6/jan/2017, 1h00min

As tábuas sagradas do neoliberalismo no país e no Estado (por Jorge Alberto Benitz)

(Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A inspiração do governador Sartori ao propor um projeto todo feito por terceiros, por instancias patronais não políticas, suponho, veio do alto, do PMDB e seu programa “Ponte para o Futuro”. Lá, como aqui, tudo foi feito, parece, por terceiros, federações patronais, que, aliás, não concorreram eleições diretamente.

E assim dada vez mais se acentua a participação nula dos políticos na elaboração de um plano de governo. Esta afirmação vale tanto para o nível federal como para o estadual. O que isso demonstra? Várias coisas, entre as quais que cabe aos políticos somente atribuições secundárias. Plano de governo sempre foi algo controverso. Pelo pouco que sei aqueles feitos por técnicos de áreas mais organizadas e articuladas politicamente tinham mais chance de vingar. Outros viravam letra morta tão logo cumpriam seu papel de subsídios na campanha eleitoral. O plano atual como veio do Monte Olimpo, do novo Senhor, o Zeus Mercado. Daí a razão de nada poder ser questionado. São como tábuas sagradas.

Atuei política e tecnicamente nesta área e lembro que até pouco tempo atrás qualquer um grupo responsável por um projeto ou plano de governo tinha que enfrentar uma “via crucis” para expor as linhas gerais do plano e discorrer sobre um ou outro item que interessava aos membros importantes do partido e, invariavelmente, aceitar sugestões de correções, cortes e acréscimos aqui e ali. Hoje, como o kit de propostas já vem pronto do alto – leia-se alto como federações patronais – talvez, tenham pulado esta etapa porque afinal não tem mais sentido fazer este tipo de consulta dado que está vedado qualquer modificação. Se o próprio Sartori aqui e o Temer lá não ousaram mudar nada supõe-se que estava vedado a qualquer um esta possibilidade.

Portanto, o reflexo disso nas próprias bases politicas do governo foi nenhuma subida ao púlpito de deputados governistas para se colocar em defesa do plano, por covardia ou esperteza de muitos que pretendiam assim passar incólumes. Inclusive, tem denúncias no Facebook dando conta de alguns deputados governistas dizendo que votaram contra o plano e, ato contínuo, aparece o placar da votação com seu nome e o sim ao lado, desnudando a farsa. Conforme informação divulgada pela imprensa que cobriu a sessão plenária que decidiu acerca do assunto. Para ser justo, o único a se manifestar em defesa do pacotaço ultraliberal foi o deputado Marcel Von Hattem, com conhecidas ligações com o MBL e visto em fotos de jornais com membros importantes do Instituto Millenium, uma espécie de IBADE Parte II A Volta. IBADE foi uma instituição de direita que conspirou e teve participação decisiva no golpe de 1964. Não é a toa que ele foi o único a se manifestar em defesa do pacotaço.

Disso tudo se depreende que o papel da política e dos políticos no projeto neoliberal em curso se apequenou de tal forma que a função deles neste contexto se resume a questões paroquiais e secundárias. Para piorar a situação, eles nem vão ter mais tantos cargos de confiança para distribuir já que o Estado será mínimo. As questões substantivas foram terceirizadas, ficando totalmente a cargo de outras instâncias que não o executivo e o legislativo. As atribuições politicas nobres estão a cargo das federações patronais que impõem in totum projetos em defesa de seus interesses e privilégios e ai de quem ousar contestá-las. O by-pass, termo que designa uma ponte (Ops!) ou um caminho alternativo que elimina uma parte do sistema, desconsiderando a classe política, é flagrante. Esta situação nada republicana que parece estar dentro dos conformes foi fruto de uma incessante desmoralização da política e da classe política feita de forma uníssona nos jornais, revistas semanais, rádios e, em especial, noticiários de TVs, justamente com o intuito de retirar desta qualquer função importante. Claro que eles ajudaram nesta empreitada cometendo toda a sorte de malfeitos. No entanto é gritante a seletividade ideológica representada pela preferência pelo PT e Lula no apontar culpados de malfeitos, evitando a todo custo indiciar tucanos. Além do fato de que o fim desta desmoralização da política e dos políticos não tem nada de virtuoso, ao contrário. Para usar como ilustração um velho e manjado clichê: Jogaram fora o bebê junto com a água suja da bacia. Fazem isso de modo deliberado. Ao zerar o papel da política e dos políticos e, por tabela, da democracia, evitam sobressaltos que porventura possam ocorrer na hipótese de chegar ao poder via eleição, de novo, alguém descomprometido com este projeto politico conservador e reacionário. Este é o medo deles. A caça ao Lula é parte fundamental deste projeto.

No Brasil, como consideraram insatisfatórios os resultados da assinatura da Carta aos Brasileiros, feito por Lula, apesar de todas as blindagens e concessões nela contidas, devido ao fato de que mesmo assim houve avanços sociais, políticos e econômicos consideráveis para os mais desfavorecidos e um compromisso maior com a ideia de nação soberana, estão demonstrando que são capazes de tudo para manter seus interesses e privilégios, inclusive, usar a base política aliada apenas como correia de transmissão sem nenhuma outra atribuição importante a não ser dizer amém aos seus projetos. Na verdade, isso é o de menos para quem não teve nenhum escrúpulo em praticar um golpe nas instituições depois que perderam pela quarta vez consecutiva. O artigo mostrando Temer falando em Nova York, nos Estados Unidos, após almoço com empresários e investidores na sede da American Society / Council of the Americas não pode ser mais explícito acerca do caráter não republicano de nossa elite e do espirito subserviente e entreguista da classe política que apoia este projeto antipovo e antinacional.

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Jorge Alberto Benitz é Consultor Técnico.

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