25/mar/2015, 11h44min

Ao contrário do prometido, transgênicos trouxeram aumento do uso de agrotóxicos

Da esquerda para a direita, Paulo Brack, Marijane Lisboa e Leonardo Melgarejo: Além dos problemas de contaminação, advertiram pesquisadores, há vários outros que não são do conhecimento da sociedade. Entre eles, está o fenômeno do aumento da resistência de certas bactérias a antibióticos e o surgimento de novas pragas, o que leva ao desenvolvimento de novos tipo de transgênicos. (Divulgação)

Da esquerda para a direita, Paulo Brack, Marijane Lisboa e Leonardo Melgarejo: Além dos problemas de contaminação, advertiram pesquisadores, há vários outros que não são do conhecimento da sociedade. Entre eles, está o fenômeno do aumento da resistência de certas bactérias a antibióticos e o surgimento de novas pragas, o que leva ao desenvolvimento de novos tipo de transgênicos. (Divulgação)

Marco Weissheimer

Quando iniciou o debate sobre a utilização de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) na agricultura, uma das principais promessas feitas por seus defensores era que o cultivo de transgênicos, entre outros benefícios, traria uma diminuição do uso de agrotóxicos, em função do desenvolvimento de plantas resistentes a pragas. Passadas cerca de duas décadas, o que se viu no Brasil foi exatamente o contrário. A crescente liberação do plantio de variedades transgênicas de soja, milho e outros cultivos trouxe não uma diminuição, mas um aumento da utilização de agrotóxicos. Mais grave ainda: vem provocando o surgimento de novas pragas mais resistentes aos venenos, que demandam o desenvolvimento de novos venenos, numa espiral que parece não ter fim e que vem sendo construída sem os estudos de impacto ambiental necessários.

Esse foi um dos alertas feitos no painel “10 anos da Lei de Biossegurança e os Transgênicos no Brasil”, realizado terça-feira (24) à noite, no auditório da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Promovido pela Agapan, InGá Estudos Ambientais, Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente (MoGDeMA) e GVC – Projeto de Extensão da Biologia da UFRGS, o encontro, além de atualizar a situação da Lei de Biossegurança e da transgenia no Brasil, prestou uma homenagem à pesquisadora Magda Zanoni, recentemente falecida, que foi uma das principais pesquisadoras no campo da reforma agrária e da agricultura familiar no país, e uma crítica do uso de organismos transgênicos na agricultura como uma solução para os problemas da alimentação no mundo.

Situação da Biossegurança no país piorou, diz pesquisadora

O painel reuniu a doutora em Ciências Sociais, Marijane Lisboa, professora da PUC-SP, e o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, integrante da Agapan. Marijane Lisboa fez um balanço dos dez anos da Lei de Biossegurança, lembrando que essa é, na verdade, a segunda legislação sobre esse tema no Brasil. A primeira lei, de 1995, assinalou, era melhor que a atual pois tinha uma regra que submetia as decisões da Coordenação-Geral da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) ao parecer de órgãos ambientais e da área da saúde. “Essa cláusula permitiu, por exemplo, ingressarmos na justiça contra a liberação da primeira variedade de soja transgênica no Brasil. Isso, ao menos, atrasou a liberação dos transgênicos no país”, assinalou a pesquisadora. Mas essa lei tinha uma desvantagem em relação à atual: durante a sua vigência, as reuniões da CTNBio eram fechadas para a sociedade.

Leia mais: Dossiê denuncia impacto do uso de agrotóxicos no Rio Grande do Sul

O atraso na liberação das primeiras variedades transgênicas não impediu, porém que elas começassem a ser plantadas de forma ilegal no país. O Rio Grande do Sul foi um Estado pioneiro nessa ilegalidade, com o plantio da chamada soja Maradona, contrabandeada da Argentina. Marijane Lisboa trabalhou no Ministério do Meio Ambiente, quando Marina Silva, era ministra, e vivenciou diretamente todo o lobby da indústria dos transgênicos e de seus braços parlamentares para a liberação do plantio. “A pressão política foi muito forte e a soja transgênica acabou sendo liberada, no governo Lula, por Medida Provisória. Quando o governo enviou a MP para o Congresso, a bancada ruralista anunciou que pretendia fazer uma emenda para ampliar a liberação e torná-la permanente. Seguiu-se uma negociação que acabou dando origem à nova Lei de Biossegurança”, relatou.

“Para construir uma ponte, precisa estudo de impacto ambiental. Para liberar transgênico, não”

Uma das principais disputas travadas na época se deu em torno da vinculação ou não dos pareceres da CTNBio à avaliação dos órgãos ambientais. “Nós defendíamos essa vinculação, mas, infelizmente, o então ministro Aldo Rebelo decidiu pela posição contrária. O que os cientistas decidissem na CTNBio seria a palavra final, o que deu origem à uma lei muito pior que a anterior. “Não é possível que, para construir uma ponte, seja preciso ter um estudo de impacto ambiental, e para liberar um produto transgênico para o consumo humano não exista a mesma exigência”, criticou a professora da PUC-SP. “Hoje”, acrescentou, “os integrantes da CTNBio são escolhidos diretamente pelo ministro da Ciência e Tecnologia. Nós temos cinco representantes da sociedade civil, mas eles devem ser doutores e representam uma posição minoritária. Os lobistas da indústria dos transgênicos assistem às reuniões para ver como os cientistas estão se comportando. Essa é a CTNBio hoje. Ela foi sendo adaptada para liberar tudo”.

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Na mesma direção, Leonardo Melgarejo criticou o atual modo de funcionamento da CTNBio, observando que os integrantes da comissão aprovam a liberação de transgênicos com base em uma bibliografia totalmente favorável a essa posição, composta em sua maioria por artigos não publicados em revistas indexadas. Para enfrentar essa situação, um grupo de pesquisadores está preparando um livro com 700 artigos de cientistas que fazem um contraponto a esse suposto consenso favorável à liberação do plantio e consumo dos transgênicos. Esse livro incluirá artigos publicados já nos primeiros meses de 2015 que contestam esse suposto consenso. Um deles, “No scientific consensus on GMO safety”, de autoria de um grupo de cientistas da European Network of Scientists for Social and Environmental Responsibility, denuncia a fragilidade de evidências científicas para sustentar tal consenso.

“Hoje, não dá para dissociar agrotóxicos de transgênicos”

Melgarejo chamou a atenção para o fato de que não é possível, hoje, dissociar agrotóxicos de transgênicos. “Quando alguém sente cheiro de veneno já está sendo envenenado”, resumiu. Além dos problemas de contaminação, advertiu, há vários outros que não são do conhecimento da sociedade. Entre eles, está o fenômeno do aumento da resistência de certas bactérias a antibióticos e o surgimento de novas pragas, o que leva ao desenvolvimento de novos tipo de transgênicos. A França, relatou ainda o engenheiro agrônomo, proibiu ontem (23) o cultivo do milho geneticamente modificado MON 810. Melgarejo advertiu também para os riscos da aprovação no Brasil do agrotóxico 2,4 D, muito mais tóxico que o glifosato, e do projeto de lei do deputado federal Luis Carlos Heinze (PP-RS), propondo o fim da rotulagem dos transgênicos.

O biólogo Paulo Brack, do InGá Estudos Ambientais, também criticou o modo de funcionamento atual da Comissão Nacional de Biossegurança. “A situação da CTNBio passou dos limites. Não há espaço para debate científico nas reuniões, as cartas já estão marcadas. A maioria dos integrantes da CTNBio tem vínculos com empresas”. Para Brack, a agricultura convencional hoje se tornou disfuncional pois não respeita princípios ecológicos básicos. “A lógica é aumentar o consumo dos agrotóxicos”, assinalou o biólogo, que apresentou um gráfico que atesta esse crescimento.

Em 2005, quando foi a aprovada a Lei de Biossegurança  11.105, que impulsionou a liberação de transgênicos no país, o consumo de agrotóxicos no Brasil estava na casa dos 700 milhões de litros/ano. Em 2011, seis anos apenas depois, já estava na casa dos 853 milhões de litros/ano.

Em 2005, quando foi a aprovada a Lei de Biossegurança 11.105, que impulsionou a liberação de transgênicos no país, o consumo de agrotóxicos no Brasil estava na casa dos 700 milhões de litros/ano. Em 2011, seis anos apenas depois, já estava na casa dos 853 milhões de litros/ano.

Em 2005, quando foi a aprovada a Lei de Biossegurança 11.105, que impulsionou a liberação de transgênicos no país, o consumo de agrotóxicos no Brasil estava na casa dos 700 milhões de litros/ano. Em 2011, seis anos apenas depois, já estava na casa dos 853 milhões de litros/ano. Em 2013, as estimativas apontam para um consumo superior a um bilhão de litros/ano, uma cota per capita de aproximadamente 5 litros por habitante. O Brasil consome hoje pelo menos 14 agrotóxicos que são proibidos em outros países do mundo.

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  • Diogo Terra

    Isso a gente já sabia. Mas o lobby contaminou a imprensa.

  • Tania Jamardo Faillace

    É óbvio. As pragas se adaptam aos agrotóxicos, porque seu ciclo de vida é muito curto e permite as alterações genéticas necessárias para a sobrevivência dessas espécies.
    Quanto mais venenos se usarem, mais super-poderosas serão as pragas. Esse caminho dá dinheiro às empresas, mas alimentam uma espiral insensata no sentido de destruição do ambiente e no envenenamento definitivo das populações humanas e dos animais de porte grande ou médio de que se alimenta essa população.
    A solução é fazer a intervenção nessas empresas, e mudar sua linha de produção. Tintas domésticas, quem sabe?
    Tania Jamardo Faillace
    jornalista e escritora de Porto Alegre,RS

  • Zé Fonseca

    Essa é a lei que chancela a Insegurança à Vida saudável.Não fosse assim isso aqui não seria o paraíso das corporações agroquímicas que sem nenhum constrangimento, convencem a grande maioria dos membros da CTNBio a votarem em 100% daquilo que propõe, envenenando nossos alimentos, terra, ar e águas, sob auspícios de governos, legisladores e judiciário.

  • Paulo Andrde

    Caros.

    Quanto ao aumento do uso de agrotóxicos, ele aconteceu, sim, mas está diretamente relacionado ao aumento da produção: nos últimos 10 anos a produção praticamente dobrou se acréscimo de área plantada e o uso de agrotóxicos também. Isso é típico do modelo de agricultura intensiva do país, desde cana de açúcar até milho, passando por côco, dendê, laranja e por aí vai.
    Mas os únicos agrotóxicos que têm relação com os transgênicos são o glifosato, o glufosinato de amônio e dois de menor expressão, que tiveram o uso aumentado. O aumento do uso de óleo mineral, 2,4-D e uma longa lista de outros pesticidas nada tem a ver com isso, sobretudo o de inseticidas, uma vez que as plantas transgênicas resistentes aos insetos efetivamente reduziram o uso de inseticidas. Enquanto isso, os casos de intoxicação não cresceram nada, pelo contrário: há uma tendência de queda.
    Os debatedores fizeram uma união entre aumento do uso det ransgênnicos (mais de 500%) e de agrotóxicos (cerca de 200%), mas esqueceram de ver o aumento da produção sem aumento de área. Erro crasso.
    Esta correlação sem sentido está refutada aqui: http://genpeace.blogspot.com.br/2015/03/agrotoxicos-tamanho-real-do-problema-e.html

  • Eu não acredito no que li acima. Por favor a monocultura nunca foi e nem nunca será a melhor escolha e muito menos o plantio de transgênicos (cujo impacto ambiental e para a saúde já são comprovadamente danosos). O que que é genpeace?? Eu conheço Greenpeace e estes jamais concordariam com a afirmação acima. Até porque o chamado ‘aumento das áreas de plantio’ estão diretamente relacionados ao desmatamento acelerado, criminoso e cada vez mais impune. Os produtos destas multinacionais sempre visaram somente o lucro e agora ainda mais a detenção da semente. O que há por trás disto tudo é a ganância estúpida de uns poucos e a omissão do restante que infelizmente estão acabando com o nosso planeta, nosso próprio habitat.

  • Pingback: Ao contrário do prometido, transgênicos trouxeram aumento do uso de agrotóxicos — Terra de Direitos()

  • Solange, GenPeace é uma paródia ao Greenpeace. Criamos este blog para levar ao leitor dados baseados em ciência sobre avaliação de risco de OGMs. Nós achamos que os dados trazidos pelo Greenpeace são em geral distorcidos e que a instituição é alarmista e oportunista.

    Concordo com você que a monocultura é um modelo agrícola com problemas ambientais, sociais e de paisagem muito sérios. Mas os transgênicos mudam muito pouco este cenário. Se para melhor ou pior é coisa que não cabe disutir aqui num pequeno comentário.

    Quanto aos transgênicos serem comprovadamente danosos à saúde ou ao ambiente, eu descordo: não há uma única priva séria disso, só os trabalhos desacreditados de Séralini, Judy Carman e seus aparentados. Além disso, bilhões de animais e seres humanos comem razção e comida formulados com OGMs e ninguém, mas ninguém mesmo, morreu ou ficou doente por causa disso.

    Entretanto, minha intervenção era outra: a propalada ligação entre aumento do uso de agrotóxicos e as plantas transgênicas é falsa e usada como justificativa furada para lutar contra a biotecnologia agrícola. Porque a insistência em usar esta correlação falsa? Porque não há provas de que os transgênicos sejam, de fato, prejudiciais ao ambiente ou à saúde. Portanto, deve-se combatê-los ligando-os ao produto associado (neste caso, os herbicidas). Malandramente, os opositores sequecem que as plantas transgênicas resistentes a inseto diminuíram drasticamente o uso de inseticidas nas plantações de milho e soja, e também nas de algodão.

    • Paulo Andrde, não posso concordar com tua opinião sobre o Greenpeace porque seria o mesmo que negar o efeito estufa, a caça predatória, o desmatamento acelerado e todos os motivos (que não faltam) para as ações do mesmo. Alarmista é a situação atual da vida no planeta. E sim, existem provas quanto aos danos que já mencionei causados pela Monsanto, uma boa pesquisa até no Google e você (se desejar é claro) encontrará várias. Afinal governos já impedem o plantio destes OMGs com seriedade e compromisso pela vida de seus cidadãos e pelo seu próprio meio ambiente. Haja visto que os transgênicos não são bem vindos na Europa, por exemplo. Uma coisa é tecnologia para o bem e outra é tecnologia para o interesse econômico dos ‘tais estúpidos gananciosos’ que mencionei em comentário anterior. De qualquer forma, caso haja mesmo interesse pela verdade, passo os links abaixo:
      http://www.revistaecologica.com/monsanto-revela-que-milho-transgenico-pode-fazer-mal-saude/
      http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2014/08/26/populacao-de-borboletas-monarca-desaba-nos-eua-e-ambientalistas-pedem-socorro.htm
      http://portugalmundial.com/2015/01/populacao-de-borboletas-monarca-desaba-nos-eua/
      http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/planeta-urgente/mexico-proibe-uso-de-sementes-transgenicas-da-monsanto/
      http://www.noticiasnaturais.com/2014/09/russia-bane-a-importacao-e-a-producao-de-transgenicos/
      http://observatorio-eco.jusbrasil.com.br/noticias/2741644/constituicao-da-hungria-bane-os-transgenicos
      http://transbio07.blogspot.com.br/2008/04/romnia-bane-milho-transgnico-da.html
      http://www.noticiasnaturais.com/2014/09/russia-bane-a-importacao-e-a-producao-de-transgenicos/
      http://aquiacontece.com.br/noticia/2010/03/11/suica-bane-os-transgenicos-de-suas-plantacoes
      E se isto não bastar, lembre-se de como estes ‘tais transgênicos da Monsanto” entraram no Brasil, pela porta dos fundos, isto é de maneira ilegal e vendendo mentiras aos pobres agricultores gaúchos que após os primeiros plantios perceberam os danos e tardiamente se arrependem. E esta é também uma informação de várias fontes confiáveis. Mas se ainda isto não te bastar:
      “1. Contrariamente à afirmação divulgada pela Monsanto, de que não há estudos conclusivos, está provado: os transgênicos fazem realmente mal à saúde. Várias pesquisas já o comprovaram.

      2. Por que jamais chegam a nosso conhecimento as pesquisas sobre os transgênicos? Porque a Monsanto persegue os cientistas que as fazem – em qualquer lugar do mundo. O livro cita vários casos em que cientistas e suas equipes perderam seus postos, tiveram o financiamento de suas pesquisas suspenso e foram difamados em público. Isto ocorreu não só nos EUA, mas na Inglaterra e na Itália também. A Monsanto impede que o resultado de suas pesquisas seja publicado em revistas científicas e pagam outros cientistas para publicar artigos desmoralizando as pesquisas cujos resultados sobre os transgênicos sejam negativos (no sentido de que produzem efeitos nocivos no organismo humano).

      O cientista de origem húngara Arpad Pusztai, pesquisador renomado em um instituto inglês, Rowett, desenvolveu uma pesquisa sobre o impacto dos transgênicos sobre a saúde humana. Ele fez parte de uma equipe de cerca de trinta pesquisadores que, no início, eram entusiastas da biotecnologia. Em sua experiência, ratos que se alimentaram com batatas transgênicas tiveram cérebro, fígado e testículos menos desenvolvidos que os ratos que se alimentaram com batatas comuns. Em um programa de TV da BBC em 1998, o cientista alertou que, antes de serem lançados no mercado britânico, os transgênicos deveriam ser mais pesquisados. Dois dias depois da entrevista, o cientista foi demitido do Instituto Rowett e a equipe de pesquisa foi dissolvida. Ele foi proibido de dar entrevistas. Enquanto isso, o diretor do Instituto, cientistas da Monsanto e conselheiros científicos do governo (Blair) difamaram publicamente o cientista e sua pesquisa.
      Arpad Pusztai só foi salvo porque a Câmara dos Comuns decidiu ouvi-lo. Ele, então, enviou sua pesquisa a vinte cientistas reconhecidos de outros países para poderem avaliá-la. A conclusão destes cientistas foi amplamente favorável aos resultados obtidos por Pusztai e contrária ao que foi publicado por seus detratores. Graças a isso, na ocasião, os transgênicos não puderam entrar na Inglaterra.

      Outro caso semelhante se deu na Itália: a pesquisadora Manuela Malatesta perdeu o posto que tinha na Universidade Urbino, assim como seu laboratório e sua equipe, porque chegou a conclusões preocupantes sobre a soja transgênica: os ratos alimentados com o transgênico tiveram prejuízo no fígado, no pâncreas e nos testículos, em comparação com aqueles que receberam alimento comum. Mais: ela afirmou que não se consegue recursos para fazer pesquisa sobre os transgênicos – a razão alegada pelas instituições para a recusa de recursos é que, supostamente, segundo a literatura científica, nada prova que os transgênicos provoquem problemas, portanto, não vale a pena pesquisar sobre eles.

      Se, em épocas revolutas, o obscurantismo e o dogmatismo impediram o avanço da ciência, estamos claramente diante de um caso em que, ao final do século XX e início do XXI, para defender seus interesses comerciais, uma empresa multinacional bloqueia a pesquisa científica. Mais que isso: esta empresa investe na destruição do trabalho e da reputação de cientistas que chegam a conclusões que possam prejudicar seus interesses. Quanto a suas próprias pesquisas sobre os transgênicos, a empresa só divulga suas conclusões (sempre positivas) e não disponibiliza os dados brutos para outros cientistas, sob pretexto de “segredo comercial”. Mesmo assim, numa destas conclusões, a Monsanto afirma haver constatado diferenças no fígado, nos testículos e nos rins (dos ratos), mas que não atribui tais diferenças à manipulação genética…

      Não só os cientistas têm suas pesquisas bloqueadas e seus relatórios não conseguem ser publicados. Jornalistas que fazem reportagens que possam comprometer algumas afirmações da Monsanto sofrem pressão das direções de seus órgãos de comunicação, por exigência da multinacional: um destes casos é relatado em detalhes no livro e os jornalistas acabaram perdendo seu emprego, além de sofrer processo, calúnia e difamação.

      3. Nos EUA, a Monsanto conseguiu impedir a rotulagem de produtos que contêm transgênicos, sob a alegação de que esta medida seria discriminatória em favor dos outros produtos. Os produtores de alimentos não transgênicos não podem igualmente explicitar no rótulo de seus produtos que eles não têm transgênicos. Em outras palavras: os habitantes deste país não têm o poder de escolher o tipo de alimentos que querem consumir porque não podem saber se eles contêm ou não transgênicos.

      Por que esta preocupação da Monsanto em não permitir a rotulagem de seus produtos? Porque, segundo especialistas, suas vendas cairiam em pelo menos 50%: qual o consumidor que, tendo à escolha, alimentos sem transgênicos e alimentos transgênicos (ou contendo transgênicos), vai escolher aqueles sobre os quais pairam sérias dúvidas?

      Como a Monsanto conseguiu este feito? Primeiro, ela conseguiu colocar na agência governamental que fiscaliza alimentos e medicamentos, a FDA (Food and Drug Administration) cientistas e advogados que já trabalharam para a Monsanto. O livro cita o nome dos especialistas que ajudaram a elaborar uma diretiva da FDA que afirma a inocuidade dos transgênicos. A regulamentação publicada pela FDA em 1992 afirma a “equivalência em substância” entre as plantas geneticamente modificadas e os alimentos naturais: “seus componentes são os mesmos ou similares em substância àqueles que encontramos comumente nos alimentos”. Se é assim, não há com que se preocupar. Mais: a FDA permitiu que os transgênicos sejam comercializados sem uma avaliação toxicológica preliminar. Estes alimentos foram considerados como “geralmente reconhecidos como seguros” e não como “aditivos alimentares”. Os aditivos alimentares – um conservante ou um colorante, por exemplo – têm obrigatoriamente de ser submetidos a testes para provar que não são prejudiciais à saúde humana, antes de ser comercializados. Já os transgênicos puderam, graças àquele estratagema, escapar desta obrigação.

      Cabe observar que vários cientistas da FDA, consultados internamente, exprimiram sérias inquietações quanto às conseqüências dos transgênicos sobre a saúde humana. A diretiva final, porém, não levou estas opiniões em conta.

      A presença de gente da Monsanto entre as autoridades não se resume à FDA: em alguns cargos do governo George W. Bush, o ministro da Justiça, o secretário da Saúde, a secretária de Agricultura, o secretário da Defesa, e um membro da Suprema Corte, tinham sido financiados pela Monsanto ou tinham pertencido à Monsanto ou a uma de suas filiais. Vice-versa, pessoas que tinham sido do governo anterior estavam agora trabalhando em altos cargos da Monsanto.

      A empresa consegue se infiltrar inclusive em organismos da ONU como a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). E consegue que estas organizações emitam um texto em 1990 – quando não havia ainda nenhum transgênico no mercado – que deixa livre o caminho para a comercialização (futura) dos transgênicos. Em um documento publicitário da soja Roundup de 1998, a Monsanto afirma que o conceito de “equivalência em substância” foi estabelecido no início dos anos 1990 pela FAO, pela OMS e pela OCDE. Traduzindo: não há com que se preocupar, os transgênicos – segundo estas instituições internacionais – não fazem mal à saúde, podem ser consumidos à vontade.

      No Canadá, o órgão correspondente à FDA dos Estados Unidos é a Health Canada. Para introduzir o hormônio transgênico que a Monsanto fabricou para as vacas produzirem mais leite, a autorização dependia desta instituição. Três cientistas da Health Canadá levantaram questões a respeito das conseqüências negativas para as vacas e também para o leite. Revelou-se também uma tentativa de corrupção por parte da Monsanto, na qual foram oferecidos entre um e dois milhões de dólares para a instituição liberar o transgênico. Depois da análise por parte de uma Comissão do Parlamento canadense, em que aqueles cientistas foram ouvidos, o hormônio transgênico acabou não sendo aceito no Canadá. Mas, em conseqüência de sua tomada de posição, por incrível que pareça, os três foram exonerados da instituição. É preciso observar que vários produtores de leite experimentaram o tal hormônio em algumas de suas vacas e as conseqüências foram sérias: as vacas passaram a emagrecer, a ter doenças nas tetas – o que exigia a utilização de antibióticos (que, logicamente, passaram para o leite) -, e a ter dificuldade de procriar (ou simplesmente não procriaram mais). Uma pesquisa da própria Monsanto também verificou tais resultados em uma parte das vacas que receberam o hormônio transgênico, mas a empresa nunca publicou esta pesquisa e nunca divulgou a possibilidade de efeitos negativos do seu hormônio transgênico, ao contrário. A divulgação da pesquisa foi resultado de um vazamento.

      4. Qual o objetivo da empresa Monsanto com tudo isso?

      O lucro, em primeiro lugar.

      De que forma?

      Conseguindo que os agricultores sejam obrigados a usar suas sementes e seus herbicidas. A natureza não precisa ser paga por gerar novas sementes, que podem ser utilizadas pelo agricultor. Mas a Monsanto não permite a utilização das sementes produzidas pela plantação de alimentos transgênicos, o agricultor tem de comprar novamente as sementes fabricadas pela Monsanto. Ao comprar pela primeira vez sementes da Monsanto, o agricultor tem de assinar um termo em que concorda com esta exigência. Se ele não cumpre, se por acaso usa as sementes que nascem de sua plantação para nova semeadura, é processado pelo batalhão de advogados da empresa e é obrigado a pagar. Nos EUA, agricultores que não aceitaram isso se viram arruinados em razão do processo que tiveram que enfrentar.

      Além disso, à medida que as sementes de transgênicos são plantadas, o processo natural espalha as sementes nos campos vizinhos, os transgênicos vão se proliferando e contaminam as outras áreas. Técnicos da Monsanto vão a estes outros agricultores, investigam seus campos e os obrigam a pagar pelas sementes que eles não plantaram mas que se encontram em suas terras.

      A conseqüência mais grave, para a agricultura e para a humanidade, é que, nas terras onde se planta uma vez transgênico, em seguida não se consegue plantar sementes orgânicas. A terra fica viciada. Isto torna os agricultores (e o país) dependentes da empresa que fabrica os transgênicos, a Monsanto.

      Mas como é que a Monsanto consegue convencer os agricultores a comprar, pela primeira vez, um produto transgênico? Simples: ela mostra que o agricultor gastará muito menos em agrotóxicos. Plantando soja transgênica, por exemplo, basta usar o herbicida transgênico fabricado pela Monsanto, pois ele mata todas as ervas (daninhas ou não), menos a soja (que, geneticamente modificada pela Monsanto, resiste a este agrotóxico). Como diz a autora do livro, isto só é verdade para os primeiros dois anos de plantação. A partir do terceiro ano, novas ervas ficam resistentes ao herbicida e o agricultor passa a ter de usar 3 a 4 vezes mais herbicida que antes. Passa, portanto, a gastar muito mais que antes, além de ter de comprar, todo ano, as sementes da Monsanto.

      A Monsanto quer obter o controle da agricultura mundial, através da patente da semente: fazendo com que todos tenham de pagar a ela, Monsanto. A Monsanto controla 90% das sementes transgênicas no mundo. Em 2007, as culturas transgênicas cobriam 100 milhões de hectares: mais da metade se situavam nos EUA, seguidos por Argentina, Brasil, Canadá, Índia, China, Paraguai e África do Sul. E 70% dos transgênicos vendidos eram resistentes ao Roundup, o principal herbicida produzido pela Monsanto.

      5. Apesar do imenso poder demonstrado pela Monsanto, já houve algumas vitórias importantes.

      No Canadá, praticamente não há mais canola (colza) que não seja transgênica. No entanto, além do hormônio transgênico para vacas, conseguiu-se barrar a introdução do trigo transgênico. Como 80% do trigo é exportado, para a Europa e para o Japão, estes países explicitaram aos produtores canadenses que não comprariam mais o seu trigo se ele fosse transgênico. Este foi o argumento determinante.

      Graças, em boa parte, à campanha de várias organizações de camponeses e do Greenpeace, as sementes transgênicas tiveram sua entrada barrada na Europa (à exceção da Espanha). A opinião pública foi particularmente alertada por causa do escândalo da “vaca louca”. E passou a pressionar mais diretamente os governos e os órgãos públicos responsáveis pela fiscalização dos alimentos.

      A tecnologia Terminator – que geraria sementes estéreis –, outro produto da Monsanto, foi denunciada publicamente como um risco para a agricultura, pois poderia contaminar as sementes orgânicas, que se tornariam também estéreis. A empresa teve de desistir de produzi-la.

      No Brasil, embora o governo Lula tenha liberado a soja e o milho transgênicos, o estado do Paraná proíbe a plantação de transgênicos.

      O livro de Marie-Monique Robin, até dezembro de 2008, tinha sido traduzido em 20 países, cem mil exemplares haviam sido vendidos na França e o documentário tinha sido exibido em 13 países.

      Uma última observação: segundo a própria autora, que esteve no Brasil em dezembro para divulgar o livro, boa parte do que é denunciado ali se encontra também na internet. Naturalmente, a autora não se contentou com isso, como se vê pelas inúmeras entrevistas que realizou e os locais que visitou (algumas das quais aparecem no documentário que ela realizou). Mas quem tiver dúvidas, é só procurar na rede.
      O endereço recomendado pela autora, onde ela disponibilizou os dados de sua pesquisa é: http://www.combat-monsanto.org

      Para ler mais:

      `A Monsanto não é confiável`. Entrevista com Marie-Monique Robin

      México, o berço do milho contaminado por OGMs

      André Trigueiro comenta o livro `O mundo segundo a Monsanto`

      O Mundo segundo a Monsanto. Livro revela o lado obscuro da transnacional”
      Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/19377-o-mundo-segundo-a-monsanto
      Dentre tantas outras que é claro podes pesquisar à vontade. E só para lembrar:
      “A empresa oculta da sua históriaii “pequenos pormenores”, como as consequências profundamente dramáticas para o meio ambiente e a saúde pública da produção de PCB’s, a contaminação de vietnamitas e veteranos de guerra com o Agente Laranja ou a toxicidade do Roundup, o herbicida que se transformou numa mina de ouro.

      PCB’s: Consequências dramáticas para o meio ambiente e a saúde pública

      Cerca de 99% dos PCB’siii utilizados nos EUA foram produzidos pela Monsanto na sua fábrica de Sauget, em Illinois – que apresenta a taxa mais elevada de morte fetal e de nascimentos prematuros do estadoiv -, até terem sido totalmente proibidos pelo Congresso norte americano em 1976.

      Estes compostos, produzidos desde 1930 e utilizados como refrigerantes e lubrificantes em equipamentos elétricos, são cancerígenos, e têm efeitos prejudiciais para o fígado, sistema endócrino, sistema imunológico, sistema reprodutor, sistema de desenvolvimento, pele, olhos e cérebrov.

      Em janeiro de 2002, o jornalista Michael Grunwald, do Washington Post, descrevia no seu artigo, intitulado “Monsanto Hid Decades of Pollution”, a forma como, durante cerca de quatro décadas, a Monsanto envenenou a população de Anniston, despejando regularmente lixo tóxico num riacho na zona Oeste desta pequena cidade americana.

      Em 1966, os administradores da Monsanto aperceberam-se que os peixes do riacho estavam a morrer. Três anos depois, encontraram peixes noutro riacho com 7.500 vezes os níveis legais de PCB’s. Em 1975, um estudo verificou que os PCB’s causavam tumores em ratos. Os responsáveis da Monsanto ordenaram a alteração dos resultados.

      Vários memorandos internos, classificados como “confidenciais” comprovam que a Monsanto sabia quais as consequências das suas práticas, mas isso não a impediu de lucrar durante quatro décadas com a produção de PCB’s. “Nós não nos podemos dar ao luxo de perder um dólar de negócios”, frisava um dos documentos.

      As indemnizações pagas décadas depois representaram somente uma pequena fração dos lucros, demonstrando que, de facto, o crime compensou.

      Quase 30 anos depois de os PCB’s serem proibidos nos EUA, continuam a aparecer no sangue de mulheres grávidas, conforme avança um estudo de 2011 da Universidade da Califórnia, em San Francisco. Outras pesquisas apontam um paralelo entre PCB’s e autismo.

      DDT: O inseticida proibido nos EUA em 1972

      Em 1944, a Monsanto tornou-se num dos primeiros fabricantes do pesticida DDT, utilizado para combater os mosquitos transmissores da malária e do tifo e que foi massivamente utilizado na agricultura.

      Ainda que durante décadas a Monsanto tenha assegurado veementemente que o DDT era seguro, em 1972, o inseticida foi proibido em todo os EUA, após terem ficado provados os verdadeiros efeitos da toxicidade do produto.

      No livro Silent Spring a bióloga norte Americana Rachel Carson demonstra como o DDT pode provocar cancro em seres humanos e interfere com a vida animal, causando, por exemplo, o aumento de mortalidade entre os pássaros. Carson chegou a comparar o efeito das pulverizações massivas de DDT ao de uma nova bomba atómica. Vários estudos assinalaram que o DDT estava a matar vários insetos inofensivos essenciais para os ecossistemas e o pesticida chegou a ser responsabilizado pela quase extinção de, pelo menos, uma ave, o falcão-peregrino.

      Em 23 de maio de 2001, 122 países assinaram a Convenção de Estocolmo sobre poluentes orgânicos persistentes (POPs), com o objetivo de eliminar uma lista inicial de 12 substâncias tóxicas, na qual se incluía o DDT.

      Desenvolvimento das primeiras armas nucleares

      Pouco depois de adquirir, em 1936, a Thomas e Hochwalt Laboratories, em Dayton , Ohio, a Monsanto transformou esta divisão no seu Departamento de Investigação Central, que, entre 1943 e 1945, teve uma participação significativa no Projeto Manhattan, cujo objetivo era desenvolver a primeira bomba atómica.

      O Dr. Charles Thomas, que veio a assumir a presidência da Monsanto, era responsável pela purificação final do plutónio e esteve presente no primeiro teste de explosão da bomba atómica.

      Utilização do Agente Laranja aos EUA durante a Guerra do Vietname

      Entre 1961 e 1971, a Monsanto forneceu Agente Laranjavi, resultante da combinação entre os herbicidas 2,4-D e 2, 4, 5-T, ao exército norte americano, que o utilizou para desfolhar as árvores da selva tropical do Vietname durante a guerra. Os cerca de 80 milhões de litros deste desfolhante despejados no país pela Força Aérea dos EUA foram contaminados com dioxina, uma substância altamente tóxica e cancerígena criada como um subproduto do processo de fabrico do Agente Laranjavii.

      Até hoje, a utilização do desfolhante durante a Guerra do Vietname traduz-se em consequências devastadoras para a população vietnamita e para os veteranos de guerra norte americanos, que vieram a processar a Monsanto.

      Os Veteranos do Vietname da América identificaram pelo menos 50 doenças associadas à exposição ao Agente Laranja, bem como 20 tipos de defeitos de nascençaviii.

      Segundo a Rede de Agricultura Sustentável (RAS)ix, algumas estimativas dão conta da existência de mais de 500 mil crianças nascidas no Vietname desde os anos 60 com deformidades relacionadas à dioxina contida no Agente Laranja.

      A RAS refere ainda que uma ação judicial, originada pela denuncia de trabalhadores ferroviários expostos a dioxinas em consequência de um descarrilamento, evidenciou a manipulação de estudos para apoiar a posição da Monsanto. Um funcionário da Agência de Proteção Ambiental Americana (EPA) chegou à conclusão que os estudos foram manipulados por forma a levarem a crer que os efeitos da dioxina se limitava à cloroacne – uma enfermidade da pele. A Monsanto acabou por ser multada em 16 milhões de dólares, verificando-se ainda que muito dos produtos da empresa estavam contaminados por dioxina.

      No artigo “A Obscura História da Monsanto”x, publicado pela RAS, é também citado um memorando da Dra. Cate Jenkins, da EPA, de 1990, onde se pode ler que “a Monsanto remeteu informações falsas à EPA”. “A empresa adulterou amostras de herbicida que remeteram ao Departamento do Ministério da Agricultura dos EUA para registar o 2,4-D e vários clorofenóis; ocultou provas sobre a contaminação do Lysol, além de excluir centenas dos seus antigos trabalhadores doentes dos seus estudos comparados de saúde”, avança a RAS.

      BST: Degradação da saúde dos animais e perigo para a saúde pública

      Em 1993, a Monsanto conseguiu a aprovação, por parte da Food and Drug Administration (FDA), da comercialização da BST, uma substância com efeito hormonal utilizada para fazer aumentar, entre 10% a 20%, a lactação nas vacas.

      Em 1994, o Government Accountability Office (GAO) chegou a promover uma investigação a três funcionários da FDA envolvidos na aprovação da BST, por existirem suspeitas de conflito de interesses. Michael Taylor, Margaret Miller e Suzanne Sechen estiveram envolvidos nos estudos iniciais da Monsanto sobre a BST, tendo mais tarde vindo a integrar a FDA e a avaliar esses mesmos estudos. Ainda que tenham ficado perfeitamente demonstradas as inúmeras ligações entre a Monsanto e a FDA, o GAO acabou por concluir que nenhum destes funcionários tinha violado qualquer regra sobre conflito de interesses, defendendo não existir base legal para qualquer processoxi.

      Um estudo da comissão científica da União Europeia veio, entretanto, a concluir que a utilização da BST aumenta substancialmente a incidência de problemas de saúde nos animais, entre os quais problemas nas patas, processos infecciosos agudos das glândulas mamárias (mastite) e doenças do aparelho reprodutor. No caso das vacas com mastite, o leite produzido apresenta pus, sendo que são administrados antibióticos que trazem problemas para os animais e enormes perigos sobre os seres humanosxii.

      Por outro lado, quando se administra BST na vaca é estimulada a produção de outra hormona, o Fator de Crescimento 1 (IGF1). Em 1996, um estudo da Universidade de Illinois, Chicago, mostrou que as concentrações de IGF1 que se verificam no leite das vacas tratadas com a BST multiplicam por quatro o risco de cancro da próstata nos homens e por sete o risco de cancro da mama nas mulheresxiii.

      A partir de 1999, a BST começou a ser proibida em vários países: primeiro no Canadá, depois na Austrália, na Nova Zelândia, no Japão, em Israel e em toda a União Europeia.

      Em 2000, a BST já se tinha tornado no produto farmacêutico mais vendido na história da indústria de laticíniosxiv.

      Sacarina: Um produto cancerígeno?

      No início da sua atividade, a Monsanto dedicou-se à produção do adoçante sacarina. Em pouco tempo, a empresa tornou-se na principal fornecedora de matérias primas da Coca-Cola.

      Em 1977, a Food and Drug Administration (FDA) tentou retirar a sacarina do mercado após Arnold D.L. e outros autores terem assinalado que este produto induzia cancro da bexiga. Esta mesma conclusão foi corroborada, em 1980, num estudo do National Cancer Institute, que assinalou ainda que a sacarina produzia também vários outros tipos de tumores em ratos. Em 1981, a sacarina foi, inclusive, incluída na lista de substâncias carcinogénicas em humanos da NTP National Toxicology Program (NTP).

      A sacarina continuou, contudo, a ser comercializada, mediante a pressão da indústria de alimentos dietéticos e dos próprios consumidores exibindo, contudo, e até ao final da década de 90, uma advertência com a indicação de que tinha apresentado sinais cancerígenos.

      Posteriormente, alguns estudos revelaram que os resultados dos estudos apenas se aplicavam a ratos, na medida em que os tumores nestes animais se deviam a um mecanismo não relevante em humanos. Em 2000, esta substância foi retirada da lista de substâncias carcinogénicas.

      Vários cientistas desaconselharam a retirada da sacarina desta lista. O documento oficial tem, até à data, a seguinte redação: “embora seja impossível concluir com certeza que não representa uma ameaça para a saúde humana, não se pode afirmar razoavelmente que a sacarina sódica é um carcinógeno humano em condições de uso geral como um adoçante artificial”.

      OGM: Contaminação de culturas e perseguição aos agricultores

      Os Organismos Geneticamente Modificados (OGM) são organismos cujo material genético foi manipulado de modo a favorecer alguma característica desejada. No caso das sementes produzidas pela Monsanto, as mesmas foram geneticamente modificadas por forma a repelirem pragas ou a resistirem exclusivamente aos herbicidas comercializados pela empresa.

      O milho transgénico, por exemplo, liberta um forte inseticida que não só aniquila os insetos passíveis de destruir as colheitas como também aqueles que lhes são benéficos, e essenciais para os ecossistemas, como borboletas e abelhas.

      Uma das preocupações no que se refere ao cultivo de plantas transgénicas prende-se com a polinização cruzada entre estas espécies e as espécies nativas ou as culturas que não foram manipuladas geneticamente. O pólen transportado por insetos ou pelo vento pode implicar a contaminação de campos situados até dezenas de quilómetros, dependendo da distância percorrida pelo mesmo e da própria planta em causa.

      Esta contaminação pode ter consequências bastante preocupantes. Em meados dos anos 90, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) descobriu que o milho Starlink, da empresa Aventis, era alergénico, interditando a sua comercialização para consumo humano. Contudo, entre 2000 e 2001, foram recolhidos mais de 300 produtos alimentares que continham traços do produto e 44 pessoas queixaram-se de reações alérgicas como consequência do consumo desses alimentosxv.

      Por forma a espalhar a sua tecnologia por todo o mercado de fornecimento de sementes, a Monsanto não só comercializa as suas próprias sementes patenteadas, como também, tal como refere o Food & Water Watchxvi, utiliza acordos de licenciamento com outras empresas e distribuidores permitindo, nomeadamente, que a concorrência utilize características genéticas desenvolvidas pela Monsanto nos seus produtos.

      Em documentários como “Food, Inc.” e “The Future of Food” é abordada a perseguição da Monsanto contra os agricultores. A Monsanto não se coíbe de processar pequenos agricultores por quebrarem o acordo de licenciamento da tecnologia da empresa ao qual se vinculam quando, tão simplesmente, adquirem um saco de sementes da multinacional.

      Este acordo estipula, por exemplo, que os agricultores não podem guardar e replantar as sementes e são responsáveis pelo acompanhamento de todos os procedimentos incluídos no Guia de Utilização da Tecnologia da Monsanto, bem como que a Monsanto pode investigar as plantações dos agricultores e aceder aos seus registos na USDA Farm Service Agency. A Monsanto criou, inclusive, uma linha gratuita para que qualquer cidadão possa denunciar os agricultores que utilizam a tecnologia da Monsanto sem licençaxvii.

      Não só os agricultores que adquiriram produtos da Monsanto são alvo de processos como também aqueles que, inadvertidamente, acabam por encontrar características genéticas desenvolvidas pela empresa nas suas culturas graças à polinização cruzada.

      As mais valias tão propaladas do cultivo de OGM, como aumentar a produtividade ou diminuir a necessidade da aplicação de pesticidas e herbicidas, têm vindo a ser desmentidas pela comunidade científica. Ao invés de “produzir melhores alimentos para os consumidores e uma melhor alimentação para os animais”, a Monsanto procura encher os seus cofres impondo uma alteração radical dos sistemas agrícolas a nível mundial e dos hábitos alimentares das populações.

      Em 2009, os produtos da Monsanto cresciam em 282 hectares a nível mundial e em 40% da área cultivada nos EUA. Perto de 93% de toda a plantação de soja e 80% da plantação do milho nos EUA foram cultivadas com sementes contendo material genético patenteado pela Monsantoxviii. A Monsanto controla mais de 90 por cento da produção de OGM no mundo.

      A expansão da utilização de OGM traduz-se na perda permanente de biodiversidade e numa ameaça à soberania e segurança alimentar, principalmente nos países mais pobres, onde as populações sobrevivem à custa da conservação de sementes.

      Roundup: O veneno que se transformou numa mina de ouro

      Criando sementes transgénicas que resistem unicamente a este herbicida, a Monsanto obriga os agricultores a adquirir o Roundup, tornando a sua comercialização numa verdadeira mina de ouro. Em 2011, as vendas do Roundup e de outros herbicidas representaram 27 por cento do total das vendas líquidas da Monsanto.

      No documentário “O Mundo Segundo a Monsanto”, Marie-Monique Robin reproduz a peça publicitária na qual a Monsanto apresenta o Roundup, como um produto “biodegradável, (que) deixa o solo limpo e respeita o meio ambiente”. “O glifosfato é menos tóxico para os ratos do que o sal de mesa ingerido em grande quantidade” , acrescenta a Monsanto, esquecendo-se de referir que o Roundap é muito mais tóxico na sua fórmula global.

      Na realidade, os estudos que justificaram a homologação do Roundup foram produzidos somente com base na análise do princípio ativo, não sendo tidas em conta as características da fórmula final.

      O professor Robert Bellé, do Centro Nacional de Investigação Científica francês, citado por Robin, concluiu que o Roundap desencadeia a primeira etapa que pode conduzir a situações de cancro 30 a 40 anos mais tarde. “O Roundap é um assassino de embriões e em concentrações mais fracas é um perturbador endócrino para os fetos”, escreveu.

      Gilles-Eric Seralini, professor de biologia molecular na Universidad de Caen (Francia), que desenvolveu várias investigações para a Comissão Europeia sobre os efeitos dos alimentos transgénicos na saúde, foi taxativo quanto aos efeitos do Roundup nas células humanas: “mata-as diretamente”xix.

      Vários estudosxx têm associado ainda a utilização do Roundup ao desenvolvimento de problemas do sistema reprodutor.”

      De várias fontes, incluindo as já citadas no próprio texto.

      E desde já te agradeço por mais esta oportunidade de embasamento das informações que tanto interessam à nós todos. Obrigada,

      Solange Zomer

  • Daniel

    Ué, mas quem liberou os transgênicos foi o LULA!

  • Solange. a discussão sobre os riscos dos OGM passa longe do ativismo ambientalista ou outro ativismo menos atraente. Também passa longe da mídia, que adora uma pequena desgraça para vender uma notícia. No meu dia a dia a discussão de rsicos é baseada em artigos científicos e relatórios técnicos que respeitem a metodologia científica.
    99% do que você citou e escreveu está bem afastado do que tomo para material de análise. Não me interessa uma vírgula o que diz o Greenpeace, a Marie Robin e uma legião de outros que vêem problemas onde as autoridades dos vários governos que analisaram os OGMs não vêem. Estas organizações e pessoas são parecidas com as que acham que as vacinas dão autismo, a carne de frango a menarca precoce e coisas assim. Zero de ciência.
    O que gostaria de comentar é a forma como os cientistas olham o que é publicado: como cautela. Não importa em que revista apareceu, o que sai publicado tem que ser aceito (ou referendado) pela comunidade científica. Não há unanimidade, o que há é consenso: o que é referendado é o consenso e vai formando o que é aceito na ciência. O que está em desacordo vai formar, quando muito, um pool de dúvidas sem um fundamento cientifico inquestionável. Se a metodologia científica do artigo, mesmo que aceito por uma boa revista, é ruim, nem sequer como alerta o artigo servirá. É o caso da aviltante baboseira publicada pelo Séralini com os ratos com tumor. É o caso também de muitos outros artigos, embora menos ruins que a pérola do Dr.Sérallini, inclusive o do Pusztai, que você cita.Mas sugiro que você leia com cuidado os experimentos dele, para não dizer que “em sua experiência, ratos que se alimentaram com batatas transgênicas tiveram cérebro, fígado e testículos menos desenvolvidos que os ratos que se alimentaram com batatas comuns”. Não é nada disso. O erro ético é que ele, como o Séralini, foram à mídia alardear suas descobertas antes que o artigo fosse avaliado e criticado pela comunidade (isso pode tomar alguns anos). A mídia imediatamente tocou o alarme vermelho. Depois ficou claro que a única coisa que era diferente era a espessura da mucosa de uma parte do trato digestivo e,ainda assim, a causa estava obscura porque a batata controle não tinha equivalência substancial com a GM. Os artigos da Malatesta com OGM nãosão tão ruins, mas as conclusões a que ela chega não são apoiadas pelos dados. Este é um problema diferente na ciência, algumas vezes conhecido como castelo de cartas.
    Posso seguir mostrando que são inválidos cada um dos artigos que você vê na internet como provas irrefutáveis dos danos causados pelos OGMs. E posso te listar 10.000 outros que não veem problema algum.
    Isso nada tem a ver com o obscurantismo e a perseguição aos cientistas quando estes desafiavam os dogmas e as crenças dos poderosos. O que existe aqui é avaliação crítica da metodologia empregada nos trabalhos: se ela resvala para fora do método científico, o resultado não tem validade. Também pouco importa quem produziu os dados: se eles foram obtidos respeitando o método científico, o pesquisador pode ser de instituição pública ou privada, americano, russo, judeu, cristão, preto ou branco. Tudo isso é irrelevante para quem analisa o trabalho. Não existe esta coisa de “cientista independente” que é moralmente superior a todos os demais. Quem contava esta história o Lisenko, na Rússia: todos os colegas dele eram de uma forma ou outra ligados ao capital estrangeiro e inimigos da Rússia. Acabaram na Sibéria e o Lisenko, junto com o Stálin, acabou com a Genética e a Agricultura russas impingindo resultados que estavam fora do método científico (mas que era atraentes para o Partido Comunista Russo de então). Se dermos trela ao Séralini, à Malatesta, à Judy Carman e a mais uma dúzia de “próceres em defesa da humanidade” e que vê problemas onde ninguém mais vê usando metodologias na contramão da ciência, vamos enterrar nosso país como Seu Lisenko e o camarada Stálin fizeram.

  • Então Paulo, vejo que não ha concordância. Mas me diga porque que as propagandas enganosas da Monsanto foram mesmo tiradas do ar? E porque que tantos governantes simplesmente dizem NÃO à estas sementes? E se é tão bom e saudável porque tanta polêmica??? Vais me dizer que também não acreditas na ganância desenfreada que está por trás desta indústria?
    Se é assim tão honesta a Monsanto o porque da detenção da semente?
    Porque como todos nós, cientistas ou não sabemos até um antibiótico usado com constância acaba sendo ignorado pelos nossos organismos e daí a necessidade de se aumentar sua potência ou ainda de se usar antibióticos mais fortes, e isto se dá em toda a natureza, isto é, em todas as formas de vida. Portanto além de colaborar e muito com a devastação da Amazônia para o seu plantio, a soja transgênica exige cada vez mais venenos, e estes cada vez mais fortes. E no mínimo creio então que concordas que sequer foram feitos estudos suficientes que comprovem que estes OGMs não nos fazem mal e nem ao nosso meio ambiente. E pra piorar ainda mais as ‘tais sementes’ comprovadamente são contagiosas.
    Mas só pra eu saber, porque mesmo querem retirar a obrigação de se rotular os transgênicos???

  • Paulo Andrade, escreveu tudo isso que poder ser verdade ou não, as teses científicas estão todo dia caindo, mas por fim eu te pergunto. Se é tão bom e não faz mal, se a Monsanto veio aí pra nos salvar, porque uma empresa com esta dignidade não quer permitir que quem não deseja comer o tal transgênico o posso fazer isso? Seja por racionalidade, ou religão, espiritualidade, ou o qualquer que seja o motivo. Porque será que a bancada ruralista, aqueles que mais se importam com saúde e bem estar da população encabeçam esse projeto de lei? Esse tua suposta imparcialidade acadêmica é uma mentira, não passa de parcialidade travestida de neutralidade. Tu ta que nem o Constantino achando que uma pessoa consegue ter opiniões isentas de política. Mano larga teus texto acadêmico e acorda pra realidade, vai olhar aí os impactos do transgênico, mesmo que tu ache que não causa nada na saúde, observa a questão política e econômica.
    O México, os povos do milho, que cada vez mais tem suas terras usurpadas, por causa do efeito imperialista do milho transgênico, que impede os ciclos de plantio do milho, tornando as sementes estéreis. Observa todas as leis que se dão por traz de um projeto pollítico que é o transgênico, larga essa tua especificidade acadêmica e olha o impacto do todo.

    • Paulo Andrde

      Zé, a Monsanto não veio prá salvar ninguém. O que está em discussão é uma tecnologia que é de domínio público e que é empregada, inclusive, pela EMBRAPA. Como a tecnologia é vantajosa para o agricultor, ele compra. Poucos optam pelas sementes convencionais, mas elas estão no mercado. É a mesma situação dos orelhões: ninguém precisa comprar celular, tem orelhão – mas como quase todo mundo está usando celular, os orelhões estão sumindo. Isso é mercado, nada mais. Se houvesse uma legião de gente que se negasse a comer produtos com milho ou soja transgênicos, seguramente haveria quem fornecesse.

      Quanto ao projeto de lei de rotulagem, ele não desobriga a rotulagem, é bom que você leia a proposta com atenção. O que ele faz é botar ordem no cenário legal: havia um conflito entre a lei, o decreto, normativas e coisas assim. Agora, com regras claras e uma porcentagem que todo mundo aceita pelo Mundo afora (1%), a coisa fica mais clara.

      Nas avaliações de risco, eu sou absolutamente imparcial: vale o que manda a ciência. Não tem lugar a política e se você acha assim, não entende patavinas de avaliação de risco. Nas demais partes da análise de risco entram os aspectos socio-econômicos, culturais, etc., e ninguém pode ser imparcial porque somos bichos sociais, eu, você e todos os demais bípedes implumes.

      Enquanto escrever sobre análise de risco, meus textos continuarão a ser acadêmicos. Quem entender, ótimo. Quem precisar de tradução para uma linguagem mais simples vai ter que aguardar uma situação em que as explicações possam ser dadas com muito mais espaço do que aqui.

      E enquanto estiver escrevendo sobre as demais questões de risco (inclusive os econômicos e sociais), vou pisando em ovos: sou avaliador de risco, não sou analista de risco. Não vou opinar seriamente sobre os impactos sociais e econômicos da tecnologia porque não tenho formação para isso e não faço as coisas de orelhada. Não sei sua formação, mas a minha não me dá direito de pontificar contra ou a favor dos impactos econômicos e sociais: qualquer opinião que eu tenha será tão válida quanto a sua, repetida várias vezes no seu comentário acima.

  • MANOEL PAIVA

    Parece o Paulo não sabe o que é consenso. Talvez não haja o significado em suas referências bibliográficas. A única coisa que mantém os transgênicos no ar, assim como a agricultura baseada em venenos é o poder econômico e este está ao lado dos senhores donos das empresas que produzem sementes e venenos e proporcionam ‘venda casada’ (caso dos transgênicos). Por enquanto o poder econômico está com eles, mas nem sempre será assim. Aos poucos uma outra ideia que põe em cheque a agricultura veneneira e voltada para o lucro sob a desculpa da acabar com a fome no mundo vai tornando-se uma realidade plausível. O resto é balela de cientista que faz pesquisa encomendada ao capitalista das sementes e venenos. Se a tecnologia é de domínio público porque o patenteamento? pq agricultores que tiveram seus plantios contaminados por TG foram processados? Ou será mais uma parceira público-privada?

  • MANOEL PAIVA

    Parece o Paulo não sabe o que é consenso. Talvez não haja o significado em suas referências bibliográficas. A única coisa que mantém os transgênicos no ar, assim como a agricultura baseada em venenos é o poder econômico e este está ao lado dos senhores donos das empresas que produzem sementes e venenos e proporcionam ‘venda casada’ (caso dos transgênicos). Por enquanto o poder econômico está com eles, mas nem sempre será assim. Aos poucos uma outra ideia que põe em cheque a agricultura veneneira e voltada para o lucro sob a desculpa da acabar com a fome no mundo vai tornando-se uma realidade plausível. O resto é balela de cientista que faz pesquisa encomendada ao capitalista das sementes e venenos. Se a tecnologia é de domínio público porque o patenteamento? pq agricultores que tiveram seus plantios contaminados por TG foram processados? Ou será mais uma parceira público-privada?

    • Tão claro quanto possível Manoel Paiva. E, como eu já ia mesmo respondendo ao Sr. Paulo, se houver a possibilidade de 0,01% de transgênia em um produto eu quero, como consumidora, cliente e cidadã ter o direito de saber para rejeitá-lo. E, portanto não admito a não rotulagem, mais um retrocesso, como se já não bastasse o absurdo que fizeram ao nosso Código Florestal.
      Ainda espero poder voltar aqui para agradecer aos bons empresários que ainda restam e que por opção ética não só se negam a comercializar produtos ou derivados dos transgênicos como ainda marcam nas embalagens “Livre de Transgênicos”. Obrigada!

  • Paulo Andrade

    Manoel e Solange, com todo respeito: porque vocês acham que não sei o que é consenso? E, Manoel, se você acredita que as referências que cito e que uso (seguramente mais de 400 para os muitos assuntos ligados à transgenia) não têm significado, diga ao menos três delas que se enquadram nesta categoria: vou reconsiderá-las com cuidado e desde já agradeço o alerta.

    Por fim, acho que a rotulagem deve continuar existindo, se o público assim o exigir, tanto para dizer que é transgênico quando para afirmar que não é, se existir um produto transgênico equivalente. E acho que 0,01% está ótimo, novamente se os consumidores assim exigirem. É claro que isso vai fazer com que tudo que leva milho ou soja (uma enorme parcela do que consumimos) tenha que ser analisado por técnicas extremamente precisas e é evidente que haverá caras disputas judiciais em torno de diferenças de análises, o que vai acrescentar um custo adicional grande aos alimentos, inclusive à cesta básica. A parcela do salário mínimo do trabalhador que irá para a alimentação vai aumentar. Também os alimentos e rações orgânicos que quiserem ter este rótulo terão que provar que não têm transgênico, o que vai fazer com que sejam ainda mais caros do que já são hoje.

    Pessoalmente, não vejo ganho nenhum nisso e já escrevi sobre o assunto no GenPeace

  • Paulo, o custo dos produtos orgânicos se deve ao ainda baixo consumo e produção, mas se considerarmos que na verdade deveria ser mais barato pelo não uso de agrotóxicos sua consideração acima não me transmite a realidade. E desde quando que ao agricultor pagar pela semente toda a vez que faz novos plantios, e isto sem falar dos agrotóxicos e pesticidas (casados) não agrega valor ao produto final, os transgênicos. E não estou nem citando os royalties que sem dúvida nada tem a ver com o que você fala sobre tecnologia de domínio público ok? Esta política do susto, do medo já está e ha muito decadente. Então por favor acorde. A saúde inclusive a do planeta desde já agradece.

    • Paulo Andrade

      Solange, o custo dos orgânicos tambem é dependente da baixa produtividade e do uso intensivo de mão de obra, não é só questão de escala. Quanto à compra de sementes a cada plantio, isso é indispensável pára quem planta híbridos e para quem quer evitar a propagação de doenças e pragas, o que acontece quando se usa grãos no lugar de sementes.
      Quanto à politica do medo, não faço ideia de que se trata no caso da agricultura transgênica.

  • Paulo Andrade

    Passados vários meses surge um Comunicado da EMBRAPA que esclarece o quanto a soja transgênica aumenta o uso de agrotóxicos em relação á convencional: 15%! é pura especulação e estratégia de luta a ligação entre o aumento do uso de agrotóxicos no Brasil e a adoção da transgenia. Sugiro a leitura de http://genpeace.blogspot.com.br/2015/08/desmascarando-ligacao-entre-aumento-do.html