Marcelo Carneiro da Cunha

Also Sprach Edir Macedo

Caríssimos sulvinteumenses, pois saibam todos que faz frio aqui no Norte profundo. Para os que pensam que frentes polares batem no Mampituba e desfalecem, uma informação: parte delas, ao menos, chega aqui.

E o que era frio ficou gelado com um texto que chegou até meus olhos cansados. Não sei se os estimados sulvinteumenses souberam, mas podem ver aqui o que andou falando o nosso nobre Iluminista de baixa voltagem, Edir Macedo.

Então, leram? Caíram os butiá do bolso dos nobres sulvinteumenses?

Segundo nosso nobre Bispo do Mal, não deve o Homem de Deus casar com mulheres mais velhas, ou com mulheres de outras raças. Se casar com mulher da sua idade ou acima, ele será dominado por ela, o que, naturalmente, vai contra as leis de Deus, que Edir Macedo lê e decifra sob a ótica do século 13. Se casar com mulher de outra raça, os filhos podem sofrer discriminação, porque afinal, ora vejam, a sociedade ainda é racista.

Se Deus existisse, seria essa a hora de cair um raio bem na cabeça do nobre Edir. Nas guampa, que hoje acordei gaudério, deve ser o friozinho com chuva lá fora.

Aliás, na ótima frase do escritor Joca Terron, se Deus existisse, igreja não precisaria de para-raio. Querem prova ainda maior da inexistência? Pois está aí, oferecida a todos por Edir, o Pensador.

Aparentemente, as boçalidades em questão fazem parte de um livro de pensamentos do Edir, que orienta o candidato a Homem de Deus e o ajuda a se comportar como deve se comportar um Homem de Deus profissional, ou seja, como um completo imbecil.

O que até não deve estar assim tão longe da realidade dos homens de Deus, pensando bem. Se um sujeito acredita que uma mulher virgem engravidou, o que somente poderia ser acreditado por tribos de pastores no século zero -, e que o resultado foi o nascimento de um filho de Deus, no que mais esse cara não vai acreditar?

Num Deus que se deu a todo esse trabalho para estabelecer contato com a humanidade que ele mesmo havia criado centenas de milhares de anos antes, quando bastaria aguardar mais uns séculos e se aproveitar da invenção da imprensa?

Um Homem de Deus tem todas as condições de se beneficiar dos conselhos de um Edir Macedo porque, obviamente, jamais precisou pensar em coisa alguma.

O que acontece, é que simplesmente esquecemos de tudo isso, atentos demais que estamos para o que acontece com o Gremão ou Intereco, com a Gretchen na Fazenda, com as alianças doidas da eleição de 2012 no Brasil. Como quem dirige por uma estrada, até vemos que passamos por árvores, morros, vaquinhas, sem dar a atenção devida para a sua existência ou natureza.

Da mesma forma, navegamos por um mundo assolado por demônios, sem realmente prestarmos atenção no que eles dizem, fazem, pensam. Deixamos de lado a baboseira que é uma homeopatia, uma astrologia, uma numerologia, sem refletirmos sobre o desperdício de inteligência que representam, ou os custos que nos trazem. Passamos sem olhar pelo templo da Universal, ali no centro de Porto Alegre, sem pensarmos sobre o que aquela esquizofrenia arquitetônica representa na prática. Aquela enorme vulgaridade é sim a representação visual do pensamento tortuoso do seu fundador, que, nesse texto, simplesmente se torna um pouco mais claro, diante dos nosso olhos.

Nenhuma breguice é suficientemente brega, nenhum lugar-comum assusta, nenhuma pobreza de espírito pode surpreender. No mundo criado por Edir, essa é a norma.

Aconselhar aos pobres coitados que pagam o dízimo, que é o que importa, a se comportarem de maneira absurda ou anacrônica nada tem de estranho. Esses pobres coitados são mesmo pobres coitados, tanto que foram para a Universal na esperança de parar de sofrer. Esses pobres homens sem Deus têm mesmo muito a aprender com Edir e seus mandamentos.

Não casem com mulheres mais velhas, porque elas vão mandar em vocês. Poderia ter sido dito por vários dos santos católicos em sua misoginia primitiva, é dito agora pelo Edir, pelos mesmos motivos. Não tenham filhos mestiços, poderia ser dito por qualquer engenista de razoável porte, é dito por Edir, aos seus pobres seguidores.

O texto do Edir é mais ou menos como a relação dos mais importantes brasileiros, do SBT, onde um nada absoluto como Luan Santana aparece muitos níveis à frente de Chico Buarque, e uma Joelma aparece à frente de Elis Regina. Ele é o retrato de um mundo tão invisível para as pessoas da superfície quanto assustador quando o vemos.

Esse mundo existe, e milhões vivem nele, sendo alvo de todo tipo de exploração, desde sempre. Saber disso, aceitar e lidar com essa realidade é sim necessário.

O que não é necessário, não é aceitável, e rompe com qualquer norma de civilidade é dar a essa barbárie o tratamento de tapete vermelho que ela recebe, na isenção de impostos e no acinte de passaportes especiais para Edir e similares.

Nossos governos tratam como divino o que é simplesmente abuso, e isso está, fundamentalmente errado. Aceitar a existência desse, digamos, pensamento, é natural. Dar a ele um espaço privilegiado é um erro, que ainda vai custar, a todos nós, Homens de Deus e nem tanto, muito, muito caro.

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Comentários (3)
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Comentário de: Mucuim | 19 de julho de 2012 | 8:04

A humanização do divino em o evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago.

A literatura é, talvez, o meio mais profuso da palavra. Um instrumento com o qual ela, a palavra, institui verdades e inverdades – por vezes fazendo com que uma torne-se a outra. Assim, baseada na liberdade literária de criação, pretende esta pesquisa mostrar a valorização que José Saramago, em O evangelho segundo Jesus Cristo, faz do que é nato ao homem e salientar a consonância de seus pensamentos aos do filósofo alemão Friedrich W. Nietzsche, em seu livro O Anticristo. Esta obra saramaguiana nos faz pensar na veracidade do que lemos, muitos escritos proclamados como verdades absolutas, na aceitação de atitudes ou na falta delas e em nós como um todo com quantidade expressiva de uma fé que nem questionamos como ou por quê. A personalidade das personagens de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, é cheia de qualidades e defeitos, o Divino saramaguiano nos mostra um Deus mais facilmente compreensível. Deus é, assim também, tratado por Nietzsche em O Anticristo. A defesa de Deus com sentimentos humanos e, portanto, ditos impuros é tema das duas obras aqui citadas. E ainda encontramos, também, em Moema de Castro e Silva Olival outra fonte para embasamento desta pesquisa. Baseando, principalmente, no romance de José Saramago e na teoria filosófica de Friedrich Wilhelm Nietzsche, este artigo tenciona evidenciar o Divino humanizado de Saramago. Outro ponto deste trabalho é a explicitação do poder proveniente do discurso persuasivo, da Palavra e da possível criação de Deus pelo homem por meio do poder da Palavra.

Leia mais: http://www.urutagua.uem.br/010/10moiana.htm

Comentário de: Victor | 19 de julho de 2012 | 11:50

E esse Mucuim aí de cima? Não saiu do tema?
Mas voltando ao texto: e essas figuras, como o Edir Macedo, por serem pastores de grandes rebanhos, recebem toda a atenção na época de eleições. Inclusive os seus pontos de vista são devidamente considerados pelos candidatos, inclusive os da esquerda. Que esqueminha social mais f…

Comentário de: Fabiano Avila | 20 de julho de 2012 | 22:35

Recomendarei este texto ao querido jornalista Juremir Machado Da Silva, que adora falar mal de Deus e todo mundo, mas quando se trata de assuntos da ”bancada evangélica”, simplesmente se cala…Será porque o honorável bispo Edir é seu patrão? Perguntarei também o que é pior: ter a família Sirotsky ou Edir Macedo como patrão?

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