Meus padrinhos moravam em Santa Maria e eu ia, uma vez por ano, visitá-los sozinha. Podia escolher, dependendo da época do ano da viagem, de presente de aniversário, uma sandália ou um sapato de inverno da Casa Eni, que eu comprava com a minha madrinha, longe da supervisão materna. Eram os meus primeiros voos, a viagem de ônibus, a escolha do sapato, estar numa cidade desconhecida. Com o tempo tive permissão para ir até a Livraria do Globo da Dr. Bozano e escolher um livro. Ficava horas olhando a vitrine, as estantes, até escolher o presente. Lembro de ter sido tomada por uma angústia descabida ao ver um volume que se chamava Uma prece para Danny Fischer, que hoje sei que era do Harold Robbins, mas que naquele momento me desassossegou profundamente enquanto eu me perguntava por que aquele homem precisava de uma prece. Levei muitos anos pensando neste título, e talvez a minha angústia revelasse apenas que eu descobrira, ali, sozinha, longe de casa, que havia muitos livros proibidos. A literatura, na minha vida, sempre se antecipou a todas as outras formas de amor. Ao ser leitora eu descobri muito cedo que o mundo era um lugar cheio de mistérios e perigos. Tudo se mistura na minha memória agora, a viagem de trem, a sandália de verniz preto com um tope branco, pespontada no acabamento e com um pequeno salto, andar sozinha em outra cidade. E aquela vitrine onde eu vi a minha expressão cheia de espanto e que foi como uma janela que me empurrou para o mundo. Para os livros. Para os amores.
Adorei. Singelo e instigante. Abração