10/jan/2017, 7h00min

3% – miragem e ruínas

Por Lucia Serrano Pereira

A promessa de um mundo paradisíaco desde sempre animou as miragens, as fantasias que nos habitam. Quando esse paraíso ganha o nome de “Maralto”, inevitável a associação às grandes navegações, histórias que desde sempre compuseram o tecido de nosso imaginário. Sonhos que deveriam ajudar cada um a suportar deixar sua terra ( no mais das vezes onde a vida era dura, difícil, pouco horizonte) e se lançar ao mar em uma aventura. Risco, é certo, mas acima de tudo a aposta.

Três por cento é o parâmetro de quantos vão poder navegar até o Maralto, dentre todos os jovens que vão fazer a tentativa. Essa é a base da série brasileira criada por Pedro Aguilera e lançada recentemente pela Netflix, mais uma destas pequenas navegações cinematográficas e criativas de nosso tempo.

O lado de cá, o Continente, o lado de lá, o Maralto, uma ilha. E entre um e outro mundo fica a zona onde se realiza o Processo, a seleção que vai escolher os mínimos e seletos três por cento: os escolhidos, os super melhores, os merecedores, os especiais, aqueles que vão viver no mundo perfeito, por fim, e que se distinguem do “lixo acumulado” ( os outros 97%), os que ficam no Continente. Um pé na crítica social e outro na herança de toda uma tradição literária fortíssima em matéria de utopia, já chegamos lá.

A trama é futurista e os contrastes nos vem pelas imagens que efetivamente “narram” os dois mundos: tudo começa no Continente quando aqueles que completaram 20 anos vão subir à estação de seleção no dia em que iniciará seu Processo. É coletivo. É mar também, de gente. Subir, pois quem vive no Continente habita um favelão lá embaixo que parece ser um buraco quente – lembra o Rio, pra quem conhece o outro lado, bem além do Rebouças.

No primeiro contato com o Continente choca a pobreza e ruína extrema, mas ao mesmo tempo encanta, muito. A estética das cores quentes e vivas nos grafites, nos detalhes do urbano desmantelado, das sucatas e restos pela rua, nas roupas… Mistura de andrajos dos zumbis contemporâneos, do Thriller de Michel Jackson e ainda outra ressonância inusitada: os parangolés, como se fosse inspiração direta dos tecidos e tramas do Bispo do Rosário, e das instalações de Hélio Oiticica.

O Continente é abandonado, brutal e cru, a lei é a do mais forte na luta pela sobrevivência, e a violência é cotidiana. Mas é ali também que o calor da solidariedade acontece, como flor no asfalto, e que o grupo da Causa – os que combatem à margem o mundo do Maralto – organizam alguma resistência. Na trilha sonora estilizada a cantiga do Caicó, de Milton Nascimento, e Elza Soares no Continente, reverberação de intensidades.

A estação de seleção do Maralto é high-tech, tudo super clean, grandes extensões, a interatividade e o controle por todo lado, e os detalhes… como as portas, que a cada abertura e fechamento reapresentam o ruído do metal deslizando, a faca cortando. E nos espaços para fora da vista e da circulação, como depósitos ou porões, estão os lugares de tortura para os candidatos que se suspeitam infiltrados da Causa, e tudo o que é fora de controle.

Neste mundo perfeito surgiu, depois de 100 anos, o primeiro assassinato à vista, pequena rachadura no verniz que cobre tudo o que pulsa no subterrâneo, como os suicídios e mortes que são abafadas aqui e ali. A história nos joga dentro das provas de seleção dos personagens. Vamos conhecendo cada um em flashes de suas histórias e do grupo que vão formando. Claro, aí começa a liga. Joana se criou sozinha, Rafael rouba para entrar, Michele é da Causa, Fernando vem na cadeira de rodas e é filho do pastor que, nos cultos no Continente acredita e prega que o Maralto é a purificação – “é preciso ter fé no Maralto”. Já Marco, o filho da família Alvares vem aparentemente tranquilo porque todos da sua família sempre passaram, o que psíquicamente, sabemos, é faca de dois gumes, depende de por onde isso vai ser tomado. Logo se revela a ferocidade com a qual a exigência cai sobre sua cabeça, e ele termina protagonizando uma das provas que cola no Ensaio sobre a cegueira de Saramago, e que se expande para toda a narrativa. No “Ensaio…” é também a cegueira que ofusca, que vem pelo excesso, e que engendra o terror no desmantelamento do laço social. A seleção do Processo posiciona discursos que fomentam um resultado pela via de um merecimento altamente competitivo, convocando, provocando a todo o momento o pior. É duro resistir.

Mas o interessante é que os personagens não são estereotipados, se movimentam no conflito. Mesmo Ezequiel, o coordenador do Processo, que em uma montagem perversa investe em produzir a angústia no outro através de um exercício sádico, ele mesmo transita clandestinamente ao Continente, passagem proibida. No mundo suposto perfeito se desdobra a briga pelo poder, a dinâmica da repressão e do totalitarismo, tudo isso em nome do “casal fundador” que deu origem a essa sociedade, onde paradoxalmente a questão da filiação e da transmissão recebe uma “solução” surpreendente. 3% é lançada em 2016, ano comemorativo dos 500 anos do Utopia, de Thomas Morus. É marco na literatura que propõe a crítica às formas de relações vigentes ( no caso, na Inglaterra em que Morus vivia) e a invenção de uma sociedade alternativa que vem na tradição desde Platão em A República. Em Morus encontramos nossos temas de hoje, como a interrogação pelo trato das intolerâncias e dos fanatismos.

O admirável mundo novo, de Aldous Huxley de 1932 é outro rebento importante da linhagem que faz eco em 3%, com a divisão do mundo entre os que vivem segundo os moldes do passado, com costumes “selvagens” e os que constituem a sociedade civilizada. O fascínio pelo Outro lado vem na mais pura idealização, e o roteiro de 3% desdobra os efeitos destrutivos destes totalitarismos, com os conflitos que estão, como se diz, a céu aberto. Ainda hoje.

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Lucia Serrano Pereira é psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA), doutora em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).



 

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