Data:28/ago/2012, 5h02min

Primavera árabe: passos e impasses (6)

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Façamos um sobrevôo sobre a “Primavera Árabe”:

Na Tunísia, primeiro país a viver essa “primavera”, houve uma mudança de regime, com eleições. O mesmo aconteceu na Líbia e no Egito, onde Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, foi eleito presidente e hoje, na prática, compartilha o poder com o Conselho Supremos das Forças Armadas. Em outros países houve mudanças de governo significativas, embora sem mudança de regime: Jordânia (monarquia), Oman, Iêmen, Kuwait. No Bahrain houve uma combinação de repressão com concessões. Outros países passaram por concessões ou promessas de tal, como no Marrocos, e na Argélia, onde um estado de sítio de 19 anos foi suspenso, ou no Sudão e no Iraque. No Sudão há contínuos protestos estudantis, além de uma situação de confronto político com o recém criado Sudão do Sul. Há países em que nada parece ter mudado, como o Líbano, ou ainda sobre que pouco se sabe, como o Saara Ocidental. Há também movimentos disseminados em países onde a presença muçulmana é marcante ou majoritária. O caso mais chamativo é o do Mali, às voltas com um movimento autonomista de Beduínos que, vindo de longa data, ganhou impulso nos últimos meses.

Entretanto hoje toda essa coleção de movimentos, embora tenham seu próprio impulso e sua motivação específica, parecem estar na expectativa do que vai acontecer na Síria. Ali importantes questões se definirão, ou entrarão emcompasso de espera por muito tempo: 1) o peso dos movimentos radicais muçulmanos, entre eles a Al-Qaeda; 2) o grau de fragmentação do próprio país; 3) a resistência do governo de Bashar Al-Assad e o destino de seu exército e armamento, tanto no caso de vitória quanto no caso de derrota e deposição, ou ainda de negociação; 4) o grau de intervenção de outros países da região, como a Arábia Saudita e a Turquia, com redefinição de supremacias; 5) o alinhamento ou realinhamento das potências envolvidas – Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França, além de outros países com poder reduzido mas com interesses na região, como Alemanha e Brasil – mais a China, por seu poder de veto no Conselho de Segurança da ONU. O fim do regime de Bashar Al-Assad vai deixar um “vazio” na região, e não se sabe como ele será ocupado.

Last, but not least, há Israel.

Pelo que se lê na mídia local e internacional, em Israel não há uma “Primavera”, mas um “Pesadelo Árabe”. Os movimentos populares são vistos pelo governo e parte da mídia israelense com profunda inquietação, senão uma angústia que beira o pânico.

Durante os recentes meses passados o foco das preocupações do governo de israel tinha sido o Irã, talvez até pelo desejo de, através de uma possível intervenção militar, interferir nas eleições norte-americanas de novembro próximo. Entretanto, com o volume crescente dos movimentos em outros países, e, sobretudo, com a eleiçào de um presidente da Irmandade Muçulmana no Egito, aquele foco se dispersou pela região.

Agora ele se concentra na Síria. Apesar de oficialmente “inimigo” de israel, o regime de Bashar Al-Assad era uma garantia para o governo de Tel Aviv, e um tampão contra movimentos muçulmanos mais radicais. O foco israelense se concentra agora em duas alternativas não excludentes: 1) a queda do atual regime e ascensão de outro mais claramente hostil a Israel; 2) a queda de parte do armamento do Exército Sírio, com armas químicas e armamento pesado significativo, em mãos da Al-Qaeda ou outro movimento ostensivamente anti-Israel (não se excluindo aí o Hezbollah.

O risco desse raciocínio está em reativar a hipótese de uma intervenção armada na região como solução para o drama israelense. Essa intervenção não teria mais o alvo imediato das instalações nucleares iranianas, mas sim os vários alvos das armas sírias. Seria impensável Israel fazer uma intervenção pró-Assad; mas seria também impensável uma intervenção contra Assad, dado o fato de que ninguém, de sã consciência, pode prever o que o sucederia. Então a única hipótese viável seria a de, na confusão, atacar o armamento – e isso, de qualquer modo – deflagraria uma situação de guerra na região, exigindo novas movimentações internacionais, inclusive no Conselho de Segurança.

Uma situação dessas poderia favorecer, pelo menos no curto prazo, o governo de Netanyahu no plano interno. Desde o ano passado o governo enfrenta amplos protestos pelo aumento do custo de vida, sobretudo no setor imobiliário. Recentemente a extrema-direita abandonou o governo, que se mantém graças à sua aliança com os trabalhistas de Ehud Barak. A divergência entre eles – Barak e Netanyahu – no que toca à eleição norte-americana, por exemplo, é velada mas óbvia, com o primeiro preferindo os democratas e o segundo os republicanos. Um clima de guerra forçaria novamente a união em torno do governo existente.

Por fim, ainda, quase no Pós-Escrito, há a questão palestina. Houve uma melhora na sua situação internacional. O Egito, por exemplo, hoje está menos distante da causa palestina do que esteve até o fim do regime de Mubarak. A Turquia está mais distante do governo israelense do que já esteve. Mas enquanto não mudar a verdadeira cadeia (em todos os sentidos) de regimes despóticos que ainda são a maioria na região, os palestinos permanecerão isolados na região em sua causa.

Somente a realização plena de uma “Primavera Árabe” poderá criar condições para que a política do governo israelense mude em direção à retomada de fato das negociações.

E isso (a retomada das negociações) será sepultado durante muito tempo caso Mitt Romney vença as próximas eleições nos Estados Unidos.

FIM DA SÉRIE.

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