17/fev/2017, 16h07min

Ao receber Prêmio Camões, Raduan Nassar denuncia “tempos sombrios” após golpe

Raduan Nassar em foto de arquivo | Foto: Paulo Pinto/Fotos Publicas

Da Redação

Autor dos romances “Lavoura Arcaica” e “Um copo de cólera”, além do livro de contos “Menina a caminho”, Raduan Nassar recebeu nesta sexta-feira (17) o Prêmio Camões, concedido pelos governos do Brasil e de Portugal, no Museu Lasar Segall, em São Paulo. Mesmo sem escrever uma nova obra há mais de 30 anos e fazer poucas aparições públicas desde então, Nassar “reapareceu” nos últimos anos para se posicionar contrariamente ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Nesta sexta, ao receber o prêmio do ministro da Cultura, Roberto Freire, ele fez um breve e duro discurso sobre o momento vivido pelo Brasil após a consumação do golpe, o que considerou ser “tempos sombrios”.

O discurso de duas páginas contêm críticas a Alexandre de Moraes, indicado por Temer para o Supremo Tribunal Federal, ao governo federal, que Nassar classificou como repressor e ao próprio STF.

O discurso revoltou Freire, que fez críticas a Nassar e foi interrompido por vaias por parte do público, formado por muitos escritores. Em certo momento, disse que “é fácil fazer protesto em momentos de governo democrático como o atual” e que “quem dá prêmio a adversário político não é ditadura”.

Em realidade, porém, o prêmio a Nassar foi concedido em maio de 2016, ainda sob o governo Dilma, e sua entrega foi adiada até agora.

Confira a íntegra do discurso de Raduan Nassar:

“Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.

Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandescente desde a Revolução dos Cravos ocorrido dois anos antes. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.

Portanto, Sr. Embaixador, muito obrigado a Portugal.

Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil. Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo atestando a virulência de sua fala. E é esta figura exótico a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.

Esses fatos configura por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado, por sinal, ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração de riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.

Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal. Tanto que o ministro Celso de Mello acolheu, há três dias, o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes em uma única delação, beneficiou-se do foro privilegiado, com julgamento a perder de vista e provável prescrição. Em sua decisão, o ministro acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas.

É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados, e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.

O golpe estava consumado!

Não há como ficar calado.

Obrigado.

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