17/fev/2017, 7h00min

Canções de Exílio: Guri d’América

Por Raul Ellwanger (do livro Nas Velas do Violão)

Esta canção soma diversos aspectos musicais e poéticos que foram influências importantes para mim, como um brasileiro que teve o privilégio de viver vários anos no sul da América.  O motivo literário é tentar recuperar os sonhos de juventude, a aventura das transformações, usando um motivo rítmico tomado talvez da baguala ou da vidala do noroeste argentino. Para melhorar isto, pede-se um chardonai Doña Teodora de Macul, um cabernet franc de Navarro Correa, um Rhin Undurraga com bagas de Moscatel!  Que viva o grande quintal sonoro latino americano! Ou o vinhedo…

A maneira de rasguear ao violão imprime muita personalidade aos diferentes estilos. Muitas vezes é mesmo definitória para reconhecer um ritmo. Dentro de nossa abissal ignorância da música do sul da América, pouco percebemos disso. Ouvindo, executando e estudando esse universo interpretativo, me atrevi a compor e tocar dentro do que se poderia chamar de “ar” de tal ou qual gênero. Por isso, ressalvo sempre a distância entre uma zamba autêntica e aquela que posso arriscar com meus recursos.

Guri d’América fica nesse ambiente de misturas, sugestões e indefinições. Começa lenta, como os citados ritmos andinos, mas sofre uma tendência irresistível de  “andar mais rápido”, chegando ao ponto de parecer um chamamê bailável ou um malambo patagônico. Bem, assim é a mescla, a boa confusão. Na verdade, uma liberdade e abertura de espírito para receber todas as águas dessas fontes maravilhosas. É muito distinto de pegar uma bossa nova de Jobim e vitimá-la com um bate estaca eletrônico.

A letra do Guri vai citando e unindo amigos pessoais, paisagens das cidades queridas, nomes de grandes músicos como Violeta Parra e Alfredo Zitarossa, de companheiros perdidos, o permanente e o transitório, o pago e a peregrinação, o anseio de liberdade e aventura, a mistura de amores e sonhos, a nostalgia da adolescência. Gosto de “ave peregrina, tomar o vinho com ingenuidade, os meus dezessete, convés da liberdade”, gosto da ideia de um guri da América Latina.

A forma é algo original, com um sólido tema principal de duas estrofes quase idênticas, com seus intervalos de quarta e quinta inspirados intencional e claramente nas vidalas da puna cordilheirana. Segue com uma parte segunda que transita por três cadências harmônicas diferentes, mas que guardam velada e boa unidade. É interessante notar que a partir da arrancada para cada uma das segundas partes, estas parecem ser iguais, mas são diferentes na música e na letra, e assim vão acumulando variedade e tensão rumo ao final. Primeiro, cantam-se delicados donaires, logo surge uma estranha delegacia e ao final quer-se possuir voluptuosamente cidade, amigo e amante. Para o final, repete com energia o nome da canção e a condição peregrina do cantor no tempo que vai raiar.

Guri d’América

Raul Ellwanger

Tomar o vinho da terra
Com a ingenuidade do primeiro amor
Rever os meus companheiros
Matar a saudade e delirar de novo

Volver aos meus 17,
Viver passageiro e só aventurar
Guri da América Latina
Ave peregrina do que vai raiar

Montevideo, Santiago e Buenos Aires
Cantarolando donaires escuchados al pasar
Entre mercados, fábricas, delegacias
Mário, Gonga e Seu Alfredo até pintar a luz do dia

Ser viajante no convés da liberdade
Possuir cada cidade, cada amigo e cada amante



 

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