Arthur de Faria
Um milhão de melódicos melodiosos – ou: os anos de transição (parte IV)
O Sul21 está publicando, em capítulos, o livro Uma História da Música de Porto Alegre, do compositor e jornalista Arthur de Faria. Aqui, os capítulos já publicados.
A gravação baldaufiana de Faceira ‒ escrita 25 anos antes por Ary Barroso ‒, é um belo exemplo da sonoridade típica dos melódicos: piano, acordeom e guitarra, juntos, tocando a melodia da primeira parte do samba em blocos de acordstacattes, com eventuais perguntas e respostas dos instrumentos. Infinitas variações melódicas e variados ornamentos enfeitam tudo. Aí modula (troca de tom) e os vocais finalmente entram, aos dois minutos de uma música de 3’. Em uníssono, cantando o refrão, uma única vez, em stacatto, sem alongar nenhuma nota, num clima bastante Bossa Nova ‒ e com aqueles “rr” tão deliciosamente datados. Na repetição, a maviosa voz de Luiz Octávio, num clima Dick Farney/Lúcio Alves, canta, variando a melodia, uma única frase: “Fooooooooi, nuuuum saaaaaamba, deeee gente baaaaaamba”. Só isso. O coro então volta: “que eu te conheci, faceira, fazendo visagem, passando rasteira”. E pronto. Volta o instrumental e encerra.
Só isso. Deu. Pra quê mais? Só João Gilberto faria menos ‒ e João, nessa época, ainda cantava imitando Lúcio Alves.
Luiz Octávio, o Alemão, tinha sido convidado a integrar as hostes baldaufianas depois de uma canja arrasadora num baile no Clube Caixeiral de Santa Maria. O cara era galã total e ainda tinha aquela voz que misturava Dick e Lúcio com Nat King Cole e Frank Sinatra. Morava em Porto Alegre, mas estava naquela noite ali, a quase 300 km de distância da Capital, como representante comercial de uma multinacional.
Com sua entrada, o agora septeto começa a sedimentar sua fama. A data definitiva é 13 de dezembro de 1957: o primeiro dos míticos Bailes da Reitoria da UFRGS. Pelos anos seguintes, o amor seria como um laço para os 800 jovens que, a cada semana, sonhavam em amarrar-se ao som de um bolero – ou, dali a pouco, de uma bossa. Cuba libre na mão, pra dar coragem de enfrentar o olhar vigilante de mães, irmãos mais velhos, primos ou mesmo algum tio acompanhante. Três ambientes: salão, boate ou restaurante, geralmente sonorizados por dois ou três dos melhores melódicos disponíveis.
No auge do sucesso, os rapazes ganham seis páginas da prestigiosa Revista do Globo. Pudera: num tempo em que a imensa maioria dos músicos locais só entrava em festas pela porta dos fundos, eles davam até autógrafo! Sem falar que, em paraísos da elite local, como o Clube do Comércio ‒ na Praça da Alfândega ‒, eram tratados melhor que sócio remido.
A matéria só não falava, obviamente, das façanhas amorosas. Histórias como a da origem de um dos instrumentos mais famosos de Touguinha: a frigideira (ganha da dona de um puteiro do interior que os recebia de pernas, digo, braços abertos). Marcello Campos, autor do fundamental Week-End no Rio, irretocável biografia oficial do grupo, conta:
Essa o “Toga” me contou, se mijando de rir… Certa vez o grupo distribuiu “santinhos” de divulgação durante um baile no Interior. Um rufião que batia o pezinho ao som dos uníssonos pegou os panfletos e levou para a zona, onde os pendurou em uma corda como se fossem bandeirolas de São João, indicando a entrada do puteiro… para o próprio Conjunto. Na noite seguinte, após o baile, até o comportadíssimo Canella sacou o acordeom e o pessoal, reforçado por outros gaiatos e gaiteiros, animou a festa madrugada adentro.
Falando em Week-End no Rio, o disco com esse título é lançado em 1957, seguido de nada menos que três LPs em 58, o ano da Bossa Nova: Week-End no Rio nº 2, Ritmos da Madrugada Nº 3 e A Hora de Dançar. A eles se segue Encontro Dançante, gravado em 1959 e lançado em 1960. Trabalhos que os mantém como atração da Odeon, mas já não com a mesma popularidade. A relação se desgasta de vez quando são obrigados a gravar o insólito Rock on Big Hits – Melodias Famosas em Ritmo de “Rock” (1959). Versões pseudo-roqueiras pra coisas como Only You e Estúpido Cupido. Ironicamente, o LP está etiquetado na série definida pela Odeon como Humor-Musical dançante.
Esses LPs vão direcionando o grupo cada vez mais rumo à música de dança, qualquer uma. Daquela elegante pré-Bossa dos Ritmos da Madrugada para qualquer coisa que estivesse fazendo sucesso (como se viu, até rock). Mas ainda se pescam pérolas que brilham intactas meio século depois, como o arranjo que deixa quase irreconhecível Tu (Ary Barroso), abrindo o pot-pourri que ocupa todo o lado A de Week-End no Rio Nº 2. E é bom lembrar que os boleros, mambos e cha-cha-chas hoje facilmente classificados como de mau gosto, eram a delícia moderna de então (e fica-se pensando em como já nos soa meio estranha, em 2012, a fusão de Bossa Nova e drum’n’bass que era a coisa mais cool do mundo 15 anos atrás).
Falando em Ary Barroso, uma prova definitiva do savoir-faire do grupo. Em 1959, Aloysio de Oliveira tem uma ideia de gênio. Juntar num mesmo disco os dois maiores compositores pré-Bossa ainda em atividade: Ary e Caymmi. Ary tocando as canções de Dorival Caymmi ao piano, Caymmi cantando e tocando as canções de Ary (o disco é apenas sublime, e foi relançado em CD década passada).
Pois sabe quem é a cozinha rítmica, não creditada no disco e só trazida à tona no livro Week-End no Rio?
Léo Velloso no contrabaixo, Wilson Baraldo na bateria e Touguinha na percussão.
Sim, na terra dos melhores músicos de samba do mundo, a cozinha é 100% gaúcha.
Mas ainda tem o melhor!
Quem os chamou para gravar Ary Caymmi & Dorival Barroso?
Aloysio? Não.
O próprio Ary, fã declarado das versões de temas seus feitas pelo grupo – em especial… Faceira.
* * *
É nesse momento que Luiz Octávio abandona o barco. Segundo as boas línguas, pra ser comissário de bordo da Real Aerovias em linhas como Los Angeles-Tóquio (imagina o glamour disso em 1959). Segundo as más, pra fugir de uma fã mais afoita.
No auge da sua popularidade, era uma das maiores estrelas do star system local. Uma cena basicamente radiofônica, mas coberta por quatro revistas especializadas.
Mais uma vez, assume um interino: o paranaense Renê Martins (São Mateus do Sul, PR, 16/2/1925, Ponta Grossa, PR, 19/9/1994). Logo em seguida, caído do céu, aparece Edgar Pozzer – tão ou mais galã que Luiz Octávio, 21 anos recém-feitos, nascido (24/7/1938) em Galópolis, interior do interior da região serrano/italiana do Rio Grande do Sul.
E nem é bem do céu que ele caiu. Edgar ostentava então, um tanto constrangido, o apelido de Diabo Loiro – que lhe fora dado pelo radialista Salimen Jr. e dizia muito sobre o efeito que o rapaz causava no coração normalista das mulheres de todas as idades. Tinha recém ganho segundo lugar no concurso nacional A Voz de Ouro ABC, das Emissoras Associadas – e eleito cantor-revelação pela revista O Rouxinol. O prêmio da Rouxinol era um contrato com a Farroupilha, e é só por isso que ele permanece na cidade em vez de ir embora pra São Paulo. Logo é uma estrela no auge do brilho, garoto-propaganda dos mais requisitados, atração semanal em dois programas fixos na Rádio e quatro na TV Piratini, campeão de cartas da emissora.
Mesmo assim, não escapou de um teste pra entrar pro grupo.
Golaço.
Em tempos de TV, a cara e a pinta de Pozzer iriam valorizar muito o passe do conjunto entre a audiência feminina. E, ainda que apenas meia década mais novo, ele era, com relação a Octavio, de outra geração musical. Se o primeiro “alemão” tinha bem a escola anos 50 pré-Bossa, Pozzer já é um cantor ligado no pop daquele momento – que era, basicamente, a canção italiana cantada a plenos pulmões e baladas americanas.
Ironicamente, hoje o estilo de Octavio soa mais charmoso que o de seu sucessor.
Só que não estamos hoje. Estamos ontem. E com as canções românticas italianas começando a tornar-se uma epidemia global. Pozzer era o cara perfeito. Tanto que virou especialista no gênero, seguindo até hoje como cantor romântico especializado em canzones, lançando uma dezena de discos com esse repertório, fazendo shows e dirigindo, desde 1970, seu bar Girasole.
A gente só não disse como se conheceram Pozzer e os Baldaufs.
É que o conjunto tinha sido o grande presente de Natal da Farroupilha pra seus ouvintes.
Estávamos em 1959 e, na nova emissora, iriam ombrear com outro melódico da pesada, o Flamboyant. Substituindo o recém-desfeito Primo & Seu Melódico em programas top de audiência, como o Ritmos da Panair ‒ que, nas noites de sexta, levava os ouvintes para viajar aos quatro cantos do planeta através de músicas da França, Itália, Japão…
É justamente quando a rede de Assis Chateaubriand estreia a Piratini, primeira TV local. O conjunto de Baldauf e o Flamboyant estão nessa transmissão inaugural, recebendo o mesmo cachê das atrações nacionais que eles acompanhavam. Atrações que, por sua vez, seguiam a seu lado em tournées conjuntas pelo Estado. Imagina passar uma semana ao lado da estonteante Dóris Monteiro, no auge da forma física e vocal ‒ e ainda receber pra isso!?
Na TV, teriam ainda um programa semanal de meia hora, com direito a esquetes teatrais comandados pelo gordo Léo, e seriam as estrelas do principal programa da Piratini: o domingueiro e noturno Grande Show Wallig.
Só faltava uma coisa: um vibrafone. Instrumento inventado nos Estados Unidos, nos anos de 1920, que logo foi adotado pelo jazz, era peça chave dos grupos de George Shearing e Art Van Damme e, em Porto Alegre, já brilhava no Conjunto Flamingo, o primeiro grupo da cidade a ter um exemplar.
Pois, creiam, aí o telefone toca.
Era um rapaz chamado Hélio Santos, paulista de Assis (nascido em 18/9/1938), que morava em Maringá, interior de São Paulo, onde era contratado de uma casa noturna. Um grupo de fãs gaúchos de Baldauf passara pela casa suspeita maringuense, acharam que tinha a ver, lhe passaram um número de telefone e o cara foi à luta.
Adivinha que instrumento ele tocava? Pois é. Vibrafone. Maringá, no interior do Paraná, tinha um vibrafonista. E Porto Alegre, a capital dos Melódicos, só o do Flamingo! Para Hélio, o novo emprego era o paraíso. Afinal, o cara se virava mais que bolacha em boca de velho: até de acordeonista e ator na trupe circense do Mazzaroppi já se empregara. Mas gostava mesmo era de Lionel Hampton, Milt Jackson e… Art Van Damme.
A saudade bateu depois de quatro anos, Hélio voltou pra Maringá, mas aí os Baldaufs não hesitaram: chamaram justamente o cara do Flamingo: Heitor Barbosa. Esse seguiria no grupo pelos 26 anos seguintes ‒ a partir de 1968 acumulando a função de organista.
O problema agora era outro. O mundo estava mudando, e o som do mundo, idem. Eles bem que tentaram argumentar com Baraldo que a batida da Bossa Nova era indispensável naquele 1961. Mas o baixinho foi irredutível: com ele, o lance era “cruzar os paus” (aquela levada de bateria com vassoura na caixa na mão esquerda e frases nos tambores com a baqueta na mão esquerda ‒ síntese da batida do samba até então). Não adiantou insistir. Aí, o mesmo grupo que esperara por ele meses a fio, oito anos antes, o demite por consenso ‒ consciente ou inconscientemente, a partir daí o multi-instrumentista Baraldo passa a trabalhar cada vez mais como pianista, e não baterista.
No seu lugar, entra um porto-alegrense (1/11/35 – 17/4/77) criado no Rio, naquele momento tocando no elogiadíssimo grupo de Manfredo Fest: Léo Belloni. Um craque na sonoridade da bateria Bossa Nova.
Feito!
Isso, em si, já é um mérito pros já bem trintões sócios-fundadores: saberem adaptar-se a uma profunda mudança. Se você ouve a versão deles pra Wave (de 1968), jura que é um bando de garotos paridos nas ondas da Bossa Nova.
Mas voltemos um pouco no tempo. Em 1962, a Philips estava se instalando no Brasil e resolveu contratar todos os melhores. Produtores, por exemplo, eram Aloysio de Oliveira e André Midani. Conhecidos de longa data do grupo, contratam os Baldaufs (inclusive, separadamente, como instrumentistas: são de Touguinha os bongôs da clássica gravação original de Influência do Jazz, de Carlinhos Lyra). O primeiro resultado é o LP Baldauf Retorna.
Como assim “retorna”? É que eles tinham ficado três anos sem gravar!
O disco faz muito sucesso local, e marca a estreia da nova formação: um octeto com Norberto, Raul, Canella, Leo, Touguinha, Helio, Pozzer e Belloni. Assumidamente influenciados pelo menos popular Breno Sauer, o disco tem um som bastante diferente dos seus antecessores. E leva uma ajuda extra na divulgação graças ao momento de especial popularidade dos oito, que agora tinham, nas noites de terça, um programa na TV Piratini todinho pra eles, chamado Norberto Baldauf & Seu Conjunto.
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Quer ouvir Ary Caymmi tocando Dorival Barroso com a cozinha do Baldauf? Aqui e aqui.
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Nosso soundcloud tá delícia, tá gostoso. Capricha no Martini e clica aqui.
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Na próxima semana, concluímos a saga Baldaufiana. Mas seguimos nesse fantástico e esquecido mundo dos Conjuntos Melódicos de Porto Alegre.
Comentários (5)
» Deixe seu comentárioLamento informar, Felipe, que era um cacoete nacional, e não regional esses “rr”…
Não me lembro de, em algum momento, escutar artistas porto-alegrenses cantando com sotaque do Rio…
Arthur, quando falas do que era ‘cruzar os paus’, mencionas duas vezes a mão esquerda: “aquela levada de bateria com vassoura na caixa na mão esquerda e frases nos tambores com a baqueta na mão esquerda”… qual destas funções era feita pela direita? Ah, no más parabéns pelo texto. abrazo
Outra coisa: a Philips já atuava no Brasil desde 1959, pelo menos.
Potz! Vassoura na esquerda, baqueta na direita…


















“rr” tão datados realmente… antes de começarem a pasteurizar nossa cultura até o limite impondo o sotaque do Rio para o país todo.