sua mudança de atitude, senão através do quadro de crise de um sistema que você mesmo considerou sem possibilidade de ser reformado devido aos interesses poderosos envolvidos?

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