Especial Legalidade
Depoimento
Jango pediu aos sindicalistas contrários ao parlamentarismo que apoiassem a sua posse
Jornalista e ex-líder sindical, Ony Nogueira afirma que se tivessem mantido o movimento da resistência democrática, talvez não tivesse ocorrido o hiato na vida democrática do Brasil

Jango chega ao Senado, em Brasília, para a posse - Foto: Acervo Fotográfico do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa
Ony Nogueira
Olhar para trás requer coragem. Especialmente se implica em virar uma página da história brasileira, para reviver fatos ocorridos há um quarto de século e que se projetam nos dias atuais com incrível força.
A renúncia do presidente Jânio Quadros, dada a público através de um dos seus famosos bilhetinhos, como os que usara o então Chefe da Nação para dar ordens aos seus subordinados, fossem serviçais do Palácio da Alvorada ou Ministros de Estado, colheu a todos de surpresa. Apenas sete meses haviam se passado desde sua eleição e mesmo seus adversários políticos, aplaudiam a política externa adulta que Jânio fazia, enquanto os parlamentares de todos os níveis discutiam as medidas proibitivas como rinha de galo e corridas de cavalos em dias úteis.
O movimento sindical gaúcho buscava maneiras de burlar a proibição legal de associações intersindicais. Tínhamos a União dos Trabalhadores da Orla Maritíma, que congregava todas as categorias profissionais da faixa portuária, como Estivadores, Conferentes de Carga e Descarga, Consertadores de Carga e Descarga, Trabalhadores de Capatazia, Vigias Portuários e ainda todas as categorias profissionais de marítimos (tripulantes de navios) Moços, Marinheiros e Contra-Mestre, Taifeiros, Oficiais de Náutica e Pessoal de Máquinas.
O exemplo estava sendo seguido por setores de atividades, onde categorias afins se reuniam formando entidades, cujas nomenclaturas fugiam ao que determinava o quadro do Plano das Confederações, previstas na Consolidação das Leis do Trabalho. Em Caxias do Sul, já havia o exemplo dado pelos Sindicatos Reunidos.
Naquele tempo, prevalecia como lei maior, no meio dos trabalhadores, o princípio de que “nenhum sindicato é fraco.” Bancários, gráficos, alfaiates, professores, ainda sem a força que com o tempo e o trabalho desenvolvido, conseguiram atingir, buscavam na faixa portuária e no transporte coletivo, o apoio que Ihes garantia sucesso nas lutas reivindicatórias.
O Sindicato dos Tranviários, quando os bondes detinham o monopólio do transporte coletivo, e a União dos Trabalhadores da Orla Marítima, paralisavam a cidade, com reflexos em todo o Estado do Rio Grande do Sul.
Foi nesse clima que naquele dia 25 de agosto de 1961, as lideranças sindicais receberam a renúncia do presidente Jânio Quadros.
O governador Leonel Brizola fazia seus contatos com autoridades em vários pontos do País, especialmente com militares, e as notícias davam conta de que o vice-presidente João Goulart havia sido vetado. Não assumiria. Nem mesmo teria direito de regressar ao Brasil da viagem que fazia à China Comunista, como representante do Governo Brasileiro e por inspiração de Jânio.
Junto com vários dirigentes sindicais, nos reunimos na Secretaria do Trabalho e Habitação, cujo titular, Clay de Araújo, como de hábito, respeitando a posição dos sindicatos, nos acompanhou até o Palácio Piratini para um primeiro encontro com Brizola. Dalí sai mos para organizar o movimento sindical de resistência ao golpe.
O primeiro ato público teve lugar na escadaria da Prefeitura Municipal, às 18 horas. Os oradores não fizeram alusão ao prefeito Loureiro da Silva, que se manteria afastado durante todo o tempo que durou a resistência que culminaria com a posse do vice-presidente Jango.
As assembléias sindicais começaram a ser convocadas. Se multiplicaram. Não houve quem se pronunciasse contrariamente à Legalidade. Nenhum dirigente sindical, nem mesmo os chamados” pelegos”, assim identificados por segmentos mais avançados, “nacionalistas”, que predominavam, deixaram de apoiar a Legalidade. Mas parecia pouco. Queríamos muito mais. Uma organização mais abrangente, uma entidade que coordenasse todo o movimento sindical naquele momento. E com urgência.
Os nomes
Jorge Campezatto, Álvaro Ayaia, Joaes Carlos Gomes, Francisco Silva, Íris da Silva, João Gregório do Nascimento, Wilson Lima, João Luiz Flores, Firmino Bimbi, José de Moraes Terra, Luiz Vieira, Lauro Hagemann, Enzo Pereira, Telmo Romero, Roque Cruz Vargas, Assis Brasil Alburquerque, Aldo Olivais, José Azeredo, Liseu Bracheili, Júlio Jardim, Cirano Araújo, Dalimar Severo, Januário Luiz Barreto, Nery Pereira da Silva, Abdon de Meilo, Waldomiro Chaves, Clóvis Holanda, Vitor Hugo de Oliveira Nast e Ivo dos Santos Amaral, entre tantos outros, que atuavam em Porto Alegre e na Região Metropolitana, passaram a manter estreito contato, não só participando de vigílias no Palácio Piratini, como se reunindo em grupos, na sede do Sindicato dos Alfaiates, na rua Sete de Setembro, num velho prédio, um andar abaixo do piso onde funcionava a Rádio Difusora, bem como no Mata-Borrão, construção em madeira que tinha o formato de um grande mata-borrão, que ocupava o local onde hoje está o imponente edifício sede da Caixa Econômica Estadual, na avenida Borges de Medeiros com Andrade Neves.
Criado o Comando Sindical Gaúcho Unificado
A necessidade de se concentrar forças nos levou à criação do Comando Sindical Gaúcho Unificado, que tinha por tarefa principal fundar os Comitês de Resistência Democrática nos locais de trabalho. Eleitos os sindicalistas José Cezar Mesquita, Álvaro Ayala, Wilson Lima, Ony Nogueira e Roque Cruz Vargas, a participação dos trabalhadores cresceu e recebemos incumbências cada vez maiores, do governador BrizoIa, como organizar reservas de alimentos, roupas, alistar voluntários para a resistência, distribuir armas e organizar os Batalhões Operários.
Os Batalhões Operários
O espírito cívico da população foi se projetando de tal maneira que não havia uma só fábrica, um só local de trabalho, que não fosse transformado num núcleo de resistência. E os pedidos de armas não puderam ser atendidos. Nem era essa nossa intenção. Organizar, sim. Armar, ainda não. E havia, de outro lado, a preocupação de desmentir a existência de tais batalhões para as autoridades militares de fora do Estado que já haviam se manifestado contrárias à medida taxando-a de inconstitucional, como se essa opinião pudesse abalar nossas convicções.
E o jornal Última Hora. o único dos cinco que circulavam normalmente em Porto Alegre que cobria de forma imparcial e completa os acontecimentos, plenamente identificado com a Legalidade, publicou, na primeira página, a foto (página inteira) do Batalhão Operário subindo a avenida Borges de Medeiros, rumo ao Palácio Piratlni, para sua apresentação ao governador Brizola.
Um dos responsáveis pela marcha do Batalhão foi o estivador Her Agapito da Luz, que havia sido sargento do Exército.
Eu tive a emoção de integrar esse Batalhão, marchando na primeira fila.
Muitos queriam uma greve geral no Estado
Com o deslocamento de alguns companheiros para outros setores, passei a ocupar o cargo de Secretário Geral do Comando Sindical Gaúcho Unificado. Muitos dos nossos valorosos companheiros de luta, como Adamastor Bonilha, Francisco de Paula Dias e Roque Cruz Vargas, entre outros, pregavam a greve geral como sendo uma maneira de apoiar a posse de Jango na Presidência da República. Me posicionei contra: havia umas duas centenas de caminhões de carga, mobilizados para o transporte de tropas, se fosse o caso. Diante dessa possibilidade, não devíamos pensar em paralisar o Rio Grande mas trabalhar em regime que garantisse a máxima produtividade. Guerra exige mais trabalho e não greve geral, eu afirmava e defendia esse ponto de vista, permanecendo no meu posto sem arredar pé. Quando me afastava, por pouco tempo, ao retomar, encontrava uma votação de regime de urgência, pela greve. E rapidamente mandava chamar vários dirigentes sindicais que, como eu, não queriam a greve.
O argumento dos que defendiam a paralisação dos trabalhadores gaúchos era de que estávamos “alimentando o corvo Lacerda, enviando alimentos para a Guanabara, carregando navios com gêneros alimentícios … ”
Venceu a nossa corrente e as paralisações não ocorreram. Os trabalhadores permaneceram mobilizados e trabalhando. para enfrentar uma possível revolução.
Batelões afundados na Barra de Rio Grande
A notícia dava conta de que três batelões (chatas utilizadas para o transporte de areia retirada pelas Dragas, nos canais) haviam sido afundados na barra de Rio Grande, estando impedida a entrada de navios de guerra, como havia sido anunciado. Mas tal não ocorrera. Fora uma estratégia utilizada para dissuadir os militares que queriam invadir o Rio Grande do Sul para aniquilar a resistência democrática. E para isso se contou com a participação do Capitão dos Portos do Estado.
Jango pediu que concordássemos com sua posse
O presidente João Goulart, uma noite antes de deixar o Palácio Piratini, para viajar a Brasília, onde tomaria posse, recebeu as lideranças sindicais em Palácio, para dialogar. Havia muita resistência de parte dos sindicalistas, que não aceitavam ver diminuídos os poderes do Chefe da Nação, após a renúncia de Jânio Quadros, como condição para que o veto ao nome de Jango fosse retirado.
Em um dos manifestos que recebi a incumbência de redigir e que foram divulgados como sendo a posição dos trabalhadores, os parlamentares que haviam concordado com a mudança do regime foram chamados de “eunucos, traidores, etc., etc …..”
Na reunião, que começou às oito da noite e que se estendeu até cerca de meia-noite, Jango nos disse que “desejava assumir a Presidência da República, mesmo com o regime parlamentarista implantado. Não queria mudanças radicais nem permitiria o derramamento de sangue dos brasileiros. E nos prometeu, solenemente, que tudo faria para fazer retornar o regime presidencialista.
O Presidente cumpriu sua palavra.
Talvez nosso apoio não devesse ter cessado com a posse e a mudança do regime. Tivéssemos mantido o movimento da resistência democrática, talvez não tivesse ocorrido o hiato na vida democrática do Brasil.
Para finalizar, dois registros do período pós Legalidade:
I ° Na primeira audiência que tive com o presidente Jango, em Brasília, no dia em que o Chefe do Escritório Comercial do Brasil na Argentina, Perro Carrion, levou Nestor Jost, então deputado do PSD, para assumir o Banco do Brasil. Era uma segunda-feira. Pedi a Jango que recebesse o diretor da Casa Popular, hoje Demhab, engenheiro Hugo Girafa, que estava na capital federal há mais de 30 dias aguardando uma audiência com o Presidente.
Jango me disse: “Mas Ony, o Girafa é nosso inimigo. Tenho mais coisas a fazer. Ele que aguarde”.
Eu insisti: “Presidente, o Girafa quer o dinheiro que o senhor prometeu quando era vice-presidente. Esse dinheiro é para fazer casa para quem mora embaixo das pontes. Ele integra o governo Loureiro, só isso”.
Jango, sem pensar emendou: “Está bem. Se é para o bem do povo, vou recebê-Io”.
Eu puxei um cartão dos meus e pedi ao Presidente que escrevesse ali, autorizando Hugo Girafa a chegar até ele. Jango escreveu e assinou.
Quando ia guardando o cartão, puxei-o novamente para conferir a assinatura. É que eu conhecia as duas rúbricas que ele usava. Uma valia, outra, os assessores mais chegados conheciam como ordem para despistar. A que ele havia aposto no meu cartão era a “quente”. Jango me fitou e sorriu.
Entreguei o cartão às 11h da manhã para o Girafa e, pela tarde, ele já era recebido em Palácio. E eu viajava no primeiro voo da tarde, com uma carta manuscrita, enviada pelo meu amigo Hugo Girafa, para o prefeito Loureiro da Silva.
Jango convidou e Girafa aceitou voltar ao PTB, meses após.
2° Em outra oportunidade, acompanhando uma comissão de marítimos em audiência com o presidente Jango, na Granja do Torto, os ânimos esquentaram e Jango, a certa altura, disse gritando: “Vocês só exigem de mim. Não me dão nada. Nenhuma alternativa! Qualquer hora entrego tudo isso para os militares e vou embora!” …
Na época da Legalidade, Ony Nogueira era dirigente sindical portuário. Quando escreveu este depoimento, era jornalista, radialista e chefe do Gabinete de Imprensa da Câmara Municipal.
Este texto foi publicado no livro Legalidade — 25 anos, A Resistência que Levou Jango ao Poder, da Editora Redactor
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