30/maio/2014, 7h58min

O colapso do Sistema Cantareira e a falta de planejamento na distribuição de água

Foto: www.cantareira.org

Sistema cantareira em São Paulo: baixos níveis de água | Foto: www.cantareira.org

Milton Ribeiro

O Brasil possui o maior potencial hídrico do mundo, mas boa parte do país corre risco de passar por sérios problemas com o abastecimento de água entre os anos em 2014 e nos próximos anos. A previsão é da Agência Nacional das Águas, que estimou em R$ 22 bilhões os investimentos que seriam necessários para evitar o caos da falta de água. Considerando a situação atual, é possível que, neste e no próximo ano, cerca de 55% dos municípios brasileiros sofram com a falta eventual deste bem fundamental.

Do total da água existente no planeta, 97,5% é água salgada, só restando 2,5% de água doce. Destes, 68,9% estão nas calotas polares, 29,9% nos reservatórios subterrâneos, e apenas 1,2% disponíveis como águas superficiais. Deste modo, mesmo que o planeta tenha imensos mares, apenas 1,2% de sua água pode ser utilizada. E, deste total, 97% estão armazenados em fontes subterrâneas. As fontes naturais de abastecimento de água são a água de chuva, as águas superficiais (rios, arroios, lagos) e as águas subterrâneas (aquíferos, mananciais).

Um aquífero é uma formação ou grupo de formações geológicas que pode armazenar água subterrânea. São rochas porosas e permeáveis, capazes de reter água. Esses reservatórios abastecem rios e poços artesianos e podem ser utilizadas pelo homem como fonte de água para consumo. Tal como ocorre com as águas superficiais, demandam cuidados para evitar a sua contaminação. O uso crescente pela indústria, agricultura e consumo humano ameaça os aquíferos e coloca esse assunto na agenda ambiental do mundo todo.

Mananciais são todas as fontes de água, superficiais ou subterrâneas, que podem ser usadas para o abastecimento público. Isso inclui, por exemplo, rios, lagos, represas e lençóis freáticos. Para cumprir sua função, um manancial precisa de cuidados especiais, garantidos nas chamadas leis estaduais de proteção a mananciais. Nessas regras, o ponto principal é evitar a poluição das águas, coisa muito difícil de se conseguir em um país como o Brasil. Em nosso país, a expansão das grandes cidades aconteceu de forma desordenada, comprometendo as fontes de ’água próximas às metrópoles. O exemplo mais conhecido é o do rio Tietê, que corta a capital de São Paulo e boa parte do interior. O mais famoso rio paulista poderia ser um manancial para milhões de habitantes, mas quase 100 anos de poluição acabaram transformando o rio em um enorme esgoto a céu aberto.

A opinião geral é a de que a água é abundante em nosso país. É verdade, mas a distribuição do recurso é totalmente desigual. A região da Amazônia, por exemplo, que concentra 81% do potencial hídrico, não oferece abastecimento satisfatório nem para as regiões Norte e Nordeste do país. Segundo o IBGE, 63,9% dos 5.507 municípios brasileiros têm abastecimento de água por meio de rede de distribuição.

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Falta de planejamento

No início deste mês de maio, a cidade de São Paulo esteve ameaçada de racionamento. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) tratou a crise como se fosse uma simples decorrência do clima, da falta de chuva. Durante o verão, como a estiagem e as altas temperaturas atingiram a região metropolitana de São Paulo, baixou o nível de água do Sistema Cantareira, um conjunto de seis reservatórios que abastece São Paulo, Campinas e outras cidades. Este sistema é responsável pela distribuição da água para mais de 8 milhões de pessoas e estava com apenas 20% de sua capacidade total. Houve racionamento em Itu, Campinas, Sorocaba, Orlândia, Porto Feliz, Vinhedo, Valinhos e Salto. O que preocupa é que a previsão de chuvas para os próximos meses não é otimista e a crise deve ter ganhar novos capítulos em breve.

Por exemplo, ainda no começo desta semana, o volume acumulado de água chegou a 25,5% da capacidade total do Cantareira, o que não é muito. Durante o fim-de-semana, choveu 48 milímetros na cidade de São Paulo. Porém, de acordo com informações do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), as chuvas concentraram-se mais ao sul do Estado de São Paulo, enquanto que o Cantareira fica ao norte, já na divisa com Minas Gerais.

O engenheiro Paulo Massato Yoshimoto, diretor metropolitano da Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp), admitiu em audiência pública na Câmara Municipal de São Paulo, realizada nesta quarta-feira (28), que o grande desafio agora é saber como o Cantareira chegará até o próximo período chuvoso. ele disse que a companhia está tomando as medidas possíveis, mas somente o início da ocorrência de chuvas vai permitir avaliar a situação. Perguntado sobre a existência de racionamento na capital e outras cidades da região metropolitana, Yoshimoto negou – como há tempos vêm fazendo os representantes do governo de Geraldo Alckmin.  Já em entrevista a jornalistas, o diretor foi confrontado com informações de que diversos bairros sofrem com falta de água durante a noite e respondeu que se tratam de questões pontuais em regiões altas.

Há previsão de chuvas leves para os próximos dias, mas trata-se de uma situação que poderia ter sido prevista, ainda mais que, ironicamente, São Paulo vive um paradoxo. Por um lado, o governo estadual comemora os resultados financeiros da Sabesp — a empresa estadual de distribuição de água, coleta e tratamento dos esgotos –, que está brilhando na Bovespa e na Bolsa de Nova York e que lucrou mais de 4 bilhões ao longo da gestão Alckmin. Por outro, a mesma empresa provoca calafrios na população.

Foto: Carta Capital

Cantareira, um sistema frágil | Foto: Carta Capital

A crise da água em São Paulo era algo previsível. Em 2004, quando Alckmin estava no governo do estado, a Sabesp já usava água do Sistema Cantareira há 30 anos para abastecer a Região Metropolitana de São Paulo. Na época, foi autorizada em caráter especial a captação por mais dez anos. A condição para a manutenção da outorga era realizar, num prazo de dois anos e meio, um plano de investimentos capaz de diminuir a dependência ao Sistema. Em 2008, sem solução à vista, um documento preparado pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), órgão do governo estadual tucano, fazia um alerta sobre as limitações do modelo adotado para abastecer a Região Metropolitana de São Paulo. “A região não dispõe de dispositivos hidráulicos capazes de garantir o suprimento de água bruta quando da ocorrência de eventos críticos de escassez”.

No Rio Grande do Sul

No Rio Grande do Sul, a situação é mais tranquila: 98% da população das cidades abastecidas pela Corsan recebe água tratada. Mesmo sendo o estado com o maior volume de recursos hídricos disponíveis, o ex-presidente da Corsan, Tarcísio Zimmermann, comenta que há pontos críticos. Um deles é a existência de inúmeros loteamentos irregulares, principalmente nas grandes cidades, onde não há redes de água ou elas são clandestinas. “São os primeiros lugares onde falta água e onde ela demora a voltar”, diz. Há cidades da Região Metropolitana onde a Corsan consegue cobrar apenas 40% da água que produz, “o resto é clandestino ou perdido”.

E, mesmo com um manancial farto em rios e lagoas, a distribuição no Estado “não é muito justa”, segundo a Corsan, o que acarreta problemas de captação nas regiões do Planalto Central, Campanha e Noroeste. Segundo ele, até 2017 a companhia deverá investir R$ 500 milhões na melhoria do abastecimento de água. No último dia 19, o governador Tarso Genro assinou convênios para abastecimento de água em zonas rurais de 29 municípios. Ao todo serão R$ 3,5 milhões investidos nesta etapa, que terá 1.442 famílias beneficiadas, o que corresponde de 6,5 mil a 7 mil pessoas.

A região de Bagé

A região de Bagé, no RS, passou por longo período de racionamento | Foto: metsul.com

Deste modo, o abastecimento de água é praticamente universalizado no Rio Grande do Sul. Porém, a cobertura de esgoto é baixa. Complementarmente às redes coletoras de esgoto, há uma enorme utilização de métodos intermediários de tratamento, inclusive as tradicionais fossas sépticas, cujo conteúdo acaba sendo destinado às estações de tratamento da própria Corsan. Enquanto os usuários não tomarem a iniciativa de ligar o sistema doméstico às estruturas coletoras de esgoto, não há nada que as empresas de saneamento — públicas ou privadas — possam fazer para universalizar o tratamento dos efluentes da maneira mais abrangente e ambientalmente correta. A menos que haja articulação com o Ministério Público e Vigilância Sanitária. O apoio da mídia neste esclarecimento também não seria demais.

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Fontes:

— http://cienciasetecnologia.com/
— http://www.espaco.org.br/site_mananciais/?p=849
— http://www.sul21.com.br/jornal/abastecimento-de-agua-corsan-vai-investir-rdollar-500-milhoes-ate-2017/
— http://www.portal.rs.gov.br/conteudo/197191/convenio-para-abastecimento-de-agua-em-zonas-rurais-atendera-mais-de-mil-familias

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  • Walter Souza

    Dizer que no RS, a situação da CORSAN é mais tranquila é um escárnio com muitas cidades. Claramente escrito para dizer que PT > PSDB. Se o interesse era fazer uma reportagem, e não panfletagem, sugeriria que fossem à Bento Gonçalves ouvir sobre a água de grande qualidade distribuída pela CORSAN. Ou mesmo na Região Metropolitana, onde no calor saariano, faltou água por 72 horas em muitas casas.

  • Sérgio Alves de Oliveira

    No Brasil,nenhum problema é atacado pela raiz. Na questão das águas,ao invés de ser atacado o problema na “torneira”,na ponta de consumo,a idiotocracia pública recorre logo aos reservatórios. A pergunta que se impõe,portanto,é a seguinte: gasta-se muita água, ou os reservatórios não são suficientes ? É evidente que a água disponível para distribuição ao povo deveria ser o suficiente para corresponder ao consumo. Mas as “cositas”estão rareando. Essa lógica tem que ser invertida., Num primeiro momento,portanto,há que se atacar o consumo,no sentido de reduzí-lo,seja “salgando”o preço da água,seja nas tecnologias apropriadas. Os governos responsáveis têm todas as armas nas mãos para corrigir essa carência . A principal é a caneta na mão. Aquele antigo sistema de não colocar medidor na entrada do prédio onde vai ser consumida tem que ser abandonado. Assim o abuso é a regra. Outro ponto está nos acessórios de banheiro e cozinha,como torneiras,sanitários,etc. Existe tecnologia para economizar água. Mas o Governo não intervém e depois entra em pânico quando falta água. Se depender dos fabricantes tomarem essa iniciativa,vai demorar ainda alguns séculos. Mas o governo não detém o poder de controle de tudo que é fabricado ? Portanto a saída está nas mãos desses incompetentes.