6/jan/2014, 8h05min

Cenários para 2014

Neste período de festas, pipocam projeções e cenários para o ano que está por vir. Para a economia brasileira, as perspectivas mais otimistas apontam para um crescimento não superior a 3,5%. Entre os pessimistas, 2014 será um ano pior do que 2013, com crescimento inferior a 2,0%. Nenhuma dessas projeções, porém, está dada. Os cenários tomam como base interpretações sobre a realidade atual e hipóteses sobre os seus desdobramentos, e ambas podem se alterar com a evolução dos fatos. Mas isso também não significa que as projeções em economia possam ser tomadas como simples exercícios de adivinhação. Algumas tendências, mais pesadas, estruturam e delimitam os cenários, e estes adquirem diferentes gradações, a depender do desenrolar de elementos de incerteza presentes na conjuntura.

No caso da economia brasileira, o cenário para 2014 pode ser modulado por duas restrições. Há pouca ociosidade no mercado de trabalho, o que implica que o crescimento da produção precisa ser alcançado com mais produtividade. Esta, porém, é baixa no país e dificilmente pode ser alterada no curto prazo – mesmo que sejam tomadas medidas para o seu aumento. As perspectivas para a economia mundial também não animam, apesar da incipiente recuperação. Em conjunto, estas restrições tornam improvável a reprodução do ritmo de crescimento observado no ciclo 2004-2010. Por outro lado, as concessões e investimentos em infraestrutura, a Copa, as eleições, a os investimentos e a produção da indústria de petróleo e gás se constituem em vetores de expansão que não podem ser desconsiderados.

Entre as incertezas, há a possibilidade de que o câmbio mais desvalorizado tenha algum efeito na produção – mais pela substituição de importações pela produção doméstica, do que pelo aumento de exportações, posto que a demanda mundial deve continuar deprimida. Se o efeito câmbio se somar aos vetores de expansão expostos acima, o crescimento pode se aproximar daquele proposto nas projeções mais otimistas. Este cenário, porém, pode ser frustrado com uma desvalorização desordenada do câmbio, provocada por uma guinada na política monetária americana ou por um rebaixamento na classificação de risco do país. Neste caso, o impacto do câmbio na inflação e nas expectativas pode reabilitar o ciclo de elevação de juros, e o crescimento pode se aproximar daquele proposto pelos mais pessimistas.

O RS deve encerrar 2013 com um crescimento na casa dos 6%, talvez um pouco menos. No acumulado do ano até o terceiro trimestre o estado cresceu 6,6%, mas as taxas “chinesas” se concentraram no primeiro semestre. No terceiro trimestre o ritmo de crescimento mostrou-se mais normalizado e, se o estado crescer 3,5% no último trimestre, o resultado será uma expansão de 5,8%. Para 2014, há previsão de neutralidade no clima – sem el niño ou la niña – e isso deve contribuir para uma safra regular. Porém, a base de comparação é alta, de modo que a contribuição da agropecuária para o crescimento deve ser pequena, apesar da perspectiva de mais um recorde na safra de grãos. Se em 2013 a base deprimida contribuiu para tornar o resultado mais expressivo, em 2014 o efeito é inverso.

A base de comparação elevada também pode afetar o desempenho da indústria gaúcha. O setor de veículos cresceu 19,9% até setembro de 2013, como resultado da recuperação da produção de caminhões e dos estímulos do governo, seja para o investimento em veículos pesados, seja para o consumo de veículos leves. Os juros reduzidos para investimentos também influenciaram o setor de máquinas e equipamentos, que cresceu 9,6%. Sabe-se que estes estímulos devem se reduzir ao longo de 2014. O refino de petróleo cresceu 25,4%, e a tendência também é de normalização da produção. Neste contexto, de menores contribuições ao crescimento da agropecuária e de setores importantes da indústria, o crescimento da economia gaúcha pode ser inferior ao nacional, em qualquer dos cenários.

Cecília Hoff é doutora em economia pela UFRJ, economista da Fundação de Economia e Estatística (FEE) e professora da FACE/PUCRS.


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