10/jan/2017, 7h30min

A primeira leitura de um ano novo

Por Gabriela Silva

Um ano começa com nossas anotações sobre as possíveis atividades que queremos realizar nos dias vindouros. É fato: somos seres feitos de planos. De possibilidades que transformamos em sonhos, para melhor definir nosso comportamento em relação às muitas das coisas que compõem nosso cotidiano. E 2017 inicia com tantas ideias que queremos que sejam melhores, e para colocar todas no mesmo conjunto: queremos que a vida seja melhor. Dai de começar o ano com ideias novas, o ainda tornar as antigas mais aplicáveis no mundo das coisas e dos homens.

Então para eu iniciar 2017 muito bem guardei uma ideia para começar a escrever aqui, neste espaço de literatura e possibilidades. Guardei um livro. Não para mim, que já o li muitas vezes, quando estava sendo escrito, quando foi organizado, quando ganhou vida e quando foi lido por muitas pessoas. Aliás, o livro conta com um texto que escrevi de apresentação e um dos textos que mais gostei de escrever. Um livro de poemas, um livro de poemas de carne e sangue, que revelam um universo poético e singular que só li em autoras como Hilda Hilst, Natália Correia e Silvia Plath.

É Bífida, primeiro livro de poemas da escritora Alexandra Lopes da Cunha, que já tem publicados: O amor e outros desastres (Pergamus Editora) e Vemelho-Goiaba, contemplado com o prêmio Instituto Estadual do Livro IEL (áureos tempos), na escolha de originais. Então, já sabemos que trabalhar a palavra, Alexandra sabe.

Seus poemas trazem nos versos um universo muito particular, construído através de um eu lírico feminino que transmuta em palavras e sonoridades as vivências do espírito e do corpo. Aliás, o corpo na poética de Alexandra é muito evidente e de uma potência indiscutível.

Como ela mesma explica sobre o nome do livro: Bífida, porque as mulheres são seres fendidos, sua natureza é divida anatomicamente. Pela natureza de sua essência são seres múltiplos. As mulheres desdobram-se, multiplicam-se a cada novo minuto: a maternidade, as relações amorosas, a crença em si mesma e a organização de um universo particular e ao mesmo tempo coletivo demoninado como feminino. Essas são as evocações de Alexandra. Quando fala de maternidade e do corpo habitado, fazedora de gente, quase uma divindade, capaz de abrigar em suas entranhas a vida de outro indivíduo, materializando-se, trazendo ao mundo uma outra identidade apartada da sua e de maneira simultânea parte de si mesma.

O amor tantas vezes mote de poemas desde que a poesia desejou existir e se tornou parte do mundo dos deuses e dos homens aparece na poética de Alexandra, toma seu espaço e amplifica seu sentido em cada verso construído: “Amores, embates e cores/Ferozes bailados, sussurros e gritos,/misturas de gostos, texturas, odores/de tempos marcados, silêncios e ritmos.” Numa toada barroca ( da natureza íntima do amor) de opostos que se complementam, inúmeras vezes a poeta toma para sua poesia o amor, quando fala da ausência, da saudade, do necessário esquecimento e morte de um amor, da sobrevivência de amores tão bonitos que não podemos apagá-los de nosso corpo ou memória.

Também o corpo espaço da execução do tempo e do desejo é uma das “metáforas obsediantes” de seus poemas; nele, espaço único e restrito a uma alma apenas, cicatrizes se acumulam, marcas, caminhos e memórias. O corpo é o espaço material da memória – “Tenho várias cicatrizes/ornamentos para o corpo,/Marcaram momentos felizes/ou momentos de desgosto.” Outras vezes o corpo é o convite ao amor, a conjugação material do sentimento amoroso. O desejo do corpo do outro, a sutileza e a ferocidade do toque aparecem em seus poemas deixando-nos entender que somos carne, que temos a necessidade infinita de procurarmos quem nos complete.

Uma característica que gosto nos poemas de Alexandra é a recorrência de suas leituras. Ela é uma ávida leitora, sei disso porque a conheço. Seus dias são preenchidos pelas mais diversas companhias literárias, com predileções, como todos nós. Em seus versos há Borges, Cortázar, Baudelaire, Fernando Pessoa, Camões, Florbela Espanca, Hilda Hilst e tantos outros. Algumas são discretas, como sombras oriundas de uma luz fraca, mas que consegue nos mostrar desenhos e formas. Outras são mais evidentes, nomeadas nos poemas e nas analogias. Outras ainda, são como palimpsestos, precisamos por contra a luz para enxergarmos o que Alexandra respira em sua poesia.

O fazer poético se multiplica, num processo de “metapoesia”, tantas vezes no livro, esse eu lírico de Alexandra pensa sobre as palavras, sobre o exercício da poesia, sobre a capacidade de criar, moldar, dar anima a palavra: “ Para a poesia, esvazie os bolso,/livre-se de papéis inúteis, moedas, passes de trem./ A viagem será outra./Desnecessário o guarda-chuva, os óculos de sol,/o relógio a contar as horas.” Basta na verdade a si mesmo e a vontade de transformar em verbo, em palavra escrita o que sente-se como experiência ontológica.

A qualidade de sua produção, que não se restringe à poesia, fica clara em cada novo poema que lemos de Bífida. Um livro que também traz imagens, mesmo que não as trouxesse, somos capazes de dar rosto, epiderme, mãos, pés e todas as partes necessárias ao corpo desse eu lírico que Alexandra constrói.

Leio poesia todos os dias, gosto de ler em voz alta alguns poemas, como quem recita uma oração. Para mim, poesia tem algo de sagrado, de evocação a uma entidade que eu ainda não sei nomear, mas que me surge quando a leitura do poema, pacienciosa, respeitando suas sonoridades e segredos, termina. Na verdade, a leitura de um poema nunca termina. Em mim pelo menos não. Ainda ecoa nos meus ouvidos e corpo a primeira vez que li Hilda Hilst, ou Drummond. Nosso corpo é memória, como diz Alexandra em seus versos.

2017, o ano que se abre com possibilidades novas ou ainda possibilidades antigas que necessitam de coragem, de braveza e vontade, é também um ano de leituras novas, mesmo que sejam antigas. Para saudar a poesia que habita minhas estantes, que mora na minha casa, na minha voz e coração, para agradecer tudo que ela até hoje fez por mim, eu compartilho com vocês Bífida e digo, na minha metáfora predileta: é uma navalha umedecida em mel. Potente, corajosa e sobretudo bem escrita, a poesia de Alexandra Lopes da Cunha é a leitura que eu desejo que todos possam fazer.

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Gabriela Silva é formada em Letras, especialista em Literatura Brasileira (2003),Formação de Leitores (2005), mestre (2009) e doutora (2013) em Teoria da Literatura pela PUCRS, sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil. É professora de literatura e escrita criativa nos gêneros poético e narrativo. Atualmente realiza pesquisa de pós-doutorado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no Centro de Estudos Comparatistas.



 

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