Paulo Timm
Viva o Saci
“Mito e invenção são essenciais à política de identidade pelo qual grupos de pessoas ao se definirem hoje por etnia, religião ou fronteiras nacionais passadas ou presentes, tentam encontrar alguma certeza em um mundo incerto e instável, dizendo: “Somos diferentes e melhores do que os outros”.(Eric Hobsbawm , Sobre a História -)
I
De uns anos para cá, o dia 31 de outubro passou a ser celebrado, até em escolas públicas, como “Halloween”, ou dia das bruxas. A data é celebrada nos Estados Unidos como uma reminiscência celta e de lá foi importada junto com o american way of life e outras bugigangas, incorporando-se às celebrações infantis. Mas há quem resista ao estrangeirismo sob a alegação de que o folclore é um reduto essencial da cultura de cada povo e que não deveríamos abrir mão de nossos valores próprios. Um dos mais fortes grupos de resistência é a Sociedade dos Observadores de Saci – www.sosaci.org – , à qual se vincula o Quarteto Pererê. Este conjunto musical vem empreendendo um grande esforço de trazer à baila um conjunto de músicas inspiradas no folclore brasileiro. Pretendem eles, com o recurso ao Saci , “abraçar esta causa de valorização da cultura brasileira”. Há alguns anos se empenham junto ao Ministério da Cultura para instituir, no dia 31 de outubro, o “Dia do Saci e seus amigos”, contrapondo-se , assim, ao Halloween. Além de recolher histórias sobre o Saci, levantar cantigas e músicas sobre esse personagem do folclore brasileiro, a SOSACI lançou em 2003 um Manifesto, abaixo transcrito, com o objetivo de mobilizar a consciência nacional sobre a importância de recuperar sua cultura própria:
Manifesto Antropófago revisitado
Qualquer semelhança com o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, do ano de 1928, não se trata de mera coincidência!
Só o saci nos une. Sacialmente. Etnicamente. Culturalmente. No ano 449 da deglutição do Bispo Sardinha em Piratininga, e 75 anos após o lançamento do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, os saciólogos desta terra vão, aos pulos, convergindo em torno da única lei justa do mundo globalizado. O saci resgata nossa identidade, nossas raízes, o xis da questão tupi. Contra todas as catequeses do Império só nos interessa o que não é deles. A lei do saci.
Estamos fatigados de todos os colonialismos travestidos de drama roliudiano. O cinema americano devorando corações e mentes. Demente. No país onde dá status ter casa em Maiami e comprar em sales com 20% off. Estacionar no valet parking e pedir comida delivery. Por isso fazemos eco ao brado oswaldiano, contra todos os importadores da consciência enlatada. Oswald ainda grita, resquícios do nheengatú ecoando ao longe. Nunca admitimos o nascimento de Jeca Tatu entre nós. Só que o Jeca de Lobato resiste. Ele resiste ao Pato Donald, aos Poquemons, ao Raloim, às bruxas do Bush.
O instinto do Saci. Só Saci. Um Saci contra as histórias do homem que começam no Cabo Canaveral. A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. E os transfusores de sangue. Das veias abertas da América Latina. Antes dos norte-americanos ocuparem o Brasil, o saci já tinha descoberto a felicidade. Definida pela sacizidade de um antropófago, o próprio Saci. A transfiguração da Abóbora em carne seca. Antropofagia. Absorção do inimigo abóbora.
A nossa independência já foi proclamada no 7 de Setembro, em São Luís do Paraitinga. Expulsamos o imperialismo travestido de globalização hegemônica. Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada em Washington e Londres, a realidade sem complexos e sem penitenciárias do saciarcado de Pindorama.
São Luis de Paraitinga, 31 de outubro de 2003, ano da deglutição final da abóbora
Mas a crítica ao Halloween vem de mais longe: Já em 1996 Roberto Pompeu de Toledo, em ensaio na Veja , novembro de 1996, a ele se referia como festa de basbaques, ou seja, segundo o Houaiss, daqueles que se admiram e se espantam por coisas triviais ou que dizem ou praticam tolices.
“ Festejar o halloween no Brasil, é coisa de basbaques ”
Mais tarde, outro crítico se somava à essa onda, o Global Maurício Kubrusli :
Nesses sete anos, o número de basbaques aumentou demais. É a tribo que não diz liquidação, prefere ceile. Que não oferece desconto de 50% e sim, 50% ófi. Tem personal treini, e não instrutor particular. E usa adesivos escritos em inglês nos seus carros. Enquanto isso, no horizonte da decência, grita a voz rascante de Elza Soares: “ Minha pátria é minha língua! ” Na citação – dentro da letra da canção “ Língua ” , faixa de Velô, que Caetano lançou em 1984 – o beabá da identidade nacional: o idioma. O povo que sente vergonha da própria língua já está de joelhos. Filial que imita a matriz deprimente. E muito triste. Acredita que, caso a cópia seja bem feitinha, ela muda de nacionalidade. Mas Terço nunca vira Inteiro, nem com visto permanente, dupla nacionalidade, viagem com itíqueti (jamais com bilhete eletrônico, claro), ralouin andi souon.
(http://www.sosaci.org/saci_imprensa1.htm – 3/11/2003):
Diante disso, seria bom que autoridades educacionais do Estado, Diretores e Professores de Escolas pensassem melhor, antes de envolverem os ingênuos alunos nessa maldita importação do Halloween.
II
O assunto do Halloween , entretanto, aponta para uma discussão mais profunda sobre a importância do próprio folclore na definição de cultura. O 22 de agosto é celebrado , no Brasil, por Decreto Federal 56.747/1965, como o Dia do Folclore e sempre levanta muitos debates. Entre nós, esses debates, porém se remetem para o 20 de setembro, quando os ânimos se exaltam contra e a favor do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Pegando carona na crítica ao Halloween, volto ao tema do Folclore.
Há muita discussão teórica sobre o que é o Folclore, se uma manifestação idealizada de um tempo idílico, passado, ou se o resultado de expressões culturais que se somam à vida de um povo. No fundo, uma eterna discussão sobre o que é propriamente a tradição: algo morto, embora expressivo de um illo tempore; ou , numa visão mais moderna, algo em constante processo de transformação, como sugere a historiadora Nikelen Witter, em artigo publicado recentemente no site www.sul21.com.br ,
“mais próxima dos modernos conceitos utilizados pela história cultural do que dos “tradicionais conceitos de tradição”, nas palavras de Peter Burke.”
Relembra a autora, no artigo citado, os termos desta polêmica nos meios acadêmicos, a partir de um comentário do livro Românticos e Folcloristas, de Renato Ortiz (1992) e uma resenha de outro livro , de Luis Rodolfo Vilhena, Projeto e Missão: o Movimento Folclórico Brasileiro, 1948-1964 :
Renato Ortiz, com cuja obra sou mais familiarizado, paulista, nascido em 1947, sociólogo doutrado pela Universidade de Paris VII , é um dos grandes analistas da cultura brasileira, embora sem ter conseguido levar à cabo, como assinala Juremir Machado da Silva, em “Anjos da Perdição” (p.58 1ª. Ed. SULINA) , com êxito, a tarefa de articular Espírito com Progresso. Ele tem diversos livros publicados, dentre eles “ Cultura brasileira e Identidade Nacional”, no qual já explicita sua opinião sobre o Folclore como um fragmento original do passado não tocado pelo pecado da contaminação ideológica.
Luís Rodolfo da Paixão Vilhena – https://sites.google.com/site/luisrodolfovilhena/home , nasceu no Rio de Janeiro em 9 de dezembro de 1963 e faleceu em 1997, num acidente automobilístico. . Era formado em Ciências Sociais no IFCS/UFRJ, em 1985, tendo obtido os títulos de Mestre (1988) e Doutor (1995) em Antropologia Social, pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ. Deixou publicados sua dissertação de mestrado, O mundo da astrologia; um estudo antropológico (Jorge Zahar Editor, 1990) e sua tese de doutorado, Projeto e missão: o movimento folclórico brasileiro (1947-1964), que recebeu o Prêmio Sílvio Romero de 1995 (Ed. FGV/Funarte, 1997). Postumamente, cinco trabalhos de Rodolfo foram reunidos por amigos em Ensaios de antropologia (Ed. UERJ, 1997).
No Brasil, o (este ) autor acompanha os antecedentes do Movimento desde Silvio Romero passando por Amadeu Amaral e Mario de Andrade. Além do histórico, Vilhena também aborda as principais divergências teóricas do grupo, como a dificuldade de se relacionar tanto com os folcloristas estrangeiros quanto com o maior nome do folclore nacional da época, Luiz da Câmara Cascudo, ou os debates com Roger Bastide e a intensa polêmica com Florestan Fernandes. As conclusões do autor encaminham, com muita propriedade, para o reconhecimento dos estudos folclóricos como uma parte importante da construção das ciências sociais no Brasil, identificando no processo até mesmo as razões do ostracismo a que a disciplina foi relegada.
(Nikelen Witter- Dia do Folclore ReLembrando o Movimento Folclórico Brasileiro – http://sul21.com.br/jornal/2012/08/dia-do-folclore-lembrando-o-movimento-folclorico-brasileiro/ )
Não vou me aprofundar sobre a controvérsia . Por ora, cumpre relembrar a importância de dois grandes brasileiros na recuperação da memória cultural do Brasil – Mário de Andrade e Luiz da Câmara Cascudo ( sem descuidar de marcar a genialidade e empenho de Villa Lobos, com suas intensas pesquisas pelo interior do Brasil, que resultaram no espetáculo das bachianas ) e dos antecedentes históricos do Centro Nacional de Folclores e Cultura Popular – CNFCP -. Grande parte da obra dos folcloristas mencionados se encontra disponível no site www.domíniopublico.gov.br , do MEC.
Os anos 1947-51 foram marcados por diversas iniciativas no campo da valorização do folclore no Brasil que culminaram na criação em 1947 da Comissão Nacional do Folclore, que coordenaria o Encontro do Folclore, do qual resultou a Carta do Folclore Brasileiro, em 1951.
Carta do Folclore Brasileiro
I Congresso Brasileiro de Folclore, RJ 22/31 agosto -1951
1. O Congresso Brasileiro de Folclore reconhece o estudo do Folclore como integrante das ciências antropológicas e culturais, condena o preconceito de só considerar folclórico o fato espiritual e aconselha o estudo da vida popular em toda a sua plenitude, quer no aspecto material, quer no aspecto espiritual.
2. Constituem o fato folclórico as maneiras de pensar, sentir e agir de um povo, preservadas pela tradição popular e pela imitação, e que não sejam diretamente influenciadas pelos círculos eruditos e instituições que se dedicam ou à renovação e conservação do patrimônio científico e artístico humano ou à fixação de uma orientação religiosa e filosófica.
3. São também reconhecidas como idôneas as observações levados a efeito sobre a realidade folclórica, sem o fundamento tradicional, bastando que sejam respeitadas as características de fato de aceitação coletiva, anônimo ou não, e essencialmente popular.
4. Em face da natureza cultural das pesquisas folclóricas, exigindo que os fatos culturais sejam analisados mediante métodos próprios, aconselha-se, de preferência, o emprego dos métodos históricos e culturais no exame e análise do Folclore.
(www.edukbr.com.br/estudioweb/ativ_antigas/cordel/carta.htm – 2k – Páginas semelhantes)
Esta iniciativa teria sido incentivada pela recém criada UNESCO, como forma de preservação do patrimônio diante do processo de modernização. Daí surgiu, em 1958 a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, que seria incorporada à FUNARTE, em 1976, como Instituto Nacional do Folclore, denominação alterada, no ano de 1997 para Centro Nacional de Folclores e Cultura Popular – CNFCP – www.cnfcp.gov.br, sediada no Rio de Janeiro. No final de 2003, já no âmbito do Ministério da Cultura, este Centro passa a integrar a estrutura do Instituto do Patrimônio Histórico e Artística Nacional – . IPHANH, objeto de criteriosa análise do Arquiteto Luis Philipe Torelly, publicada na Vitruvius:
Iphan seguramente é a instituição pública federal que há mais tempo mantém os princípios de suas ações e o senso comum de que elas são relevantes, pois são calcadas em significativa experiência e em procedimentos técnicos meticulosos.
( Patrimônio cultural: Notas sobre a evolução do conceito – 13, oct 2012)
Hoje, este órgão federal , com base na revisão da Carta do Folclore de 1951, trabalha com o seguinte conceito de Folclore:
Folclore é o conjunto das criações culturais de uma comunidade, baseado nas suas
tradições expressas individual ou coletivamente, representativo de sua identidade social.
Constituem-se fatores de identificação da manifestação folclórica: aceitação coletiva,
tradicionalidade, dinamicidade, funcionalidade. Ressaltamos que entendemos folclore e
cultura popular como equivalentes, em sintonia com o que preconiza a UNESCO. A
expressão cultura popular manter-se-á no singular, embora entendendo-se que existem
tantas culturas quantos sejam os grupos que as produzem em contextos naturais e econômicos específicos.
A Carta do Folclore Brasileiro, foi reavaliada e revisada no VIII Congresso Brasileiro de Folclore, reunido em Salvador, Bahia, de 12 a 16 de dezembro de 1995, e organizado pela Comissão Nacional de Folclore – wikipedia :
A revisão foi necessária a fim de atualizar o estudo e a proteção do folclore nacional em vista dos recentes avanços das Ciências Humanas e Sociais, e levou em conta as Recomendações sobre Salvaguarda do Folclore, emitidas pela UNESCO por ocasião da 25ª Reunião da Conferência Geral, realizada em Paris em 1989 e publicada no Boletim nº 13 da Comissão Nacional de Folclore, de janeiro a abril de 1993.(wiki)
Dentre as mais importantes revisões da Carta do Folclore, inclui-se , como observa Torely , “um conceito de patrimônio mais abrangente, sem a tônica da excepcionalidade” que teria representado o avanço de reconhecer a dimensão imaterial da cultura e, principalmente levando a relativizar a noção de excepcionalidade em benefício da representatividade, bem mais includente e capaz de destacar a importância das contribuições dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.
Essa mudança incorpora o conceito de referência cultural e significa uma ampliação inestimável dos bens passíveis de serem reconhecidos como patrimônio cultural brasileiro ( Torely, cit)
Todas estas considerações são imperiosas, enfim, para se situar a defesa do Saci e a crítica ao Halloween mais além da mera rejeição xenófoba. Trata-se de, no rastro da Semana de Arte Moderna, prosseguir no caminho dos signos que nos são mais próximos e capazes de, junto com a língua, nos definir como pátria.
Oportuno e lúcido este texto do Paulo Timm.
Gostaria de ter o e-mail dele para enviar textos sobre o mesmo tema.
Obrigado
Franklin Cunha
franklincunha@terra.com.br