Benedito Tadeu César
A gente não quer só comida…
Benedito Tadeu César*
A discussão em curso no Brasil sobre se e como os projetos partidários devem se dirigir às “novas” classes médias está equivocada. Não se trata de se promover uma guinada à direita, como afirmam alguns ou como criticam outros, para satisfazer aos anseios das classes médias (novas ou velhas). Não se trata de deixar de responder aos anseios dos segmentos sociais populares ou das chamadas classes pobres ou, ainda, do “povão”.
Até por uma questão estatística e por motivos meramente eleitorais, quem não tem discurso e propostas capazes de conquistar os votos do “povão”, dança – perde as eleições.
Trata-se, na verdade, de oferecer projetos políticos capazes de satisfazer aos desejos de ambos: tanto do “povão”, quanto das “novas” e das “velhas” classes médias. Desejos que se somam e se complementam. Supridas as necessidades sociais básicas, todos os indivíduos, classes e segmentos sociais passam a desejar mais. Esta é a realidade vivida no Brasil hoje.
Trata-se de ter discurso e projeto capazes de “ganhar” e responder aos anseios de todos os indivíduos que ascenderam socialmente nos anos recentes, estivessem ou estejam eles situados nos diferentes extratos do “povão” ou das classes médias brasileiras. E esses indivíduos são milhões!
Eles agora querem mais e melhor. Mais e melhor educação, mais e melhor saúde, mais e melhor segurança, mais e melhor alimentação e vestuário, mais e melhor diversão e arte, mais e melhor gestão pública, com menos corrupção, menos empreguismo e menos patrimonialismo e mais e muito maior efetividade na execução das políticas públicas.
Trata-se de realizar um projeto e de executar uma agenda social-democrata em sentido pleno: a) distribuir renda, para produzir equidade social, b) taxar os ganhos de renda e de capital, para obter recursos para as políticas públicas e c) prestar serviços públicos de qualidade, para satisfazer as necessidades e os desejos, agora mais sofisticados, da maioria da população.
Realizar esta agenda exigirá que sejam enfrentados alguns tabus históricos da política brasileira. Para que estejam aptos a prestar os serviços públicos de qualidade, os governos federal, estaduais e municipais terão que realizar reformas profundas nas estruturas do Estado. Ainda que de forma incremental, pois que as resistências das diferentes corporações serão imensas, terão que realizar as reformas tributária e fiscal, administrativa e previdenciária, além da política e do judiciário.
Sem que estas reformas sejam realizadas, não haverá recursos e condições de gestão para se oferecer saúde e educação públicas e gratuitas de qualidade, segurança coletiva, habitação decente para a maioria, meios e vias de transporte em condições de satisfazer os novos anseios populares.
Não se trata de fazer concessões à direita. Como se apenas a direita tivesse anseios de consumo qualificado, gostasse e tivesse direito de gozar das coisas boas e de qualidade. A direita, como se sabe, quer tudo isto apenas para ela e para a minoria que a cerca, sob o argumento de sua “maior competência” social! Quem tem desejos de qualidade e bem estar para a maioria da população nunca poderá ser chamado de “direita”, pois considera que a competência das pessoas é em muito fruto das oportunidades que a sociedade lhes ofereceu.
Trata-se, portanto, de promover o desenvolvimento pleno das potencialidades nacionais, promovendo ao mesmo tempo a inserção qualificada de todos os segmentos sociais nas benesses deste desenvolvimento. São estes, no final das contas, os anseios das “novas” classes médias brasileiras, de forma semelhante ao que ocorreu em países de modelo social-democrata em todo o mundo.
Claro que os recursos disponíveis são escassos e têm que ser racionalmente utilizados e dirigidos aos segmentos sociais, setores econômicos e serviços públicos com maiores necessidades e urgências. As decisões a cada momento, por sua vez, precisam integrar políticas de médio e longo prazo. Fazer estas escolhas beneficiando às minorias ou às maiorias é que definirá se as políticas adotadas por tais ou quais partidos serão de direita ou de esquerda.
* Cientista político, professor universitário e consultor político
Comentários (6)
» Deixe seu comentárioTadeu,
gostei do texto, discordo de alguns pontos, como chamar a classe C de nova classe média, mas aí já é minha opinião pessoal.
Abraços e votos de sucesso.
Margrid
Caro Tadeu
Como primeiro contato com vocês, destaco esta parte do teu texto, claro e preciso:
a) distribuir renda, para produzir equidade social, b) taxar os ganhos de renda e de capital, para obter recursos para as políticas públicas e c) prestar serviços públicos de qualidade, para satisfazer as necessidades e os desejos, agora mais sofisticados, da maioria da população.
Mas, como incrementar esta agenda? O primeiro passo seria a requalificação do serviço público, em todos os níveis, profissionalizá-lo para que seja blindado da ingerência político partidária. Reduzir drásticamente os cargos em comissões e instituir a exigência do notório saber para as funções públicas, isto é, da gerência da coisa pública. Um gestor com “rabo preso” é como uma raposa num galinheiro. Confira os portadores do sobrenome Sarney, por onde passam o estrago que promovem. Haveria alguma dúvida que são predadores da República? Se estes são avatares da democracia é porquê o próprio conceito está enviezado, aptou-se pela facilidade chamada de pragmatismo que é a forma de jogar com o que se tem disponível pra que? Deixar como está sabendo como é que fica?
Atenciosamente Alduisio
Caro Tadeu, o mais importante de tudo é realizar as reformas, todas elas necessárias: tributária e fiscal, administrativa, previdenciária, política e do judiciário. Porém, com a cultura que domina hoje a classe política e demais corporações envolvidas, de fazer só aquilo que lhes trará beneficios, desanima. Acredito mais na iniciativa de educar, criar uma nova cultura nas novas gerações. E isto, vai levar um tempão. Em tempo: tem alguns serviços públicos que funcionam muito bem e merecem ser destacados. Abraço!
Seu texto, mestre merece nota mil. Todavia, se trata de não apenas termos “projetos” e, sim, vontade pollitica para executá-los. É verdade, Tadeu, queremos mais EDUCAÇÃO, saúde, segurança… menos, mas MUITO MENOS ou nenhuma (?) corrupção nos 3 poderes da União. Queremos ter o retorno (com toda a transparência) da fábula de impostos que pagamos. Mas, meu professor querido, sinceramente? Não acredito chegar a ver estas coisas acontecerem. Nem rezando para São Expedito, o santo das causas impossíveis… Cada dia que vivo, sinto mais desânimo de ver uma luzinha no fim do túnel. Um grande e afetuoso abraço. Você é um idealista…
Querido Professor Tadeu! Nunca deixo de ler suas palavras pois sempre é um grande aprendizado. Neste texto consegues traduzir exatamente o que sinto na pele de uma trabalhadora da política de assistência social, precisamos superar a época que serviço público pode ser de qualquer jeito por que é para “pobre”. Pobre de espírito é quem ainda pensa assim. Precisamos de serviços públicos de qualidade com profissionais capacitados para tal.
De fato, professor. Atender a essas novas demandas significa uma reestruturação geral na forma como se faz política no Brasil desde sempre.