15/out/2014, 5h00min

Globo: o escorpião da democracia brasileira (por Alberto Kopittke)

Conta uma conhecida fábula, ao ser salvo de um incêndio o escorpião picou o sapo que o carregava nas costas até a outra margem do rio. O sapo atordoado só teve tempo de perguntar por que o escorpião o atacara ao que o escorpião respondeu: é o meu instinto.

Não há nada de novo na ​atuação da Rede Globo ​nessas ​eleições. A fórmula repete a atuação que o grupo de comunicações teve em 54, 64, 85, 89, 2002, 2006, 2010 e 2012​​.​​ A tentação autoritária de manipular a informação, em prol dos interesses dos conglomerados da comunicação, até hoje sempre falou mais alto do que qualquer código de ética.

Já faz parte de uma espécie de Padrão Globo de desestabilização da democracia, com o qual o Brasil convive há mais de 60 anos. Entre os meios para tal efeito, o Jornal Nacional pode ser comparado ao instinto incontrolável do escorpião.

Para compreender melhor esta analogia, apresento uma linha do tempo com os fatos marcantes que demonstram a participação nada imparcial da Rede Globo nas decisões políticas do país desde a década de 50.

Década de 50

Em 1954, o jovem Roberto Marinho, então proprietário da Rádio e do Jornal O Globo se soma a Assis Chateaubriand, proprietário da TV Tupi e da Rede de Diários Associados, a Carlos Lacerda e a segmentos golpistas das Forças Armadas para derrubarem Getúlio Vargas do Poder. Durante 30 dias atacaram incessantemente Vargas, afirmando que o Brasil estava enterrado num mar de lama, até conseguirem o golpe militar que levou Getúlio ao suicídio(1).

Década de 60 – 70

Em 1964, as Organizações Globo lideraram uma campanha pela derrubada do governo de João Goulart, eleito democraticamente, afirmando que o país estava à beira do Comunismo. Em diversos editoriais, Marinho conclamava o golpe e fez um dos mais famosos artigos no dia 01 de abril, comemorando a derrubada do Regime Democrático.(2)

Documentos secretos do Governo americano, recentemente publicados, mostram que ao longo de todo o regime, Marinho foi o principal articulador da continuidade e do endurecimento do regime, atuando diretamente com o embaixador dos EUA, inclusive contra o Ditador Castelo Branco.(3)

Década de 80

Todo esse apoio fez Marinho ser reconhecido como o “mais fiel e constante aliado” pelos dirigentes da Ditadura. Ao final de 20 anos de Ditadura a fortuna da família Marinho ultrapassava os R$ 52 bilhões, angariando dezenas de concessões de rádio e TV em todo o país.(4)

Em 1984, a Rede Globo foi a última emissora nacional a noticiar os Comícios das Diretas Já. A primeira veiculação ocorreu em 25 de janeiro, quando milhares de pessoas estavam na Praça da Sé, mas o Comício foi noticiado como parte das comemorações dos 430 anos da cidade de São Paulo, epor determinação de Marinho, como já relatou o então vice-presidente do Grupo, Boni. (5)

Em 1989, a Rede Globo envidou fortes esforços para eleger Fernando Collor de Mello (dono da TV Gazeta de Alagoas, retransmissora da Globo) especialmente através da manipulação de trechos do último debate entre Collor e Lula, no Jornal Nacional.

Anos 2000

Em 2006, o jornalista encarregado de cobrir as eleições, Luiz Carlos Azenha, denunciou que a ordem era não falar de assuntos de economia, pois estes ajudavam a Lula. Na edição da véspera do primeiro turno, o Jornal Nacional mostrou durante 14 minutos ininterruptos fotos do dinheiro que teria sido usado para comprar um suposto dossiê contra José Serra. Outro jornalista, Rodrigo Vianna, relatou que a direção da emissora barrou reportagens e investigações que envolvessem o PSDB e José Serra. (6)

Em 2010, a emissora lançou sua campanha de aniversário de 45 anos, destacando o número e com um jingle que tinha por refrão “todos queremos mais”, casualmente parecido com o slogan de José Serra, “O Brasil pode mais”. Mas o fato mais notório da cobertura foram as edições do JN que divulgaram que Serra fora “agredido por militantes petistas, passado mal e levado a um hospital”, o que depois foi comprovado ser uma farsa montada após o candidato ser atingido por uma bolinha de papel.

Nas eleições de 2012, em todas as edições do Jornal Nacional durante o 2 turno, a cobertura do julgamento do mensalão teve mais de dez minutos de duração, começando sempre imediatamente após o horário eleitoral.

A mesma receita

Ao longo dos últimos 40 anos, o Jornal Nacional sempre foi o canal por onde a Rede Globo operou suas manipulações da informação. O mais famoso telejornal brasileiro teve um reconhecimento público do mais atroz Ditador brasileiro, Médici, que afirmou em entrevista: “Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho”.

Além desses feitos, a emissora nunca dispensou atenção sequer assemelhada a casos como a compra de votos na aprovação da Emenda da reeleição de FHC, as diversas denúncias de corrupção bilionária nas privatizações (estimado em R$ 100 bi) o caso Banestado e Ilhas Cayman (R$ 42 bi), dos vampiros da saúde (R$2,4 bi), dos anões do orçamento (R$ 800mi), do Tremsalão tucano (R$ 570 mi), da Sudan (R$ 214 mi), nem do Mensalão tucano de MG, todos ligados a políticos ou governos do PSDB.

No auge das manifestações do ano passado, quando milhares de jovens protestavam em frente a Rede Globo, em São Paulo, contra suas formas de cobertura (o que obviamente nunca foi noticiado), a emissora fez um editorial pedindo desculpas pelo apoio que havia dado ao Regime Militar. Parecia um compromisso de que dali em diante, as novas gerações que controlam a empresa não sucumbiriam mais à tentação de manipular a informação para influenciar a política brasileira.

Mas desculpas à parte, a incapacidade da Rede Globo em realizar coberturas eleitorais de forma imparcial parece estar encravada em seu DNA. Ao invés de assumir publicamente uma posição em prol de determinada candidatura, como é comum nas grandes redes de comunicação dos EUA e da Europa, a Organização disfarça uma pretensa neutralidade e coloca em curso sua obsessão por influenciar as eleições.

​Por isso, quando sentar para assistir o Jornal Nacional, saiba que o instinto do escorpião é incontrolável.

(1) fonte: Vitória na derrota: a morte de Getúlio Vargas de Ronaldo Conde Aguiar
(2) http://acertodecontas.blog.br/politica/editorial-do-jornal-o-globo-de-2-de-abril-de-1964-celebrando-o-golpe-militar/
(3) http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/helena/2014/04/eua-confirma-acao-de-roberto-marinho-nos-bastidores-da-ditadura-3931.html
(4) Rede Globo e o apoio à ditadura, edição 550 do Jornal Brasil de Fato
(5) “Globo censurou Diretas-Já, diz Boni”. Folha de S. Paulo. 31 de dezembro de 2005.
(6) http://pt.m.wikipedia.org/wiki/Críticas_à_Rede_Globo
(7) O regime militar e as Organizações Globo – VioMundo

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Alberto Kopittke é advogado e vereador de Porto Alegre.

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  • Maicon

    Natural um político filiado ao Partido dos Trabalhadores achar ruim a parcialidade da rede globo, visto que a campanha dos candidatos do partido no executivo nacional e estadual está indo ladeira abaixo.

  • Umberto

    Parabéns pelo artigo!
    A verdadeira cria da ditadura já corrói o país há muitos anos… Não podemos mais aturar este que é o maior conglomerado midiático do mundo exercendo total monopólio sobre os meios de comunicação brasileiros. Abaixo a rede globo!! Pelo fim do retrocesso cultural-informativo que aliena diariamente a população!!

  • Pablo

    Natural um eleitor de Aécio achar banal o histórico criminoso da rede Globo. Aliás, seguindo os métodos do presidenciável, preferem esconder, jogar a sujeira debaixo do tapete.

  • Rafael Silva

    Maicon, quem está ladeira abaixo é a Globo. E finalmente teremos o Marco da Mídia Democrática …

  • nao conheço o Maicon, mas pelas suas palavras fica claro o grau de ENTREGUISMO do cidadão

    muito triste um cidadão que pensa assim

  • Excelente artigo. Temos que dar um basta a Globo e a RBS, não assistindo a seus telejornais e outros programas. Uma sugestão de jornal é a TV Educativa e os jornais on line, é claro. Quanto as novelas, para quem gosta, tem em outros canais. Tem vida além da Globo! Espero uma campanha massiva contra esta imprensa golpista.

  • Jorge Smich

    O bom e velho problema que algumas alas petistas ainda têm com um direito fundamental (“liberal burguês”, por assim dizer): a liberdade de imprensa e de expressão.

    Para eles, boa e legítima é apenas a liberdade dos “blogueiros progressistas”. Esses, sim, podem gozar de toda a liberdade do mundo e de toda a legitimidade possível para enaltecer o governo, defender suas políticas, criticar os adversários, etc e tal.

    Mas a liberdade dos outros – seja dos sistematicamente “não-alinhados” ou dos que possam criticar, eventualmente, os governos petistas – é “golpismo”, “câncer da democracia”, “escorpião malvado”, etc.

    “Nas eleições de 2012, em todas as edições do Jornal Nacional durante o 2 turno, a cobertura do julgamento do mensalão teve mais de dez minutos de duração, começando”

    Ahhh, claro. Esse , aliás, nem era um fato relevante à época. Melhor seria passar um desenho, falar de futebol…

    Virem o disco e façam uma autocrítica. Não é sem motivo que o Tarso está indo para o buraco aqui.

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  • Nilton Lopes

    O ruim e velho problema que algumas alas tucanas ainda têm com um direito fundamental (“Vou falar com o seu patrão”, por assim dizer): a liberdade de imprensa e de expressão quando estas lhes atinge.
    Nessa foram e são perseguidos, e ou censurados, e/ou demitidos, e/ou tiveram de pedir demissão, e/ou repreendidos Erodoto Barbeiro, Maria Rita Kehl, Chico Sá, Marcia Peltier, Celso de Castro Barbosa, Marco Aurélio Flores Carone, André Caramante, Gabriel Priolli e por aí vai.

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